Desmascarar a insensatez


Num pequeno relato, conservado por Lucas (Lc 12, 13-21), Jesus revela o que pensa daquela situação tão contrária ao projeto querido por Deus, de um mundo mais humano para todos. Não narra esta parábola para denunciar os abusos e os atropelos que cometem os proprietário mas para desmascarar a insensatez em que vivem instalados.

Comentário de José Antonio Pagola ao Evangelho do XVIII Domingo Comum, em http://iglesiadesopelana3c.blogspot.pt/
ilustração: http://wordofloveforyou.com

Um rico proprietário vê-se surpreendido por uma grande colheita. Não sabe como gerir tanta abundância. "Que farei?". O seu monólogo mostra-nos a lógica insensata dos poderosos que só vivem para acumular riqueza e bem-estar, excluindo do seu horizonte os necessitados.

O rico da parábola planifica a sua vida e toma decisões. Destruirá os velhos armazéns e construirá outros maiores Armazenará ali toda a sua colheita. Pode acumular bens para muitos anos. De futuro, só viverá para disfrutar: "deita-te, come, bebe e leva uma boa vida". De forma inesperada, Deus interrompe os seus projetos: "Imbecil, esta mesma noite, vão exigir-te a tua vida. O que acumulaste, de quem será?".

Este homem reduz a sua existência a disfrutar da abundância dos seus bens. No centro da sua vida está apenas ele e o seu bem-estar. Deus está ausente. Os jornaleiros que trabalham as suas terras não existem. As famílias das aldeias que lutam contra a fome não contam. O juízo de Deus é determinante: esta vida só é estupidez e insensatez.

Nestes momentos, praticamente em todo o mundo está a aumentar de forma alarmante a desigualdade. Este é o facto mais sombrio e inumano: "os ricos, sobretudo os mais ricos, vão ficando mais ricos, enquanto os pobres, sobretudo os mais pobres, vão ficando muito mais pobres" (Zygmunt Bauman).

Este facto não é algo normal. É, simplesmente, a última consequência da insensatez mais grave que os humanos, estamos a cometer: substituir a cooperação amistosa, a solidariedade e a busca do bem comum da Humanidade pela competição, a rivalidade e o açambarcamento de bens em mãos dos mais poderosos do Planeta.

Desde a Igreja de Jesus, presente em toda a Terra, deveria escutar-se o clamor dos seus seguidores contra tanta insensatez, e a reação contra o modelo que guia hoje a história humana.

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