Que a preocupação nossa de cada dia não seja maior do que a confiança em Deus - meditação do Evangelho de Mateus 6, 24-34
«Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário?» (Mt 6, 25).
P.e Adroaldo Palaoro, sj, meditação do 8.º domingo comum, 26 de fevereiro de 2017
1 – O que diz o texto do Evangelho de Mateus 6, 24-34?
Jesus dirige-Se aos seus discípulos e revela o verdadeiro rosto de Deus e as suas entranhas de Pai-Mãe: Ele cuida dos próprios filhos, como das flores do campo e dos pássaros do céu. E dá como fundamento da segurança e da serenidade a consciência de estarmos nas mãos providentes de Deus.
Tomando como exemplo os pássaros do céu e os lírios do campo, Jesus, implicitamente, une o céu e a terra, e recorda que o ser humano é formado do “húmus” e do “sopro” de Deus (ver Génesis 2, 7).
2 – O que me diz o texto?
Segundo o Evangelho, a preocupação envolve duas necessidades básicas do ser humano: o alimento e o vestuário.
a) O alimento, indispensável para viver, não compreende só a nutrição, mas representa também tudo aquilo que é considerado necessário para manter a pessoa viva.
b) O vestuário não é somente aquilo que cobre e protege o corpo humano, mas exprime também proteção, dignidade, posição social e relação.
O alimento e o vestuário, portanto, representam duas dimensões essenciais da existência humana: uma individual e outra relacional.
Ao observar as aves do céu e a beleza dos lírios no campo, Jesus convida os discípulos a contemplarem, com admiração, o rosto paterno-materno de Deus: cada um deles é cuidado pela Sua mão providente.
Não se trata de se colocar numa atitude de espera passiva, mas de estar ciente de que Alguém cuida, não só das menores criaturas, mas também da vida dos próprios filhos, como um tesouro do qual tem ciúmes.
O ser humano, instintivamente, busca algo ou alguém que lhe dê segurança, e sente a necessidade inapagável de superar a angústia do limite e de respirar futuro.
Sem futuro não há espaço de vida, não há esperança. Mas nada o preenche e o pacifica interiormente. A consequência é um rosto marcado pelas rugas da preocupação e do cansaço. A confiança depositada no bem-estar, a rejeição das próprias raízes, a incapacidade de sentir-se “filho”, obscurecem a horizonte do futuro.
3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A preocupação que pode atormentar o coração do ser humano, o medo de perder aquilo que dá segurança e o temor de não ter acumulado suficientemente, fazem com que o alimento e o vestuário percam o seu significado mais amplo e a sua força evocativa.
Então, acontece que a preocupação com o alimento e com o vestuário prevalece sobre a própria vida, não mais acolhida como dom; do mesmo modo o corpo, não mais entendido como possibilidade e lugar de relação encontro. Inevitavelmente, a dignidade da vida se degrada e a luz do rosto da pessoa se apaga.
A “preocupação”, quando se torna hábito de vida, tem o efeito desastroso de comprometer a capacidade de relação, dimensão fundamental que torna a existência fecunda e criativa.
A preocupação e a ansiedade que tornam o seu rosto cansado e triste e, até mesmo apagar em seu coração a alegria de viver.
Muitas vezes, a preocupação com o amanhã oculta a beleza do presente, mas também a lembrança de um passado que reaparece sempre de novo entorpece esta vivência.
As pessoas espiritualmente inteligentes vivem serenamente com a máxima intensidade o agora, cada momento que se apresenta na vida, sem a preocupação e a ansiedade frente o futuro. Sabem que tudo passa, mas que cada instante é uma porta de acesso à eternidade.
Gozam intensamente da alegria de existir, da beleza e da bondade que se manifestam em cada momento. Não sofrem pelo passar do tempo, nem pelo envelhecimento ou pela morte.
Usufruem intensamente o tempo presente e encontram nisso sua alegria.
4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, quem vive com entusiasmo seu projeto vital, quem ama seu trabalho, sua missão, quem se entrega apaixonadamente ao compromisso que desenvolve no mundo, experimenta a alegria de existir independentemente do fato de seu projeto, a longo prazo, chegar ou não ao seu cumprimento.
Quando alguém está centrado no presente, envolvido criativamente em algo que o satisfaz de verdade, que vive cada instante com a máxima intensidade e não se preocupa com os resultados ou benefícios..., esse é capaz de dar-se conta de que cada dia é uma possibilidade, cada dia é um dom único e irrepetível.
Quando uma pessoa vive a presença plena do agora não sofre com o que virá, nem mesmo com a certeza da morte, consciente de que quando chegar a esse dia poderá confessar que viveu que experimentou seu ser aqui.
5 – O que a Palavra me leva a viver?
Viver cada jornada como um mistério, uma festa, uma página em branco que eu possa escrever de muitas formas diferentes.
Cada dia é um cenário onde eu posso ativar o amor, a justiça e a fé. Sempre.
Dar sentido à vida é fazer dela uma missão que tenha como objetivo um fim nobre, algo que mereça a entrega e o sacrifício; mas isso não significa transformar o presente em puro instrumento e pretexto do futuro.
A dimensão espiritual habilita a experimentar a alegria de existir, transcendendo a mania de esperar e a obsessão de recordar.
Esta alegria é a que Jesus vê refletida nos lírios do campo e nas aves do céu.

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