A tolerância desejada e a vivida por quem sentiu a intolerância

A ONU consagra o 16 de novembro como Dia Internacional da Tolerância. É claro que o termo é ambíguo. Tolera-se o que não se pode evitar. Ninguém gosta de ser apenas tolerado. No plano das relações culturais, o termo "tolerância" tornou-se sinónimo de respeito ao outro e diálogo com o diferente.

Numa sociedade pluralista, garantir o respeito à liberdade de pensamento e de expressão de quem pensa diferente de nós é um princípio ético fundamental. Baseia-se na consciência da dignidade de toda a pessoa humana e é a garantia de que nós ppodemos também gozar do mesmo direito.

Marcelo Barros, monge beneditino, em www.marcelobarros.com, 16 de novembro de 2016

Nas relações interpessoais, o bispo brasileiro Dom Helder Camara afirmava: «Se você concorda comigo, eu lhe agradeço, mas se discordar de mim, eu agradecerei mais ainda. Mesmo que depois de conversarmos, eu continue a pensar como antes, você já me ajudou a aprofundar o assunto.»

      A tolerância explicada por quem viveu a intolerância
Em novembro de 1943, entre os muitos judeus assassinados no campo de concentração de Auschwitz, morreu uma jovem judia holandesa de 27 anos, chamada Etty (Ester) Hillesun. Ela era uma jovem anónima de Amsterdão. Só se tornou conhecida quando, anos depois da sua morte, o mundo tomou conhecimento de oito cadernos de anotações diárias. Os primeiros, ela deixou-os com amigos. Os últimos foram atirados de um comboio, quando ela foi levada para o campo de concentração, onde morreria. Todos foram encontrados e estão publicados em várias línguas.
O diário de Etty Hillesun revela uma moça alegre, de bem com a vida. Por solidariedade ao seu povo, entregou-se e foi levada para um campo de concentração. No campo de concentração, no meio das barbaridades que sofreu e via os outros sofrerem, escreveu:

«Nessas circunstâncias tão terríveis, o meu contributo para o meu povo é que não podemos abrir mão da misericórdia. Precisamos de nos tornar incapazes de odiar, aconteça o que acontecer conosco. Essa será nossa única força.»

«O inimigo pode tirar tudo de nós, até a vida. No entanto, não pode roubar a nossa integridade interior, firmada a partir de uma opção de amar e ser benevolente.»

«Dentro de mim, há um poço muito profundo. Nem consigo ver o seu fundo. Às vezes, parece-me coberto de pedras e lixo. Então, para mim, Deus está sepultado. Em alguns momentos, consigo desenterra-Lo e posso até ajudar outras pessoas a desenterrá-Lo nos seus corações. Percebo que numa situação como esta, ó Deus, tu não podes ajudar-nos. Mas, nós podemos sim fazer muito por Ti. Podemos ajudar-Te a não Te deixar sepultado em nós e a ser testemunhas do teu amor, numa realidade na qual todo amor é abolido e chacinado.»

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