Andrea Riccardi, leigo, figura universal da
Igreja Católica, fundador da Comunidade de Sant'Egidio, apresenta o seu livro Periferias, juntando duas paixões: a
história e a Igreja; e uma indignação: não se levar a sério o apelo do Papa
Francisco a ir para "as periferias geográficas e existenciais", para
construir uma Igreja não centrada em si mesma. Eis a entrevista que deu à Revista 21, publicação da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, em Espanha. Tradução: Orlando Almeida
O que os levou a formar a Comunidade de
Santo Egídio?
A Roma
dos anos 1960 parecia uma cidade do Terceiro Mundo. Nós éramos um grupo de
estudantes que descobrimos os pobres na periferia da cidade, nos barracos. Era
um mundo marginalizado, sem esperança. Santo Egídio começa com o conhecimento
dos pobres, dos romanos da periferia. Daí, saímos para as periferias das
cidades europeias. Depois a periferia foi a África.
Como é que uma comunidade criada por um
grupo de estudantes se torna um movimento de mais de 50 mil membros, em mais de
70 países, que discute planos de paz com governos ou a acolhida de refugiados
na Europa com a chanceler Angela Merkel?
Não é
algo racional. É a história. A história não responde só a questões racionais. A
história leva-nos a viver situações diferentes. É preciso ler os sinais dos
tempos e perceber as necessidades. Por exemplo, quando em Moçambique ninguém
trabalhava pela paz, nós começamos a fazê-lo. Por outro lado, quero esclarecer
que não somos um movimento. Somos uma fraternidade de comunidades que vivem em
muitos países, mas que se sentem muito próximas neste mundo global.
Consideramos a nossa fraternidade um dom que pode contribuir para superar o
renascimento do nacionalismo que nos entristece tanto. Temos que buscar a
fraternidade dos povos. Ai de nós se
apenas globalizarmos os mercados e não fizermos uma globalização cultural,
humana e também - por que não? - do espírito! Naturalmente, globalização não
quer dizer perder a própria identidade, mas criar uma civilização que nos
permita viver juntos.
A comunidade de Santo Egídio é conhecida
pelo seu papel nas negociações de paz ou pelos seus programas de luta contra a
aids na África, mas se abro a sua página web diz que a sua primeira tarefa é a
oração.
A oração
é essencial. Um homem ou uma mulher não podem ser reduzidos à sua atividade, ao
que fazem. O homem que reza abre o seu coração aos outros e aos problemas do
mundo.
Você diz que o mundo é uma fábrica de
periferias, a ponto de estas constituirem a maioria do mundo. E que, se a
Igreja não estivesse presente nelas, estaria condenada a ser irrelevante.
Por
demasiado tempo, vimos a Igreja como um monumento, como uma herança do passado
que devemos defender num tempo estranho ao cristianismo. Não é verdade. Este é
uma boa época para ser cristão. No entanto, devemos estar atentos para
compreender o nosso tempo. E aqui entra o tema da fábrica das periferias. As
cidades estão desmoronando. Joanesburgo, por exemplo: o centro da cidade já não
existe. As pessoas vivem em comunidades fechadas e os pobres na periferia. Em
São Paulo acontece o mesmo: os ricos deslocam-se de helicóptero, não andam no
meio da gente. A cidade já não é mais uma comunidade, mas um conjunto de
periferias. O que a Igreja deveria fazer? Ser uma minoria entre as minorias? Ou
ir até onde está o povo, convertendo a periferia em centro? Se num bairro
periférico se celebra a Eucaristia, se existe uma comunidade cristã, ali há um
centro. O drama do nosso tempo não é apenas a periferização das cidades, mas a
solidão. Hoje o homem e a mulher estão muito sozinhos. Trinta anos atrás, um
trabalhador do norte da Itália quando perdia o emprego, voltava para casa e
encontrava a sua mulher; enraivecido, insultava-a; depois ia à seção do Partido
Comunista. Lá explicavam-lhe que a sua demissão era um episódio da lógica das
relações entre o capital e o proletariado, diziam-lhe que as mulheres não
deviam ser maltratadas e, por fim, faziam uma coleta para ajudá-lo. Hoje, o
trabalhador volta para casa, encontra a carta do advogado da sua ex-mulher
pedindo a pensão, não há seção do partido... Ele está sozinho com a televisão.
Quem vai explicar a ele o que aconteceu?
No seu livro, você cita vários exemplos de
como a Igreja saiu para as periferias para logo voltar ao centro. É o caso dos
padres operários de Paris ou dos fundadores das ordens monásticas. Como seriam
hoje esses padres operários, esses monges?
Fico
indignado com o que alguns dizem: que falar de periferias é um slogan que foi
inventado pelo Papa Francisco. Não é. A saída para as periferias tem uma
tradição enorme na vida da Igreja. Dito isto, eu não saberia como responder à
sua pergunta. Cada um deve escolher a periferia que mais o interpele. O chamado
a sair para as periferias não é apenas para o clero, mas também para os leigos.
Para todos os cristãos. É um chamado que tem muito a ver com a política. É um
desafio não só eclesial, mas também civil e político.
Você diz que o seu livro é mais de
perguntas do que de respostas. Mas há pelo menos alguma pista que nos diz
indique se nesse caminho para as periferias estamos indo na direção certa?
A pista é
voltar a sonhar. Sonhar uma cidade mais comunitária e mais humana. No fundo, o
mundo global é uma grande rede de cidades. O desafio é integrar os imigrantes
nela. Quem o faz? As instituições? Fazem-no os grupos cristãos e os bairros
comunitários. Quando essa integração não se realiza, aparecem os guetos, as
periferias.
Você diz no seu livro que o mundo cristão
tinha esquecido a realidade da periferia, concentrando-se mais na moral.
