«E se trocássemos umas ideias sobre vida de casal?» Entrevista com o psiquiatra José Gameiro, co-fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar
José Gameiro
nasceu em 1949. É médico psiquiatra e co-fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar.
No consultório, há maples individuais e um sofá onde cabem dois. Há casais que o consultam e se sentam longe um do outro. Outros repetem que continuam a gostar da pessoa com quem vivem, não sabem é ser felizes com ela, no todos os dias. O problema é o todos os dias. O problema é o outro ter outro. O problema é o outro ser inaturável, criticar de mais, ter uma família de origem chata. Consultam-no a ver se ainda conseguem ser felizes. Alguns separam-se, outros reconstroem-se. Porquê, para ele, a terapia conjugal? “O meu fascínio profissional pelos casais tem tudo a ver com a história dos meus pais, ainda que o encontro com a terapia familiar tenha sido causal.” O que é que um terapeuta conjugal faz, exatamente? “Trabalho a possibilidade de o amor ser vivido.”
No consultório, há maples individuais e um sofá onde cabem dois. Há casais que o consultam e se sentam longe um do outro. Outros repetem que continuam a gostar da pessoa com quem vivem, não sabem é ser felizes com ela, no todos os dias. O problema é o todos os dias. O problema é o outro ter outro. O problema é o outro ser inaturável, criticar de mais, ter uma família de origem chata. Consultam-no a ver se ainda conseguem ser felizes. Alguns separam-se, outros reconstroem-se. Porquê, para ele, a terapia conjugal? “O meu fascínio profissional pelos casais tem tudo a ver com a história dos meus pais, ainda que o encontro com a terapia familiar tenha sido causal.” O que é que um terapeuta conjugal faz, exatamente? “Trabalho a possibilidade de o amor ser vivido.”
Anabela Mota Ribeiro, jornal Público, 5.4.2015
As pessoas
estão numa relação para amar ou ser amadas?
A maior parte
das pessoas está para as duas coisas. Ser amado é tão satisfatório como amar.
As duas coisas são complementares. Mas ser amado é mais uma construção do que
amar. Posso sentir que sou amado, e se perguntar à outra pessoa, ela pode achar
que não me ama tanto, ou que me ama mais do que sinto.
A reciprocidade
é fundamental para o sucesso de uma vida amorosa?
Para mim, individualmente, é fundamental. Já conheci pessoas que amaram com a sensação de não serem amadas da mesma forma e que conseguiram viver essa situação. Se vivem sem sofrimento, tudo bem. Também já vi muita gente que, em fases críticas de uma relação, achou que, para trás, nunca tinha sido amada, ou que nunca tinha amado. E alguém que está deprimido pode achar que faz sentido não ser amado porque não presta para nada.
Para mim, individualmente, é fundamental. Já conheci pessoas que amaram com a sensação de não serem amadas da mesma forma e que conseguiram viver essa situação. Se vivem sem sofrimento, tudo bem. Também já vi muita gente que, em fases críticas de uma relação, achou que, para trás, nunca tinha sido amada, ou que nunca tinha amado. E alguém que está deprimido pode achar que faz sentido não ser amado porque não presta para nada.
Pergunta-se:
“Porque é que o outro havia de gostar de mim?”
Sim. Há pessoas
que vivem relações de 30 anos sempre a pensar: “Mas o que é que eu tenho para
esta pessoa gostar de mim?” E começam à pesca das coisas que têm ou não têm.
Há resposta
para isso?
Gosta-se porque
se gosta, ama-se porque se ama. Quando amamos alguém, não sabemos muito bem
porquê. Quando deixamos de amar, arranjamos 30 razões para dizer porquê.
Então gostar é
um mistério.
Completamente.
Já há muitos anos que desisti de perceber porque é que gostamos de outra
pessoa. Há quem diga que é o cheiro.
A coisa
animal...
É uma coisa
irracional. Isto não tem nada que ver com a relação ser mantida. Se viver com alguém,
tenho de me adaptar, e vice-versa, à pessoa. E as cedências, as negociações,
são feitas em nome daquilo que sinto e que a outra pessoa sente. Se queremos
estar juntos, não temos outro remédio senão adaptarmo-nos. Ou então
separamo-nos. Separarmo-nos de uma pessoa de quem gostamos, e que gosta de nós,
é estúpido.
Trabalha com
casais em crise; eles continuam a gostar um do outro?, não sabem é estar
juntos?
