André Bernardo, em BBC Brasil, 30 de abril de 2017
Em novembro de 2016, o padre Rosalino Santos, de 34 anos, publicou no Facebook uma foto de quando era garoto. O pároco da igreja de São Bartolomeu, em Corumbá (Brasil), parecia triste. Escreveu frases soltas na legenda, como «Dei o meu melhor» e «Me ilumine, Senhor». O que parecia ser um desabafo, era um bilhete de despedida. Dois dias depois, o corpo do sacerdote foi encontrado, enforcado, dentro de casa.
O suicídio do padre Rosalino não foi um caso isolado. Oito dias antes, o padre Ligivaldo dos Santos, da paróquia Senhor da Paz, em Salvador (BA), já tinha colocado ponto final em sua história. Aos 37 anos, atirou-se de um viaduto.
Doze dias depois, outro caso. Pela terceira vez em menos de
15 dias, um sacerdote encerrava a própria vida. Renildo Andrade Maia, de 31
anos, era pároco da igreja de Jesus Operário, em Contagem (MG).
«A vida religiosa não dá superpoderes aos padres. Pelo
contrário. Eles são tão falíveis quanto qualquer um de nós», diz o psicólogo
Ênio Pinto, autor do livro Os Padres em Psicoterapia (editora Ideias e Letras). «Em muitos casos, a fé pode não ser forte o suficiente para superar
momentos difíceis», afirma Pinto, que atua há 17 anos no Instituto
Terapêutico Acolher, em São Paulo (SP), dedicando-se ao atendimento psicoterapêutico de
padres, freiras e leigos em serviço à Igreja. Desde a fundação, em 2000, o instituto estima ter atendido
cerca de 3700 pacientes, com média de permanência de seis meses a um ano.
Stress ocupacional
O eventual comportamento suicida de sacerdotes intriga
clérigos e terapeutas. Para os especialistas consultados pela reportagem, há
vários possíveis factores: excesso de trabalho, falta de lazer, perda da
motivação.
«O grau de exigência da Igreja é muito grande. Espera-se
que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade», afirma o
psicólogo William Pereira, autor do livro Sofrimento Psíquico dos Presbíteros
(editora Vozes). «Qualquer deslize, por menor que seja, vira alvo de
crítica e julgamento. Por medo, culpa ou vergonha, muitos preferem se matar a
pedir ajuda», diz.
Pesquisa de 2008 da Isma Brasil, organização de pesquisa e
tratamento do stress, apontou que a vida sacerdotal é uma das profissões mais stressantes. Naquele ano, 448 entre 1600 padres e freiras entrevistados
(28 %) sentiam-se «emocionalmente exaustos». A percentagem de clérigos
nessa situação era superior ao de policias (26 %), executivos (20 %) e
motoristas de autocarro (15 %).
A psicóloga Ana Maria Rossi, que coordenou o estudo, afirma
que padres diocesanos, que trabalham em paróquias, estão mais propensos a
sofrer de stress do que monges e frades que vivem em comunidade. «Um dos factores mais stressantes da vida religiosa é a
falta de privacidade. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes,
padres têm que estar à disposição dos fieis 24 horas por dia, sete dias por
semana.»
Problemas terrenos
Em janeiro de 2008, o padre José Chitumba ingressou na
fazenda Santa Rosa, em Garanhuns (PE), uma das unidades do projeto Fazenda da
Esperança, de recuperação de dependentes químicos em mais de 15 países. «Quando caí em depressão tornei-me alcoólatra, pensei em suicídio, perdi o
ânimo para rezar. Passei oito meses sem celebrar missa. Achei que aquela noite
não teria fim», recorda Chitumba, de 62 anos, hoje pároco da Igreja de
Santo António, em Chiador (MG).
A vida sacerdotal é mais atribulada do que se costuma
imaginar. Inclui celebração de batizados e casamentos, visita a doentes,
sessões de confissão, aulas em universidades, presença em pastorais.
