O que dizem as mães que preferiam não ser: «Abdicaria deles sem pestanejar.» «Ter filhos foi um erro.» Reportagem da revista Visão
«O que se segue é duro de ler e pode
ferir a suscetibilidade de alguns leitores. Extraídos do livro Mães
arrependidas, da socióloga Orna Donath, seguem-se vários testemunhos na
primeira pessoa que mostram a realidade deste assunto tabu: mães
arrependidas... de serem mães», inicia assim a reportagem publicada pela revista VISÃO, em 5 de agosto de 2017.
O arrependimento materno é uma posição emocional que pode
ser acompanhada de enorme inquietação e enorme sofrimento. Para as mulheres que
se arrependem de terem sido mães, pode ser insuportável, pois não só têm de
seguir com a sua vida em permanente angústia, como praticamente não têm
possibilidade de falar dos seus pontos de vista, pois, em teoria, não deveria
haver arrependimento associado à maternidade.
A busca pelas causas para a falta de reconhecimento do arrependimento
associado à maternidade tem de começar com uma observação atenta das regras
emocionais que nos ditam que esferas e que situações sociais permitem, e até
esperam, expressões de arrependimento, e quais as que exigem a sua supressão.
Assim, esta discussão não se pode fazer sem olhar para o modo como a sociedade
lida com o tempo e com a memória, uma vez que o arrependimento é uma posição
emocional que faz a ponte entre o passado e o presente entre o tangível e o
recordado.
"Foi um erro terrível": Os pontos de vista das
mulheres
Durante as entrevistas fiz a seguinte pergunta a todas as
participantes no estudo: «Se pudesse recuar no tempo, sabendo o que sabe
hoje e com a experiencia que tem teria sido mãe/tido filhos?»
Todas as mulheres responderam de forma negativa, embora de
modos diferentes:
Sky (mãe de três filhos, dois entre os 15 e os 20, e outro
entre os 20 e os 25 anos):
"Se pudesse voltar atrás, hoje, tenho a certeza de que
não teria trazido filhos ao mundo. Isso é completamente claro para mim."
Susie (mãe de duas filhas entre os 15 e os 20 anos)
respondeu ainda antes de eu ter terminado a pergunta:
"Não teria tido filhos, ponto final, sem dúvida. [...]
Eu digo sempre que cometi três grandes erros na minha vida: um foi escolher o
meu antigo companheiro, o segundo foi ter filhos com ele e o terceiro foi ter
filhos de todo"
Doreen (mãe de três filhos entre os 5 e os 10 anos)
respondeu de forma veemente mesmo antes de eu ter terminado a pergunta:
"Doreen: Abdicaria inteiramente de ter filhos.
Eu: Os três?
Doreen: Sim. Custa-me muito dizê-lo, e eles nunca o ouvirão
da minha parte. Nunca lhes seria possível compreendê-lo, nem quando tiverem 50
anos, ou talvez nessa altura, mas não sei. Abdicaria deles. Mesmo. Sem
pestanejar."
Carmel (mãe de um filho entre os 15 e os 20 anos):
"Tive-o quando tinha 25 anos. Para mim, é claro como
água que, se soubesse o que sei hoje – sobre mim e sobre o mundo –, não o teria
tido. Claro e simples. [...] Não passa um dia sem que eu dê graças por só ter
um. Não passa um dia em que eu não diga “Tenho a sorte de só ter um”. E isto é
depois de dizer “E uma pena ter tido um, sequer”. [...] Preferia não ter."
Debra (mãe de dois filhos entre os 10 e os 15 anos):
"Perguntou-me se eu pudesse voltar atrás... sem dúvida
alguma quem não teria tido filhos. Embora eles sejam fantásticos e amorosos e
as suas dádivas sejam incríveis. Não desvalorizo isso. Eles acrescentam uma
dimensão à minha vida que não existiria de outro moda Mas se eu pudesse voltar
atrás sem sentir culpa e todas estas obrigações? Não teria optado por este
caminho."
Odelya (mãe de um filho entre 1 e os 5 anos):
"Para mim, é um erro. Quer dizer, é um erro. Porque é
uma obrigação, e eu quero viver a minha vida, e tenho tantos planos. [...] É
por isso que me arrependo, porque podia ter feito outras coisas que são
importantes para mim."
Erika (mãe de quatro filhos entre os 30 e os 40 anos, e
também avó):
"Posso dizer hoje, em retrospetiva, que vale a pena os
30 anos de sofrimento? Absoluta, definitiva e certamente [gesticula para
sublinhar a negação veemente] que não. Não. Fá-lo-ia de novo? Nunca. Se pudesse
escolher hoje, então talvez tivesse um rapaz ou uma rapariga, é
indiferente."