Parto do
princípio, porque mo dizem, que continuam a gostar um do outro. Isso é uma
coisa que não trabalho. O amor não é trabalhável. Trabalho a possibilidade de o
amor ser vivido. Aí tem que ver com os comportamentos.
Ao cabo destes
anos, tem uma definição sua para gostar?
A definição que
vou dar é um bocadinho egoísta. É gostar de estar com a pessoa. Isto não
chega... Mas é gostar de estar com a pessoa de uma forma bastante permanente. É
gostar de ir ter com ela. É sentir necessidade de estar com ela. É sentir falta
quando não se está. E é também uma espécie de solidariedade e de intimidade que
se cria com alguém. Não posso estar com alguém com quem não estou
solidário. Posso ter opiniões diferentes, mas tenho de ser solidário. Se a
minha mulher vem falar da sua vida, do seu trabalho, ela não espera que me
comporte como um colega. Espera que eu perceba qual é o seu ponto de vista. Não
há objectividade numa relação amorosa, não pode haver.
Gostar é gostar
de estar com a pessoa. Isto não chega... Mas é gostar de estar com a pessoa de
uma forma bastante permanente. É gostar de ir ter com ela. É sentir necessidade
de estar com ela. É sentir falta quando não se está. E é também uma espécie de
solidariedade e de intimidade que se cria com alguém.
E a competição
que há entre os dois membros do casal? É o oposto da solidariedade. Não é
preciso serem colegas, mas se forem isso torna-se mais taxativo. Competem em
relação a ter melhor posição, reconhecimento.
Os casais que
trabalham juntos podem ser um problema. O problema maior é a vida conjugal ser
invadida pela vida laboral, e as discussões conjugais serem trazidas para a
vida laboral. É uma situação especial, não aconselho. Mas há quem sobreviva bem
a isso. A competição pela pressão social é sobretudo um problema dos
homens. As mulheres estão cada vez mais em lugares de destaque, de maior
visibilidade. Depois, há a questão do dinheiro. Um homem ganhar mais do que uma
mulher não é um problema, uma mulher ganhar mais do que um homem é, muitas
vezes.
Falamos de uns
arquétipos que vão aparecendo na literatura, no cinema, nas conversas entre
amigos. Aparecem, mais do que tudo, a partir da nossa história pessoal, daquilo
que vimos em casa, na nossa família de origem? Foi aí que aprendemos o que é
gostar, o que é estar com um cônjuge?
Se falar de
mim, não. Sou um filho de pais separados. A relação conjugal que vi foi sempre
de tensão e conflito. No entanto, o meu modelo de relação conjugal não é de
modo nenhum esse. Vivo muito mal numa relação conjugal conflitual. Não
tenho dúvidas de que a história pessoal influencia, mas com a idade e a
experiência clínica acho cada vez mais que as pessoas se podem libertar da sua
história passada.
Gostava de
ouvir a história dos seus pais. Pode contar?
O meu fascínio
profissional pelos casais tem tudo a ver com a história dos meus pais, ainda
que o encontro com a terapia familiar tenha sido causal. Os meus pais
casaram-se em 1944. Nasceu a minha irmã em 45 e eu em 49. É uma história de
amor que durou até ao fim da vida dos dois, ainda que com a separação. Pode ser
uma construção minha, mas tenho dados objectivos.
[…]
Não estamos
todos a ficar paranoicos com o que deve ser a educação?
Percebo que se
pretende trabalhar com os pais nas suas dificuldades funcionais. Mas educação
parental é uma coisa que não faz nenhum sentido. Há 20 mil maneiras de se ser
pai. Aquilo que é o modelo de uma família funcional não existe. Pode haver
famílias aos nossos olhos disfuncionais, em que os miúdos ficam sozinhos e não
tomam banho, e que são funcionais. Os técnicos têm uma imagem e estão cheios de
preconceitos. E muitas vezes aplicam estes preconceitos a famílias a que não
faz sentido que sejam aplicados.
O âmago é a
criança sentir-se amada?
Sim. E o
sentir-se amada pode ser de 20 mil maneiras.
E é a trave a
partir da qual se pode construir o edifício…
Uma criança
para crescer e para ter alguma saúde mental tem de ter sido amada. Não tem de
ser amada pelo pai e pela mãe, pode ser amada só pelo pai, só pela mãe, por uma
tia, uma avó ou por uma figura muito importante.
Alguém que a
sustém.
Alguém que seja
contentora. Se isso tem de ser feito numa família tradicional? Nem pouco mais
ou menos. A adopção por casais homossexuais: a questão que ponho é social. Como
é que um miúdo na escola vive isso? É uma treta dizer-se que o miúdo precisa de
uma figura masculina e de uma feminina.
