A irmã Isabel Martins, das Servas de Nossa Senhora de Fátima, é uma das responsáveis pela Catequese no Patriarcado de Lisboa e, em entrevista à Rádio Renascença, fala dos desafios colocados pela Carta Pastoral sobre a Catequese, que os bispos portugueses publicaram em maio de 2017.
Conscientes de que a vida das pessoas é hoje muito diferente do que era há 20 ou 30 anos e de que as crianças e jovens de hoje têm outras necessidades e exigências a que é preciso responder, os bispos portugueses publicaram, no final de maio, a Carta Pastoral sobre a Catequese. O documento lembra que é preciso começar a falar da fé aos mais pequenos ainda antes da idade escolar, e sublinha as virtudes da catequese familiar, um modelo com o qual tanto aprendem os filhos como os pais.
Os bispos portugueses publicaram, recentemente, a Carta Pastoral “Catequese: a Alegria do encontro com Jesus Cristo”. É um documento com muitos desafios?
É, é um documento com muitos desafios para a catequese em Portugal. Ele integra todo o pensamento do Papa Francisco na linha da evangelização, com uma linguagem muito fresca, muito desafiante, uma linguagem que, não negando a realidade, que não é totalmente cor de rosa, é cheia de esperança e aponta para o futuro.
A Carta parte desta constatação de que há muitos jovens que, passando pela catequese, não ficam na Igreja. O papa até usou uma expressão muito forte: a "debandada" da juventude. Constatando isso mesmo, os bispos vão buscar à raiz do Cristianismo a importância que tem o encontro com Cristo para a descoberta da fé como um pilar para a vida e, logo, para permanecer na Igreja, porque quando se descobre a fé a gente não se vai embora, porque ela torna-se um tesouro na vida.
A irmã Isabel Martins tem dois livros publicados pela Editorial Além-Mar (www.alem-mar.org):
O Tesouro Escondido ajuda os mais novos a "desembrulhar" o significado de 30 textos bíblicos sobre temas tão importantes como amor, fé, cristianismo, paz e perdão.
Reúne textos publicados no «Zoom Bíblico», na revista Audácia. Com 200 páginas ilustradas a cores, o livro é um contributo fundamental para a catequese e para a disciplina de Educação Moral Religiosa Católica.
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Os textos deste livro recriam, com originalidade,
a pessoa e a mensagem de Jesus.
Entrega-se ao imaginário dos adolescentes e jovens
os encontros que Jesus teve e as palavras que disse.
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Os bispos lembram que é preciso envolver mais as famílias, com a Catequese Familiar, por exemplo, e também com o Despertar na Fé, ao nível do pré-escolar. Há que começar por aí?
Exactamente, por ajudar as crianças a cultivar a sua capacidade de abertura ao espiritual. Porque, assim como no jardim de infância se cultivam e se estimulam a dimensão cognitiva e motora, também a dimensão espiritual pode ser cultivada desde muito cedo. Não sendo um programa de catequese sistemático, como é depois a partir dos seis anos, há todo um programa para trabalhar a espiritualidade com a criança que a abre, desde logo, à descoberta e à relação com Deus, e há experiências muito, muito bonitas nesta área com crianças a partir dos três anos.
O Despertar na Fé já existe no Patriarcado há doze anos. Qual é o balanço deste projeto?
É muito positivo. As crianças vão cantar para casa as canções, vão contar as histórias e isso toca todo o tipo de famílias, independentemente da sua opção religiosa, da sua crença ou não crença, que por vezes não existe ou está adormecida, e a criança vem ali acordar, e há famílias que despertam para essa dimensão.
É um despertar da fé das crianças e dos próprios pais...
Exactamente. E também dos próprios educadores, porque não é preciso ser católico para ser educador de infância numa instituição católica. As pessoas, como profissionais, quando se vêem com este projecto na mão, elas próprias acabam por desenvolver também esta apetência e curiosidade pelo espiritual, este desejo do espiritual. Mesmo quem chega a uma instituição como profissional, que até nem teve nenhuma iniciação, acaba por desenvolver esta sede, e a experiência acaba por ser globalmente bastante positiva.
