Para muitas pessoas que seguem
caminhos espirituais, a Política nada tem que ver com a Espiritualidade. Pensam a
fé como exclusiva relação com Deus e expressa nas devoções. A Política fica,
então, restrita ao exercício do poder na sociedade. Quando se separa a espiritualidade
da vida real, as eleições se reduzem a um ritual político, repetido a cada
quatro anos, enquanto a espiritualidade é reduzida ao mundo religioso.
Marcelo Barros, monge beneditino,
em www.marcelobarros.com,
30 de setembro de 2016
Na realidade, a vida não é assim,
fragmentada em compartimentos separados. O compromisso político vai muito além
das eleições, assim como a Espiritualidade se expressa em todos os campos da
vida e não só no religioso. Simone Weil, pensadora francesa da primeira metade
do século XX, afirmava: «Conheço quem é de Deus não quando me fala de Deus
e sim pelo modo de se relacionar com os outros.»
A aparência religiosa das guerras
Nos séculos passados, por não
terem claro essa relação entre o compromisso ético da fé e a dimensão
espiritual da Política, as próprias estruturas das Igrejas e religiões, assim
como a maioria dos religiosos, deram aparência religiosa a guerras e violências
indescritíveis. Na Índia, as religiões deram aparência espiritual ao sistema
social das castas. Na África do Sul, durante séculos, cristãos protestantes
justificaram o apartheid. No mundo inteiro, católicos e evangélicos legitimaram
o Colonialismo. Foram coniventes com o racismo e com injustiças sociais. Até
hoje, no Congresso brasileiro, um grupo de parlamentares se dizem evangélicos.
Sem nenhuma preocupação com a Ética, sem compromisso com a justiça e menos
ainda com o serviço ao povo, a maioria exerce o mandato para defender
interesses de seus grupos religiosos ou, pior ainda, simplesmente enriquecer.
Em nome de um Deus cruel, amigo apenas dos seus amigos e vingativo em relação
aos demais, eles fortalecem as desigualdades sociais.
Para que isso nunca mais
aconteça, temos de aprofundar a dimensão política libertadora da
espiritualidade. Quanto mais formos pessoas de oração e de profunda mística,
mais a nossa busca espiritual se manifestará em nosso modo de exercer o compromisso
político. O Concilio Vaticano II afirmava que Deus não quis nos salvar
individualmente, mas nos unir em comunidade (Lumen Gentium 2). Por isso, a
Política é uma arte sublime e importante.
Todos nós fazemos Política o tempo
todo
Política é como respiração. Sem respiração, morremos. Além da Política
como exercício do poder, existe uma política de base que consiste na
participação social em grupos e organizações que buscam transformar a
sociedade. Seja como parlamentar ou prefeito de um município, seja como
militante político nas bases, o cidadão ou cidadã vive a Política como vocação
pessoal. Como vocação, a Política é a mais nobre das atividades. Se for apenas
para ganhar dinheiro ou para ter poder e prestígio, a Política se torna a
profissão mais vil e vergonhosa.
Para votar nessas eleições com
coerência espiritual é preciso ser dócil ao Espírito de Deus em nós e não
seguir critérios de interesse pessoal, de família ou votar apenas por relação
de amizade. Como diz uma campanha popular: «Voto não tem preço. Tem
consequências.» O nosso voto pode ajudar a construir uma sociedade mais justa,
ou pode, ao contrário, perpetuar os velhos vícios do sistema vigente. Mesmo se, em muitos casos, ainda somos obrigados a
votar no menos pior, é importante discernir entre as diversas escolhas
possíveis, a que nos parece ser a mais justa e adequada para o bem comum.
Jesus político
Os Evangelhos contam que, ao entrar em Jerusalém, Jesus foi ao templo e ali, com um chicote em punho, expulsou os cambistas e vendedores de animais para os sacrifícios. Essa cena pode servir como símbolo para a vida de hoje. A Política como atividade espiritual pode ser vista como um novo templo divino, porque é o espaço formador da dignidade coletiva de um povo. Por isso, é preciso expulsar dela os vendedores que a aviltam. Hoje, o chicote com o qual podem ser expulsos da política os que a reduzem a um negócio de interesse e mercado só pode ser o voto consciente e ético de cada cidadão(ã). O Evangelho diz que devemos julgar as pessoas e partidos conforme a prática e pelos seus resultados. «Pelos frutos bons, vocês podem discernir que a árvore é boa, assim como pelos maus frutos, verão que uma árvore é má. Pelos frutos, vocês podem discernir se a árvore é boa ou má» (Mt 7, 18).
Os Evangelhos contam que, ao entrar em Jerusalém, Jesus foi ao templo e ali, com um chicote em punho, expulsou os cambistas e vendedores de animais para os sacrifícios. Essa cena pode servir como símbolo para a vida de hoje. A Política como atividade espiritual pode ser vista como um novo templo divino, porque é o espaço formador da dignidade coletiva de um povo. Por isso, é preciso expulsar dela os vendedores que a aviltam. Hoje, o chicote com o qual podem ser expulsos da política os que a reduzem a um negócio de interesse e mercado só pode ser o voto consciente e ético de cada cidadão(ã). O Evangelho diz que devemos julgar as pessoas e partidos conforme a prática e pelos seus resultados. «Pelos frutos bons, vocês podem discernir que a árvore é boa, assim como pelos maus frutos, verão que uma árvore é má. Pelos frutos, vocês podem discernir se a árvore é boa ou má» (Mt 7, 18).

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