Porque vão
encontrando sempre figuras femininas e masculinas?
Eu posso ser
uma figura feminina, apesar de ter pénis. No sentido de ser aquilo que é
tradicional na figura feminina: mais acolhedor, mais colo. Não tem de passar
pela anatomia das pessoas, muito menos pela orientação sexual.
Estamos a falar
de estereótipos que hoje nos dominam. Também não há-
de ser por acaso que cada vez mais as pessoas
vão aos psicólogos, põem as crianças a fazer terapia, fazem terapia conjugal…
De mais.
Porque, na
verdade, querem sentir-se normais, querem sentir-se bem? É esta a opinião que
tem?
Não. Quem entra
aqui está sofrer. Raramente uma pessoa entra aqui só para se conhecer a si
própria, sem que tenha havido um gatilho de sofrimento.
O que queria
dizer: as pessoas precisam de se sentir enquadradas socialmente e achar que a
sua história, aquilo que vivem, encaixa no que se designa por situação normal.
Isso é verdade.
As pessoas muitas vezes vêm aqui e dizem: “O que estou a sentir é isto. É
normal?” As pessoas não são tão diferentes como isso em relação ao sofrimento.
Quando percebem que aquilo que estão a sentir não é nada do outro mundo, que
não estão sozinhas, e que é uma coisa que é trabalhável e ultrapassável, ficam
mais tranquilas. Há pessoas que querem ser normais, formatadas, e há outras que
não querem. Querem ter a sua individualidade e a sua maneira de estar. Não
querem é sofrer com isso.
[…]
Na vida de
todos os dias, devemos saber tudo dos nossos pais, do nosso marido, da nossa
mulher? Impõe-se a verdade?
Não. Quando se
fala de dizer tudo, normalmente fala-se de relações extraconjugais. Não é disso
que estou a falar. Um exemplo: se a minha mulher, numa conversa com a mãe dela
disser mal de mim, não quero saber. E a minha mulher terá o bom senso de não me
dizer. Pode ser um desabafo do momento e vai inquinar a minha relação com a
minha sogra e dificultar a minha relação conjugal.
Nas relações
extraconjugais, deve-se dizer?
Será que
preciso de saber que a outra pessoa teve uma relação ocasional com alguém? Se
não souber, não me importo, se souber, importo-me. O que sei é que algumas
relações conjugais estão paradas no tempo porque uma das pessoas tem uma
relação fora do casamento e essa relação não é clara. A outra pessoa não sabe,
ou se desconfia, [faz de conta que] não sabe. E a relação não avança nem recua
porque há uma energia amorosa que não está investida ali.
Intervém de que
modo?
Digo às pessoas
— e são muitas as que me procuram numa situação desse tipo —, individualmente:
“Há duas hipóteses: ou você diz e há uma crise, e a partir daí as coisas ficam
diferentes, e não vai ser fácil; ou você não diz e isto não mexe.” O problema
de uma pessoa que é casada e que tem uma relação extraconjugal, já com algum
tempo, e que não consegue nem dizer nem sair da relação, é que aquilo fica
parado. O sistema equilibra-se num certo sentido, tornando a relação conjugal
numa relação tensa, sem resolução.
Uma boa parte
das pessoas diz?
É apanhada. Não
diz. O ser apanhado é bom no sentido da evolução. O casamento pode rebentar. A
maior parte das vezes não rebenta. A partir daí nada será igual.
As pessoas não
dizem e não provocam o rebentamento porque não conseguem decidir-se, porque não
sabem o que querem?
O dizer tem
duas consequências: a primeira é o medo que a outra pessoa lhe ponha as
malinhas à porta. A outra: perde também a clandestinidade.
Que é um
picante.
Dá uma força às
relações, a clandestinidade...
Viver em comum
não é nada fácil. Há pessoas que estão sempre a criticar, a culpabilizar, a
apontar defeitos. A coisa mais devastadora numa relação conjugal é a crítica.
Só a relação
adúltera é que é picante? Muitas vezes, a pessoa, para compensar o facto de
estar a pisar o risco, compensa o cônjuge, em casa.
Quando alguém
se apaixona de facto fora de casa, é difícil manter uma energia na relação em
casa. Se é uma relação “só física” (com todas as aspas), aí sim, pode trazer
energia à relação de casa.
Continuam a
usar os filhos para justificar o não saírem de casa?
Menos.
E é uma ficção?