Pareceria que a Igreja vivia presa à ideia de uma cristandade que já não
existe.
Uma
igreja minoritária tentou influenciar o centro político, mediático e econômico.
O centro de decisão, poderíamos dizer. Isto é o que as minorias costumam fazer:
tentar obter concessões do poder fazendo lobby. No entanto, a ideia de Igreja
do Papa Francisco não é a de uma instituição que faz lobby, mas a de uma Igreja
que se mistura com o povo e, portanto, com as periferias. É uma mudança de
perspectiva, de uma Igreja de minorias para uma Igreja do povo. Esta Igreja do
povo já é uma realidade, mas é sobretudo um sonho.
Há pessoas que não compartilham essa visão
da Igreja popular e até a ridicularizam.
É
verdade, até mesmo entre os bispos e os cardeais há muitos que discordam. É
normal. Não se pode fazer uma mudança tão grande em poucos anos. Por outro
lado, se todos estivessem de acordo, isso significaria que não está mudando
nada.
Tem-se comparado a visão de Bento XVI, que
tentou reformar o centro da Igreja, com a visão de Francisco, que está tentando
realizar uma reforma da Igreja a partir das periferias.
Honestamente,
não me parece que o Papa Bento tenha querido reformar o centro da Igreja.
Parece-me que ele deu uma contribuição muito grande para o pensamento e a
teologia. O seu objetivo era, antes de tudo, o diálogo com o pensamento laico
iluminista. Não creio que o problema da Igreja seja a reforma do centro, da
cúria. Se a cúria é um problema, é um problema pequeno. Os grandes problemas
que a Igreja deve enfrentar estão fora dela: o grande problema da miséria, o problema
de comunicar o Evangelho àqueles que não o receberam e o grande desafio do
cristianismo neo-protestante e neo-carismático. Falamos de uma galáxia de 600
milhões de pessoas que é a religião preferida do mercado global, como o
catolicismo e o protestantismo foram durante a expansão colonial.
Falando desses problemas maiores: a
Comunidade de Santo Egídio acolheu na Itália uns mil refugiados, mais do que
muitos países europeus. Não é uma vergonha para a Europa?
Os
governos europeus devem examinar a sua consciência. Por outro lado, os governos
não podem enfrentar sozinhos o problema da imigração. Isto deve ser feito pela
União Europeia como um todo. Os governos sabem que esta é uma questão que os
faz perder ou ganhar eleições e consideram-na um assunto reservado. É preciso
levar em conta várias coisas. Primeiro, com a crise demográfica que a Europa
sofre, precisamos dos imigrantes. Em segundo lugar, se queremos manter os
imigrantes nos seus países (penso sobretudo na África, de onde procedem 85% dos imigrantes que chegam à Europa),
deveríamos fazer uma política de longo prazo, fazer com que os chefes de Estado africanos assumam a
responsabilidade pelo seu povo. Você viu algum dos governantes africanos vir a
Lampedusa e inclinar-se diante das vítimas? Eu não. É preciso colaborar com os
governos africanos para que assumam as suas responsabilidades para com os seus
cidadãos. A política de migração europeia é feita em Ceuta, Melilha, Líbia ...
Isso deve ser feito no coração da África. Tudo o resto é miopia infinita.
Você recebeu o Prêmio Carlos Magno em 2009
e está falando o tempo todo com líderes europeus. Você acha que a Europa é uma
ideia errada?
Se a
Europa é uma ideia errada, falhamos todos nós europeus. Como podemos enfrentar
os grandes desafios do mundo e da economia global com as dimensões de Portugal,
Itália ou Espanha, que – seja-me permitido dizer – são países pequenos. Eles
estão cheios de história, de cultura, mas são pequenas embarcações de dimensões
diminutas demais para navegar no mar da globalização. Precisamos da grande nave
Europa para nos movimentarmos nesse mar. Se rejeitarmos a ideia da Europa, os
países vão para o suicídio. Um suicídio assistido, mas suicídio. Quando fazemos
muros para impedir que os imigrantes passem, estamos nos condenando ao suicídio
demográfico. Escolhemos a segurança de hoje, mas a insegurança de amanhã. A única escolha é
a Europa: uma Europa de duas velocidades, com políticas comuns de segurança, de
relações exteriores e militares. Temos de começar a implementar todas essas coisas já.
A comunidade de Santo Egídio teve sempre
uma dimensão política. Você foi ministro no governo Monti. Nos nossos dias,
todavia, a política está desprestigiada e o populismo avança. Como enfrentar
isto?
O
populismo é uma expressão do medo que nos dá um mundo global em que não sabemos
de onde as ameaças podem vir. Os partidos populistas são partidos do medo e
defendem uma política do medo. Frente a isso, devemos ter a coragem de fazer
uma política clara que, para mim, deve ter dois objetivos: a Europa e a
segurança de nossas cidades. Segurança no sentido do bem-estar, bem entendido.
Depois, devemos ter a coragem de defender as nossas ideias. Eu admiro Macron
porque ganhou dizendo "Europa". Se copiarmos os populistas, ao votar,
as pessoas vão preferir o original à cópia. Este é o problema de muitos
partidos de centro ou de esquerda que copiaram uma política populista de
direita.
Mas
muitas pessoas se sentem deixadas para trás e vêem que a política tradicional
não está enfrentando os seus problemas. Não serei quem defenda a política
tradicional. Não vejo os políticos no meio do povo, falando com as pessoas... É
esta a base da política. Senão, estamos falando de gestão, não de política.
Então, do que precisamos é de mais
política.
Sim,
precisamos de mais política e um horizonte comunitário, uma ideia de
comunidade.

Comentários
Enviar um comentário