Em novembro, estórias de amor e morte


Por influência dos celtas e questões de calendário - é outono a caminho do inverno, que evoca a noite -, mesmo nas nossas sociedades modernas é no mês de Novembro que os mortos são mais lembrados. Sim. Mesmo nas nossas sociedades que fizeram da morte um tabu - disso não se fala, é de mau gosto e mau tom. Vive-se como se a morte não existisse. É melhor esquecê-la. Mas há este alçapão: ela não se esquecerá de nós. Por isso, em todas as culturas e sociedades, há estórias, mitos, que tentam explicar o inexplicável, esse mistério da morte, a coisa mais natural - como diz a nossa palavra nada, do latim, res nata: tudo o que nasce morre -, mas que não devia ser, a ponto de, segundo os antropólogos, sabermos que na longa história da evolução há seres humanos quando encontramos rituais funerários.

Anselmo Borges, Diário de Notícias, 12 de novembro de 2016 

Aí estão algumas dessas belas estórias míticas

1. A primeira foi o filósofo Manuel Fraijó que ma relembrou. Um antigo mito melanésio conta que no princípio os humanos não morriam. Quando chegavam a uma certa idade, mudavam a pele e ficavam outra vez jovens. Mas, um dia, aconteceu o inesperado: uma mulher aproximou-se de um rio para o rito da mudança de pele; atirou à água a pele velha e regressou rejuvenescida e contente; aconteceu, porém, que o filho a não reconheceu: aquela não era a sua mãe. Desejosa de recuperar o amor do filho, voltou ao rio e voltou a pôr a pele velha, que tinha ficado enredada num arbusto. Desde então, os humanos já não mudam a pele, e morrem. Um belo mito que relaciona a origem da morte com a única força superior a ela: o amor, o amor de mãe.

2. Em África, encontramos o mito do "mensageiro fracassado". Deus mandou um camaleão a anunciar que os humanos seriam imortais e também enviou um lagarto com a notícia de que morreriam. Aconteceu que o camaleão fez o caminho lentamente e o lagarto chegou antes, e a morte deu entrada no mundo. A culpa não é de Deus, que, segundo outra estória, deu ao primeiro homem a possibilidade de escolher entre dois pacotes - um continha a vida, no outro estava a morte. O homem enganou-se e escolheu a morte, que ficou no mundo para sempre.

3. Quem nunca ouviu falar de Orfeu e Euridice? Quando Orfeu tocava a sua lira, até os pássaros ficavam tomados de encanto e deixavam de voar para escutar e as árvores curvavam-se. Apaixonado pela bela Euridice, casou-se com ela. Mas ela foi mordida por uma serpente e morreu. Orfeu caiu numa tristeza mortal. Mas, pegando na sua lira, convenceu o barqueiro Caronte e foi ao outro mundo, conseguindo, depois de adormecer Cérbero ao som da lira, chegar até à sombra da sua amada. Hades acabou por atender o pedido de Orfeu. Euridice podia voltar, com uma condição: não podia olhar para ela enquanto não chegasse à luz do Sol. Mas, claro, Orfeu olhou para trás, para ver se ela o acompanhava (quem não olharia?), e perdeu-a para sempre. A morte e o Sol não podem ser encarados de frente.

4. A mais velha epopeia da humanidade tem cinco ou seis mil anos ou mesmo mais. Chama-se a Epopeia de Gilgamesh, na antiga Suméria, actual Iraque. Gilgamesh era o rei de Uruk, um belo rei, mas que os seus súbitos temiam por causa da sua crueldade. A deusa Aruru ouviu as suas súplicas e formou um guerreiro brutal a quem foi dado o nome de Enkidu. Ele deveria enfrentar o jovem rei Gilgamesh. Depois de seis dias e sete noites de amor com uma prostituta, Enkidu desafiou Gilgamesh, e os dois lutaram numa longa e terrífica peleja. Por fim, como que por encanto, foram tomados pela amizade, abraçando-se como irmãos, e houve festas na cidade. Mas a deusa Ishtar quis Gilgamesh para amante. Tendo recusado, os deuses vingaram-se com a morte de Enkidu. E Gilgamesh chora inconsolável, deixa Uruk e empreende a longa e penosa viagem até ao outro mundo, entre perigos sem conta, na busca do amigo e da imortalidade. Seguindo o conselho do único sobrevivente do dilúvio, Utnapishtim, traz com ele a erva da imortalidade. Mas, esgotado como estava, parou no caminho para beber água e banhar-se. Aí, uma serpente roubou-lhe a planta sagrada da eterna juventude e Gilgamesh soube então que não há remédio para morte. E chorou a sorte do amigo e a de todos, num lamento sem fim em frente dos muros da sua gloriosa cidade de Uruk.

5. Para a eternidade vamos: a eternidade do nada ou a eternidade da vida plena em Deus. Uma das raízes essenciais das religiões tem que ver precisamente com o seu afã de salvação contra a morte, e concretamente o cristianismo foi e é, como diz Fraijó, o mais denodado combate contra "o nada como origem e como meta final da existência". Lá estão os grandes teólogos, também contemporâneos. Uma das irmãs perguntou a Hans Küng: "Acreditas verdadeiramente na vida depois da morte?" E a resposta continua a ser um "sim" espontâneo e sem hesitações. Depois da morte, confessa, "não me aguardará o nada". O grande Karl Rahner, que tenho a honra de ter tido como professor, também passou a vida a fundamentar o seu "não" ao nada.

Para lá ciência, da teologia e da filosofia, ficam aí estes versos do poeta indiano R. Tagore: "A morte é doce, a morte é uma criança que está a mamar o leite da sua mãe e de repente põe-se a chorar porque o leite acabou naquele peito. A mãe dá-se conta e suavemente passa-a para o outro peito para que continue a mamar. A morte é um choramingar entre dois peitos."

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