É. Os filhos
não gostam que os pais se separem, mas sobrevivem. Sobrevivem mal é ao conflito
depois da separação, se ele é violento e longo. Contudo, há quem fique porque
acha que isso é traumático para os filhos. E há muita gente que adia cada vez
mais a separação (agora os filhos têm um exame, depois vão fazer anos, depois
há o Natal). Há pessoas a quem faz muita impressão que os filhos fiquem sem os
pais juntos.
Tornou-se
relativamente comum a guarda conjunta. Uma semana com o pai, uma semana com a
mãe. Foi uma evolução muito rápida.
Sim. Hoje os
pais mudam a fralda, limpam o cocó, dão banho. O vínculo que se cria com as
crianças é muito mais forte. Tenho homens na consulta que sofrem horrores com a
ausência dos filhos. E que se culpabilizam da separação.
E essa coisa de
dizer ao amante, ou à amante, que não se tem sexo em casa há um ano?
Às vezes, é
verdade, outras vezes é uma grande treta [risos]. Às vezes, a relação física em
casa mantém-se muito boa. E ambas as relações físicas são muito boas.
É engraçado
como as pessoas acreditam ou fingem acreditar...
Alguém que está
sozinho e que tem uma relação com um homem ou com uma mulher casada vai
acreditando que ele ou ela se vai separar. Até que há uma altura em que começa
a não acreditar. E depois leva muito tempo a conseguir separar-se. A vida das
pessoas é à base dos bocadinhos, das fugas, das coisas rápidas. Essas pessoas
isolam-se muito para estarem sempre disponíveis. Têm vergonha em relação aos
amigos. As relações de amantes têm uma semivida que não é eterna.
Algumas são
muito longas.
Mas é muito
difícil manter uma relação deste tipo durante muito tempo. Nos primeiros meses
há projectos de vida em comum. Depois há um tempo em que, se esses projectos
não se concretizam, a relação começa a decair. Há um tempo útil para a
separação, após o qual é muito mais difícil separarem-se porque se instalam na
situação. É muito raro, da minha experiência clínica, um casamento que acabe ao
fim de anos de relação extraconjugal. É a relação extraconjugal que vai acabar
ou que se vai espaçando.
Fala-se da
infidelidade como o grande fantasma das relações conjugais. É?
Não. O grande
problema das relações conjugais é as pessoas deixarem de gostar uma da outra,
obviamente.
Obviamente?
Hoje as pessoas
separam-se porque são infelizes na relação conjugal. E são infelizes quando
deixam de gostar ou quando deixam de sentir que a outra pessoa gosta delas. As
razões por que isso acontece podem ser várias, mas é o que desencadeia a
relação. E quer se queira, quer não, continuamos a acasalar para o resto da
vida. Mesmo que estatisticamente isto seja um disparate.
Sonha-se que é
para sempre, que daquela vez é que vai ser.
Quando as
pessoas se juntam com alguém, nunca há a ideia da separação. E quando se
confrontam com a situação de que são infelizes começam a pôr a relação em
causa. Isso é um luto que tem de se fazer. Não é fácil para ninguém separar-se.
Custa o
reconhecimento do falhanço?
Sim. Mesmo que
queira separar-me (já passei por isso), mesmo que seja um alívio, é um
falhanço. É uma coisa que não resultou. As relações falham porque as pessoas
não conseguem adaptar-se a viver em comum. Viver em comum não é nada fácil. Há
pessoas que estão sempre a criticar, a culpabilizar, a apontar defeitos. A
coisa mais devastadora numa relação conjugal é a crítica.
A crítica? Pode
esmiuçar?
Isto está
estudado. É muito diferente dizer a uma pessoa: “Não ponhas a camisa aí, põe
ali”, ou não dizer nada e mudar a camisa. Ou então dizer: “És uma besta, és
desarrumada”, e atacar a pessoa por causa da porcaria de uma camisa.
Numa relação
conjugal, é muito fácil criticar porque conheço a pessoa muito bem, sei onde é
que vou atingi-la. Desde as coisas mais íntimas, ao nível da sexualidade, até
às coisas banais do dia-a-dia. Ninguém sobrevive a um ataque sistemático. Posso
gostar muito de alguém, mas não consigo aguentar estar sempre a ser posto em
causa.
A questão do
poder, que é diferente da crítica mas que pode derivar da crítica, é um ponto
sensível das relações. Quais são os outros grandes problemas? A maneira como
lidam com o dinheiro, com os filhos?