Dados de 2010 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB) ajudam a entender essa demanda: havia no Brasil naquele ano 22 mil
padres para 123 milhões de católicos, uma média de um padre para cada 5600 fiéis. «Sobra trabalho e falta tempo. Se não tomar cuidado, o
sacerdote negligencia sua espiritualidade e trabalha no piloto
automático», adverte o padre Adalto Chitolina, um dos diretores do centro
Âncora, casa de repouso em Pinhais (PR) que atende padres e freiras com
diagnóstico de stress, ansiedade ou depressão. «Ao longo de 2016, nossa
taxa de ocupação foi de 100 %. Em alguns meses, tivemos lista de espera»,
afirma.
O padre Edson Barbosa, da paróquia Nossa Senhora das Graças,
em Andradina (na foto acima), foi um dos religiosos atendidos no centro paranaense. Há
dois anos, dormia pouco, comia mal, andava irritado. Mas o alarme soou quando
começou a beber além da conta. Em julho de 2015, pediu dispensa de suas
atividades paroquiais e passou três meses no centro Âncora, entre consultas
médicas, palestras de nutrição e exercícios físicos. «Não sei o que teria acontecido comigo se não tivesse
dado essa parada. Demorei a perceber que não era super-herói», afirma.
Sóbrio há um ano e nove meses, o padre, de 36 anos, trocou o álcool por
caminhadas e trajetos diários de bicicleta.
Preocupação na hierarquia
Reitor do seminário São José de Niterói, o padre Douglas
Fontes diz estar atento à saúde mental dos colegas. Em pregações, costuma
alertar os futuros sacerdotes para a necessidade de cuidarem mais de si mesmos. «Jamais amaremos ao próximo se antes não amarmos a nós mesmos. E amar a si
mesmo significa levar uma vida mais saudável. Tristes, cansados ou doentes não
cumpriremos a missão que Deus nos confiou.»
Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre (RS) e
presidente da comissão da CNBB que se ocupa da vida dos padres, diz que
sacerdotes devem pedir ajuda ao bispo de sua diocese em caso de tensão
psicológica ou esgotamento físicos. «Os padres não estão sozinhos. Fazemos
parte de uma família. E nesta família cabe ao bispo desempenhar o papel de pai
e, como tal, zelar pelas necessidades dos filhos», afirma.
Um pouco por todo o mundo
Outros locais do mundo também registam casos de padres com problemas psicológicos. Uma pesquisa da Universidade de Salamanca, na Espanha, ouviu 881 sacerdotes de três países (México, Costa Rica e Porto Rico) e identificou incidência alta de transtornos relacionados à atividade. «Três em cada cinco experimentavam graus médios ou avançados de síndrome do esgotamento profissional», registou a autora da pesquisa, Helena de Mézerville, no livro O desgaste na vida sacerdotal (editora Paulus).
Um pouco por todo o mundo
Outros locais do mundo também registam casos de padres com problemas psicológicos. Uma pesquisa da Universidade de Salamanca, na Espanha, ouviu 881 sacerdotes de três países (México, Costa Rica e Porto Rico) e identificou incidência alta de transtornos relacionados à atividade. «Três em cada cinco experimentavam graus médios ou avançados de síndrome do esgotamento profissional», registou a autora da pesquisa, Helena de Mézerville, no livro O desgaste na vida sacerdotal (editora Paulus).
Em Itália, a síndrome do esgotamento profissional é conhecida por alguns sacerdotes como
a «síndrome do bom samaritano desiludido».
«É preciso satisfazer, de maneira lícita e correta, as
necessidades básicas do espírito, mente e corpo. Caso contrário, estaremos
sempre em perigoso desequilíbrio.»
Ler mais:
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“Para a vida religiosa, a crise é uma oportunidade de
mudança”. Entrevista com David Kinnear Glenday

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