“A Bíblia é o grande instrumento de libertação dos leigos”. Entrevista com o biblista brasileiro Francisco Orofino
Quando se fala de Leitura
Popular da Bíblia não se pode prescindir de Francisco Orofino, biblista brasileiro, que, em
companhia de Carlos Mesters e da equipa do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos),
soube encontrar o caminho para que no Brasil a Bíblia tenha chegado às pessoas
e seja usada como instrumento diário do trabalho pastoral. Esta entrevista é de Luis Miguel
Modino, para Religión Digital, 25-08-2016. Tradução de André Langer.
Qual
é a importância da Bíblia para a Igreja católica hoje?
Se há uma conquista irreversível
do Vaticano II é a Bíblia nas mãos do povo. Significa que o leigo tem em suas
mãos aquilo que, segundo a própria Dei
Verbum, é a fonte primeira da Revelação. E se o leigo tem em suas mãos
a fonte primeira da Revelação e a lê a partir da sua própria realidade económica
e sociopolítica, esse leigo está a fazer teologia.
Para dizer a verdade, a Bíblia
nas mãos do povo rompeu o monopólio da Teologia, até então restrita ao clero.
Ter a Bíblia nas mãos do povo é um gesto de libertação da teologia clerical.
Por isso, a Bíblia nas mãos do povo permite o avanço em duas grandes questões
do Vaticano II, que sempre vão ser foco de tensão: a questão da
desclericalização e da descentralização.
Creio que Francisco, desde a sua
experiência latino-americana, toca nessas duas teclas, que ele percebe que foram
os pontos fracos das conquistas do Vaticano II. A descentralização, que ele
traduz na sinodalidade, e a desclericalização, em relação a que aponta três
grandes instrumentos pastorais para o processo de desclericalização: o poder de
decisão dos conselhos pastorais paroquiais, os círculos bíblicos e as
comunidades eclesiais de base. Portanto, vejo a Bíblia no contexto pastoral
latino-americano como o grande instrumento de libertação dos leigos, como uma
coisa necessária para que eles possam ter mais poder de decisão na caminhada da
Igreja.
Isso
não cria certas disputas entre o clero e os leigos?
Qualquer coisa cria disputas
entre o clero e o leigo. Se você fizer um curso de liturgia numa paróquia e
começar a fazer a proposta litúrgica do Vaticano II, que é o novo enfoque dado
à celebração eucarística, como ceia e não como sacrifício – o que dizia Trento
e o que o clero continua pensando –, tentando recuperar como leigo a dimensão
da ceia do Vaticano II, o clero vai reagir. O mesmo acontece no campo da Bíblia,
pois o clero tem teologia, mas não tem Bíblia, e quando um leigo vai conhecendo
a Bíblia vai enfrentar uma barreira, pois o clero sente que não está capacitado
para discutir com eles.
Porque o clero é formado
basicamente para duas coisas: administração dos sacramentos e a parte económica.
Por isso, um pároco tem os dois pontos básicos nessa administração: na dos
sacramentos é o único que pode consagrar; na parte económica é o único que
assina cheques.
Partindo
da Bíblia, como seria possível afastar-se dessa Igreja veterotestamentária,
piramidal, para construir uma Igreja mais circular, própria do Novo Testamento,
e que foi impulsionada a partir do Vaticano II?
Creio que a única maneira de
romper a velha estrutura piramidal, centralizada, são as comunidades eclesiais
de base. Temos que buscar pequenas comunidades que vão fazer a sua vida, a sua
catequese, a sua liturgia, em pequenos núcleos. Mas, ao mesmo tempo sentindo-se
em rede. Nesse ponto, os pentecostais conseguem isso, são pequenos núcleos, mas
têm ao mesmo tempo uma consciência de rede de pertença. Quando há uma
convocação, eles vão todos.
Nós teríamos de aprender da
pastoral dessas pequenas comunidades. Mas, isso só vamos conseguir se houver de
facto uma emancipação dos ministérios laicais frente ao clero. Enquanto os
leigos pensarem: eu não vou tomar a iniciativa de criar uma comunidade naquele
lugar porque o padre ainda não me disse nada, nunca vamos avançar. Por isso,
penso que temos que investir sempre naquilo que é a grande conquista do Vaticano
II e que é dito inúmeras vezes, mas que nunca se concretiza, que é o chamado
protagonismo dos leigos.
«O
Papa Francisco mandou uma carta ao cardeal Marc Ouellet, para que a remetesse
às Igrejas latino-americanas. Essa carta foi enviada em março e quando chegou
maio e o Papa viu que o cardeal ainda não a tinha publicada, ele mesmo tomou a
iniciativa de a publicar. Nela diz claramente que se fala muito de que “chegou
a hora dos leigos, mas a impressão que tenho é que o relógio parou”.»
Você
falou dos círculos bíblicos, que é um dos elementos que não podem faltar nas
comunidades eclesiais de base, a partir da leitura popular da Bíblia. Como tudo
isso repercute na vida de quem vive sua fé nas comunidades eclesiais de base?
A Dei Verbum suscitou um desafio para todas as Igrejas. Nesse desafio
existem quatro passos que foram dados.
O primeiro: colocar a Bíblia nas
mãos do povo, pois não tinha Bíblia, já que não fazia parte da tradição
católica ter Bíblia. Um primeiro passo que ainda não chegou a todas as Igrejas,
a todas as comunidades, que de facto o leigo tenha sua Bíblia para seu uso
pessoal, lê-la, esse é um passo importante na Pastoral Bíblica.
A segunda coisa é capacitar
agentes. Um dos grandes esforços que a Igreja fez nestes últimos anos foi
capacitar agentes de Pastoral Bíblica em todos os níveis, desde o nível mais
elementar até cursos de grau superior.
Em terceiro lugar, encontrar uma
metodologia adequada. A Leitura Popular da Bíblia é a metodologia adequada
dentro do que pede a Pastoral Bíblica a partir da Dei Verbum.
Mas, temos de dar um quarto
passo, que é a animação bíblica de toda a pastoral, o que se está a fazer
devagar. A primeira vez que isto foi sistematizado, orientado e assumido
institucionalmente foi no Sínodo de 2008 (de que surgiu a Exortação Apostólica Verbum
Domini) mas até agora as dioceses não têm claro como dar esse passo.
O
que significa a animação bíblica de toda a pastoral?
Penso que seria o uso da Bíblia
em quatro grandes campos. Primeiro, na liturgia, e neste ponto o clero tem de
colocar na cabeça que o povo tem o direito de receber em cada celebração a
mensagem que está nas leituras e não na cabeça do padre. O Papa Francisco
acabou por dar orientações sobre homilética de uma maneira muito bonita na Evangelii
Gaudium.
O segundo ponto é o da
catequese, pois temos que construir uma catequese vivencial, a partir da Bíblia
e gradualmente abandonar a catequese doutrinária a partir do Catecismo.
O terceiro ponto seriam as
diferentes práticas pastorais a partir da Bíblia, onde entrariam os círculos
bíblicos.
Por último, e não por isso menos
importante, a espiritualidade dos fiéis a partir da Bíblia, como instrumento de
espiritualidade, retiros bíblicos a partir da metodologia da Leitura Orante da
Bíblia. Creio que pouco a pouco vamos começar a dar esses passos, mas esses
passos nos mostram que temos muitas coisas para fazer.

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