A relação com
as famílias de origem. Se tenho uma relação difícil com a família da minha
mulher, ela está metida num conflito de lealdades. Na cultura latina, as
relações com a família são muito importantes. Há sogras muito intrusivas,
difíceis de controlar. Se uma sogra chega a casa e começa a mandar palpites,
aquilo ao fim de pouco tempo está estragado. E o marido, coitado, fica ali
entalado no meio.
E que fazer
quando há uma sogra que é essa mamma latina?
As sogras não
são controláveis. Ninguém consegue controlar uma mãe quando ela tem o nariz
empinado. São pessoas de uma certa idade que acham que fazem tudo muito bem.
Tem de se viver com isso e aceitar que aquilo que a sogra diz, paciência,
disse. Outra questão: os modelos diferentes de educação dos filhos. Quando
se tem um filho adolescente que começa a querer sair, e um é mais liberal, e
outro mais repressivo, há uma negociação que não é fácil. Uma negociação que
passa muitas vezes pelo não verbal. (Nos casais o não verbal é muito
importante. Posso estar a desqualificar o que a minha mulher está a dizer sem
abrir a boca. São coisas muito finas, não explícitas, e que dão conteúdo à
relação.)
Escreveu em
várias crónicas que as pessoas se queixam muito de não ser ouvidas pelo outro.
E que sentem que não são amadas porque não são ouvidas naquilo que é mais
autêntico nelas.
E que a outra
pessoa não tem disponibilidade, não tem pachorra, ou que está farta de a
conversa ser sempre igual.
Também sei que
não gosta de dar receitas, mas como é que se ouve o outro?
Em relação a
isso, dou uma receita. Digo isto mais aos homens do que às mulheres. As
mulheres têm mais pachorra para ouvir, gostam de dar palpites. “O casamento tem
uma folha de serviços, que varia de casamento para casamento, mas há uma tarefa
que tem de se habituar a fazer: ouvi-la.” É quase uma perspetiva machista.
Quase? E
paternalista. Enquanto leitora feminina, já estou chocada.
“Ela está a
falar do trabalho, você tem de ouvir. E tem de ouvir sem ler o jornal ao mesmo
tempo, com a televisão desligada e com um ar atento, mesmo que seja a maior
seca. Segunda coisa: não pode criticá-la nessa altura, mesmo que ache que
aquilo é uma parvoíce. Mais tarde, fora desta conversa, se achar que há coisas
que deve dizer, diz.” Pode dizer que isto é paternalismo. Por um lado,
sim, por outro, não. Tenho de fazer muita coisa na relação conjugal em nome da
outra pessoa. Desculpe a brutalidade do que vou dizer: qual é a diferença entre
ter de ouvir a minha mulher e mais tarde ela ter de me lavar o rabo quando for
velho? São duas coisas que podem não ser agradáveis, mas que devem ser feitas
em nome da relação.
Essa receita
choca com a ideia romântica de que se deve fazer o mínimo de fretes.
Não é possível um casamento sem fretes. Por exemplo, está-se com uma pessoa para quem é muito importante todas as semanas almoçar com a família. Até se acha a família simpática, mas não se tem grande conversa. Pode-se ir só uma vez por mês, se isso for possível e não for um problema. Se para ela for importante que o outro vá, e se não ir for sentido como uma coisa de desprezo pela família dela, tem de ir.
Não é possível um casamento sem fretes. Por exemplo, está-se com uma pessoa para quem é muito importante todas as semanas almoçar com a família. Até se acha a família simpática, mas não se tem grande conversa. Pode-se ir só uma vez por mês, se isso for possível e não for um problema. Se para ela for importante que o outro vá, e se não ir for sentido como uma coisa de desprezo pela família dela, tem de ir.
Sim, mas
engole, engole sapos e um dia saem todos pela boca fora.
Há pessoas que
entendem isto como engolir sapos e há pessoas que sentem isto como uma coisa
que faz parte.
A maior parte
dos casais que conhece fora do consultório são felizes?
[riso] Enquanto
são casais, são felizes. Alguns já se separaram, voltaram a casar. Hoje, mais
do que antigamente, a maior parte dos casais que estão em casal são felizes.
Uma grande parte dos casais que estão infelizes, ao fim de um tempo,
separam-se. Isto não quer dizer que não haja momentos de infelicidade na vida
dos casais.
Mudou alguma
coisa nestes anos de crise?
Com esta crise
económica, muitas pessoas estão infelizes no trabalho, estão desempregadas, e
cada vez mais a casa, a família, o casamento, é o local da sua felicidade. O
casamento tornou-se uma coisa muito mais viva, muito mais forte do que era.

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