Valores humanos e cristãos na Quaresma: 10 - COMPAIXÃO


O termo «compaixão» deriva de duas palavras latinas: cum e patire, que significam, respetivamente,  «com» e «sofrer». Daí que, pela etimologia da palavra, poderemos dizer que a compaixão é a capacidade que uma pessoa tem de sofrer com outra. Ter compaixão significa partilhar o sofrimento dos outros, é não ser indiferente ao sofrimento deles.

Dia 16 de abril, celebramos a alegria da Páscoa. Todavia, a vitória desse dia foi precedida por muito sofrimento. Mas o sofrimento na vida de Jesus Cristo despontou Nele a capacidade de se compadecer com os seus contemporâneos ao ponto de dar a sua vida para que todos tenham vida, e vida em abundância. De igual modo, a presença do sofrimento na nossa vida e na vida dos nossos irmãos deve despontar em nós o valor da compaixão.

A compaixão não deve ser confundida com pena (lamento)
ou empatia (conhecimento da dor). 

Esses são sentimentos passivos que não nos levam ao envolvimento com o sofrimento dos outros. A pena e a empatia que sentimos pelos outros colocam-nos numa situação elevada em relação aos outros… olhamo-los de cima para baixo, e isso diferencia-nos e separa-nos deles, e não nos envolve no alívio do seu sofrimento.

A compaixão é o desejo de aliviar ou minorar o sofrimento de outra pessoa, bem como demonstrar especial gentileza com aqueles que sofrem.

A compaixão caracteriza-se, assim, pela acção através da qual a pessoa compassiva procura ajudar aqueles pelos quais se compadece.

Jesus ao longo da sua vida foi um homem compassivo e, com as suas palavras, gestos e atitudes, mostrou-nos o rosto compassivo de Deus. Não se poupou a esforços para libertar as pessoas do sofrimento que as atormentava. «Ao ver as multidões, Jesus enchia-se de compaixão por elas, pois estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor» (Mt 9,36). Deste modo, Jesus mostrou-nos como é Deus, Seu e nosso Pai, e desafiou-nos a sermos como Ele: «Sede compassivos como o vosso Pai é compassivo» (Lc 6,36).

Como no tempo de Jesus, também hoje há muitos gritos de multidões famintas de pão, de alegria, de paz e de amor. Há pessoas concretas, ao nosso lado, a viver no desemprego, na instabilidade, na miséria, na solidão ou a sofrer violência. 


Se não houver compaixão, sintonia com o sofrimento dos outros, e caridade fraterna, de pouco valem as tecnologias e o progresso para a felicidade dos humanos.

Mesmo vivendo com bem-estar material, comodidade e consumismo, o ser humano poderá continuar a sofrer a angústia, a solidão e o medo. 


O egoísmo e a indiferença são a consequência natural de uma sociedade sem compaixão. Todos necessitamos uns dos outros. 

Não basta dar uma esmola ou ter um qualquer gesto de filantropia, para desanuviar a consciência. É necessário ter compaixão, sintonizar com os outros… para sofrer ou alegrarmo-nos com o outro e, assim, construirmos o «Nós».

Abel Dias, em revista Audácia, abril de 2009

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