Esta proposta da Catequese Familiar já existe nalgumas paróquias da diocese?
Sim, algumas paróquias já desenvolvem esta proposta. É um modelo que propõe às famílias que se comprometam ativamente na catequese dos filhos. Uma semana encontram-se, na paróquia, os pais com um catequista e as crianças com outro catequista. Os pais recebem uma catequese e preparam a catequese que vão dar na semana seguinte, em casa, aos filhos. E têm assim este ritmo paróquia-casa, casa-paróquia, com também momentos celebrativos na paróquia.
Como têm reagido as famílias?
Há experiências diferenciadas. O êxito da Catequese Familiar está muito ligado à competência do catequista dos pais. A meu ver o grande desafio da catequese familiar reside aqui, no acompanhamento dos adultos.
Isto exige mais formação dos catequistas? Como está a ser feito?
Existe um plano nacional de formação de catequistas, o curso de iniciação e o curso geral, que as dioceses implementam. Temos uma proposta de encontro de introdução à catequese, para os catequistas que começam pela primeira vez, e depois o curso geral, que temos estruturado em quatro módulos de 18 horas cada um, dois módulos sobre os conteúdos da catequese, um módulo sobre catequética e outro sobre a pedagogia catequética. Depois temos ainda alguma formação complementar.
A Carta Pastoral dos Bispos traz algumas novidades, por exemplo, em relação ao perfil que o catequista deve ter...
Sim. Há uns anos, era suficiente que o catequista fosse um bom mestre, que soubesse bem o que tradicionalmente chamamos a doutrina e o catequista podia ser equiparado a um professor, a um mestre, que passa conteúdos.
Cada vez mais, o perfil do catequista vai sendo desenhado como aquele que testemunha, como aquele que acompanha um processo de iniciação, como alguém que é um mediador, um facilitador do encontro do catequizando com Deus. Logo, o catequista tem de ser alguém que está fundamentalmente ao serviço deste encontro.
Os bispos dizem “mais do que um mestre que transmite saberes, ele deve considerar-se como um guia espiritual, que acompanha no caminho do Senhor, o que só é possível se ele próprio tiver experiência pessoal do encontro com Cristo, e conhecer o caminho a percorrer”. Isto é muito importante, e traz desafios muito grandes à formação de catequistas.
Apontam-se três áreas na formação dos catequistas: o ser (tudo o que ele é como cristão, e o catequista é antes de mais um cristão amadurecido na fé), o saber (ele tem que conhecer a mensagem que transmite), e, depois, o saber fazer, todo o aspecto pedagógico. E a iniciação na fé não é a mesma coisa que ensinar a ler.
A ideia é que a catequese seja vista menos como escola. Como tem sido até aqui?
Menos como escola e mais como iniciação. É preciso que o catequizando, independentemente da idade que tenha, compreenda a fé, mas que se relacione com Deus, e por isso descubra a oração. Que celebre a fé, nos sacramentos. Que viva a fé, porque a fé tem consequências práticas. E isto requer competências - um saber fazer - específicas. Os catequistas têm de ser membros da comunidade bem enraizados. Não fazem por simples voluntariado, mas com habilidade.
Muitas das crianças que fazem a primeira comunhão já não chegam ao crisma. É a fase crítica em que a Igreja tem, de facto, de repensar a forma comunica?
Sim, tem de se pensar. Um dos grandes desafios da catequese, a meu ver, é levar a mensagem do Evangelho àquilo que é a realidade concreta da vida das crianças, dos pré-adolescentes e dos adolescentes. Porque efectivamente o Evangelho tem uma palavra a dizer, mas é preciso saber fazer esta conexão.
Nós temos crianças a chegar à catequese, e as famílias não querem sequer que elas venham, e elas vêm. E se a criança quer, e está tocada por Deus, ela não pode ficar privada da fé e dos sacramentos porque a família está noutro registo. Há que descortinar quais são os sinais que Deus nos dá, e arriscar. Arriscar.



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