Porquê vale a pena querer, importar-se? «“Já não quero saber” é virar as costas ao que está para vir»
Cruzamos os braços.
Pousamos as espadas que nos fazem ir à
luta e sossegamos.
Rendemo-nos.
Abraçamos os dias por obrigação e damos casa à
preguiça. Fazemos-lhe um jantar confortável e confortamo-la.
Descansamos à
sombra de conquistas antigas e contentamo-nos com o que vier e com o que
houver.
Fechamos as mãos.
Adiamos os momentos bons que prometemos arrancar à
vida.
Marta Arrais, iMissio.net
Fechamos os olhos...
a quem passa;
a quem fica;
a quem não tem nada;
a quem
tem tudo, mas continua triste;
a quem nos segurou a porta e nos deu a gentileza
do dia;
a quem partilha connosco os dias e as horas;
a quem vemos dia sim, dia
não.
Vestimos a mesma roupa de viver todos os dias.
Repetimos os gestos como
quem lhes perdeu o rasto.
Baixamos a cabeça como quem anda à procura de razões
para se levantar.
Aumentamos o volume do rádio e perdemo-nos nas palavras de
quem não nos conhece.
Abrimos as janelas poucas vezes...
por causa do ar
condicionado...
ou porque nos condicionámos a um ar rarefeito e entristecido...
Mesmo quando faz sol.
Já não faz sol porque já não queremos saber.
Rendemo-nos...
ao que esperam de nós;
ao que deixámos de esperar.
Já não queremos saber:
Chuva
ou sol.
Doce ou salgado.
Céu azul ou tormenta.
Paz ou guerra.
Dor ou alegria.
Dança ou inércia.
Cheio ou vazio.
Louco ou tranquilo.
Sonho ou realidade.
Verdadeiro ou falso.
Bonito ou feio.
Bom ou mau.
Pouco interessa.
Pouco
importa.
A pouco sabe.
É a pouco que nos sabe a vida quando, perante o que nos
acontece, a resposta é sempre a mesma: Já não quero saber.
Quem nos terá ensinado a não querer saber? Ninguém.
Nós é
que fomos obrigados a abandonar o recinto antes do combate acabar.
Desistimos
de insistir no que não muda nem passa.
Ainda assim, vale a pena
querer cheio.
Querer sol.
Querer tranquilidade.
Querer paz.
Querer alegria.
Querer doce.
Querer bonito.
Querer o bom.
Querer o Bem.
Querer bem.
“Já não quero saber” é virar as costas ao que está para vir. E de costas voltadas não se vê o caminho. Lá à frente. Onde o trilho continua.
Continuamos. Porque (ainda) queremos saber.

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