Eu: Porque é que não repetiria a experiência?
Erika: "Porquê? Eu digo-lhe. Porque não tive um único
dia na vida que fosse fácil. E eu não venho de uma família com dificuldades.
Não é uma questão de dinheiro. Nunca houve um dia em que fosse fácil criar os
meus filhos. Nunca."
Brenda (mãe de três filhos entre os 20 e os 25 anos):
"Abdicaria deles sem pestanejar". "Ter filhos
foi um erro". O que dizem as mães que preferiam não ser© Visão
"Abdicaria deles sem pestanejar". "Ter filhos foi um erro".
O que dizem as mães que preferiam não ser
"Em retrospetiva, não teria tido um filho sequer."
Bali (mãe de um filho entre 1 e os 5 anos):
Eu: Se pudesse "fazer recuar os ponteiros do
relógio"?
Bali: Com aquilo que sei hoje, faria recuar os ponteiros.
Mas como os ponteiros já avançaram, não mudaria as coisas. Porque a vida dela
pertence-lhe.
Eu: O que quer dizer com isso?
Bali: Que agora estou aqui para cuidar de alguém e não
apenas para a minha própria fruição. É uma responsabilidade com a qual eu
adoraria não lidar, mas já a assumi."
Jasmine (mãe de um filho entre 1 e os 5 anos):
"Não o suporto, ser mãe. Não suporto este papel. [...]
Posso dizer com toda a certeza que, sim, se eu soubesse há três anos o que
agora sei, não teria tido um filho. Não teria tido."
Helen (mãe de dois filhos entre os 15 e os 20 anos):
"Começou hoje. Com esta idade, agora é que começo a
sentir. A Orly foi sempre independente e madura... e o Eran foi agora fazer o
serviço militar.., começo a sentir liberdade. Mesmo. É o melhor para mim.
Contudo, se for absolutamente franca comigo mesma… pessoalmente, preferia viver
sem filhos."
Sophia (mãe de dois filhos entre 1 e os 5 anos):
"Mesmo hoje, numa altura em que têm 3 e 5 anos, se me
dissesse “Imagine que o génio da lâmpada lhe aparecia e perguntava ‘Desejas que
os faça desaparecer como se nada tivesse acontecido?”. A minha resposta seria
sim, sem hesitar."
Sunny (mãe de quatro filhos, dois entre os 5 e os 10 anos, e
dois entre os 10 e os 15 anos):
"Acho que não o faria. Nunca diria isto aos meus
filhos, e eles sabem que faço tudo por eles, eles sabem que frequentemente faço
sacrifícios por eles, mas eu... [sorri] não teria embarcado neste projeto outra
vez. Especialmente sabendo que me divorciaria depois e que o peso ficaria todo
sobre os meus ombros. Há outras circunstâncias que o dificultam ainda mais:
tenho dois filhos com necessidades especiais, o que torna tudo mais
difícil."
Liz (mãe de um filho entre 1 e os 5 anos):
"Provavelmente não. Provavelmente não. Uma vez mais,
é-me difícil dizê-lo, porque acho que irá melhorar, talvez mude – mas costumo
dizer que o que conta são as ações e não as palavras e, na verdade, vejo que é
um fardo para mim, «Mamã, mamã, mamã, mamã» a toda a hora. Vai ter com a tua
mãe, deixa-me em paz [risos]. Olho apenas para o que está a acontecer e não
para o que acho que é a coisa cultural ou moralmente correta a pensar, sobre a
sorte que tenho e como as coisas são..."
Grace (mãe de dois filhos, um entre os 5 e os 10 anos, e um
entre os 10 e os 15 anos):
"Hum, sabe que mais? Abdicaria frisos]. Até abdicaria
desta ansiedade. É uma intensidade de emoções. Quando penso no que ainda tenho
pela frente, sem dúvida que estaria disposta a abdicar disso. Mas, enfim,
precisaria de saber aquilo que sei hoje."
Edith (mãe de quatro filhos, dois entre os 25 e os 30 anos,
e dois entre os 30 e os 35 anos, e também avó):
"Nem pensar, como se costuma dizer. A menos que, sabe,
se eu tivesse concluído os meus estudos de Medicina, talvez nessa altura, se eu
tivesse uma carreira e tudo o mais? Mas não creio. Para quê?"

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