«No cristianismo dos países do bem-estar, a Cruz já não intranquiliza a ninguém», uma reflexão em Dia de Cristo Rei, cujo trono é a cruz
O relato da crucificação, proclamado na festa do Cristo Rei,
recorda aos seguidores de Jesus que o Seu reino não é um reino de glória e de
poder, mas de serviço, amor e entrega total para resgatar o ser humano do mal,
do pecado e da morte.
Habituados a proclamar a «vitória da Cruz», corremos o risco
de esquecer que o Crucificado nada tem que ver com um falso triunfalismo que
esvazia de conteúdo o gesto mais sublime de serviço humilde de Deus para com as
Suas criaturas. A Cruz não é uma espécie de troféu que mostramos a outros com
orgulho, mas o símbolo do Amor crucificado de Deus que nos convida a seguir o
seu exemplo.
José António Pagola, teólogo espanhol, em http://iglesiadesopelana3m.blogspot.pt
Cantamos, adoramos e beijamos a Cruz de Cristo porque no
mais fundo do nosso ser sentimos a necessidade de dar graças a Deus pelo seu
amor insondável, mas sem esquecer que o primeiro que nos pede Jesus de forma
insistente não é beijar a Cruz mas sim carregar com ela. E isso consiste
simplesmente em seguir os seus passos de forma responsável e comprometida,
sabendo que esse caminho nos levará mais tarde ou mais cedo a partilhar o seu
destino doloroso.
Não nos está permitido aproximar-nos do mistério da Cruz de
forma passiva, sem intenção alguma de carregar com ela. Por isso, temos de
cuidar muito de certas celebrações que podem criar em torno da Cruz uma
atmosfera atrativa mas perigosa, se nos distraem do seguir fielmente o Crucificado
fazendo-nos viver a ilusão de um cristianismo sem Cruz. É precisamente ao
beijar a Cruz quando temos de escutar a chamada de Jesus: «Se alguém vem detrás
de mim… que carregue com a sua cruz e me siga».
Para os seguidores de Jesus, reivindicar a Cruz é
aproximar-nos serviçalmente aos crucificados; introduzir justiça onde se abusa
dos indefesos; reclamar compaixão onde só há indiferença ante os que sofrem.
Isto irá trazer-nos conflitos, rejeição e sofrimento. Será a nossa forma
humilde de carregar com a Cruz de Cristo.
O teólogo católico Johann Baptist Metz tem insistido no
perigo de que a imagem do Crucificado nos esteja a ocultar o rosto de quem vive
hoje crucificado. No cristianismo dos países do bem-estar está a ocorrer,
segundo ele, um fenómeno muito grave: «A Cruz já não intranquiliza a ninguém,
não tem nenhum aguilhão; perdeu a tensão do seguimento a Jesus, não chama a
nenhuma responsabilidade, mas retira-nos dela.»
Não teremos todos de rever qual a nossa verdadeira atitude
ante o Crucificado? Não teremos de nos aproximarmos Dele de forma mais
responsável e comprometida?

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