A nova arte de "Pope-Watching"

Monsenhor Vincenzo Tizzani, uma das mais importantes testemunhas da transição, no século XIX, do poder temporal para a autoridade espiritual não-territorial, observava em 1871: "No Vaticano, o coração humano raramente se mostra".

Ele falava das estudadas subtilezas da corte d Roma, onde o papa, monarca aparentemente absoluto, era muito mais dependente da sua nobreza eclesiástica do que os outros monarcas. Esse tipo de corte papal já não existe; o mundo das clientelas mais ou menos formalizadas já passou ou, melhor, as clientelas mudaram de nome. Hoje a cena é muito menos esplêndida; famílias como os Colonna, os Barberini e os Farnese, com toda a sua magnificência e munificência, foram suplantados pelas classes médias do Catolicismo, ou – como algum temem com o papado de Francisco – pelo "povo".

Massimo Faggioli, Commonweal Magazine

Mas, se aquela monarquia estética do Vaticano é, de há muito tempo, uma coisa do passado, a arte do pope-watching está claramente a viver um renascimento. É uma arte que agora pode ser praticada à distância, dada a constante cobertura da comunicação social (tradicional e social) de tudo o que o papa faz e diz em público. Na verdade, há alguma coisa nesta cobertura, na forma de re-embalar e apresentar as atividades papais que me faz lembrar o fenómeno definido como «uma apresentação glamorizada visual espectacular que estimula o desejo de consumir ou a sua glorificação».  Quem segue o Instagram do Papa Francisco: https://www.instagram.com/franciscus, por exemplo, pode entender do que estou a falar.

No entanto, o modo muito particular de Francisco de ser papa requer uma nova maneira de observar, de prestar atenção. Por exemplo, as suas homilias diárias nas missas matutinas em Santa Marta tornam o papa mais parecido com um pároco do que qualquer outro pontífice antes dele. O papa fala mais, e numa variedade de géneros, que exigem um tipo diferente de análise da palavra papal. Também representa o passo seguinte numa dessacralização em curso da pessoa do Papa, que remonta ao Papa João XXIII, que pediu ao jornal L’Osservatore Romano para não usar mais, ao citá-lo, a frase "como recolhemos dos augustos lábios". De agora em diante, disse ele aos jornalistas do diário oficial do Vaticano, ficará perfeitamente bem [dizer] "o papa disse isto" ou "o papa fez aquilo".

O ‘pope-watching’ também mudou porque o Vaticano era relevante principalmente  apenas para os católicos, aliás apenas para certos católicos:  clero,  teólogos, políticos católicos, um número muito limitado de diplomatas e agentes estrangeiros de inteligência (os arquivos das agências de inteligência estão cheios de anotações  sobre as mudanças no catolicismo que ocorriam durante o Concílio Vaticano II  e sobre  as repercussões políticas e diplomáticas dessas mudanças). Especialmente a partir do Vaticano II, a visibilidade e a relevância do papel do papa aumentaram, fazendo do Vaticano um palco para o ecumenismo global, para o diálogo inter-religioso e para projetar uma agenda mais ampla e inclusiva. A palavra papal expandiu-se de formas não previstas pelos que, no Vaticano I, pressionavam pela "infalibilidade papal" como resposta à modernidade cultural e política. Tudo isso também levou a uma expansão do quadro de dirigentes e funcionários do Vaticano. O pessoal da cúpula da cúria tornou-se parte do show e ficou muito mais visível: o secretário do papa, os cardeais, os conselheiros, os opositores descontentes, os papabili. Depois, há os jantares eclesiástico-políticos, as conferências teológicas em Roma e as conferências fora de Roma, que inevitavelmente tomam uma feição pro ou contra Francisco. E a arte outrora obscura de ler os sinais do palácio tornou-se agora um hobby global democratizado e tornado possível pela internet.

Um factor em particular tornou a arte do pope-watching mais complicada e provavelmente mais importante: a renúncia de Bento XVI em fevereiro de 2013. Mas este "material" adicional para os observadores do Vaticano também apresenta um notável desafio para o próprio Vaticano e para o Catolicismo Romano. A cobertura da comunicação social sobre o predecessor de Francisco tornou-se uma espécie de substituto da reflexão teológica sobre e para as disposições jurídicas relativas ao instituto do chamado "papa emérito" (um termo em si mesmo impreciso, segundo um dos maiores canonistas da Roma papal, Gianfranco Ghirlanda). Parece que a imprensa está moldando um entendimento popular de uma situação complicada que teólogos e canonistas ainda não resolveram.

Não está claro como é que eles irão proceder na abordagem deste desafio. Não existe uma tradição estabelecida nas formas (litúrgicas, mas não só) com que a Igreja deve tratar um papa que renuncia (embora a "tradição" esteja sendo construída, dia após dia, diante dos nossos olhos, através da comunicação social tradicional e social). Se há muito pouca teologia sobre o "bispo emérito diocesano" (uma criatura do Concílio Vaticano II,  há cinquenta anos atrás), há ainda menos sobre o "papa emérito". 

A única disposição canónica jurídica para o "papa emérito" aparece no Código de Direito Canónico de 1983, no cânone 332 §2: "No caso de o Romano Pontífice renunciar ao seu cargo, é necessário para a validade que a renúncia seja feita livremente e apropriadamente manifestada mas não é necessário que seja aceita por alguém". Não há nada na lei da Igreja acerca do momento depois da renúncia do papa [em que ela] produz efeito.

Cada papa no século passado mudou alguma coisa das regras para o conclave, reformulando o procedimento para a escolha do seu sucessor, para o bem da Igreja, quando ele se for. A situação é diferente no caso do papa emérito. Para um papa, regulamentar a vida e o ministério de um bispo de Roma que renunciou seria como fazer os preparativos para sua própria renúncia. Veremos como e quando a Igreja regulamentará a vida e o ministério do "bispo emérito de Roma" – quem quer que seja (ou quem quer que sejam, se houver mais de um papa emérito) – e se as regras serão diferentes das poucas preparadas em segredo por Bento XVI nos meses anteriores ao anúncio da sua decisão de renunciar. Nos últimos quatro anos e meio, nenhuma lei (e nenhuma discussão sobre o tema) foi iniciada para regular a vida e o ministério do papa anterior, por razões óbvias: Bento XVI ainda está vivo e ninguém pensa que preparar-se para casos futuros seja uma boa ideia agora, porque implicaria numa crítica à maneira como Bento XVI está interpretando e vivendo o seu papel.

Isso criou como que um vazio no Vaticano, um vazio que os jornalistas (e a comunidade dos fiéis interessados) inevitavelmente preencheram. Não é apenas a novidade da renúncia, mas também a novidade da presença pessoal e do estilo de vida de Bento XVI após a sua renúncia. Ele é ‘semi-demissionário’, não está mais ensinando oficialmente, mas está orientando alguns dos seus alunos e muitos de seus ‘followers’ através de canais de comunicação social informal e social – amplificando assim suas mensagens e expandindo sua audiência. Exatamente um ano atrás, foi publicado o livro-entrevista de Bento XVI, parte de uma tentativa de redefinir o seu próprio legado. Bento não tem um papel formal neste pontificado, mas toda a vez que diz algo (como a mensagem lida no funeral do cardeal Joachim Meisner pelo secretário pessoal de Ratzinger, o arcebispo Georg Gänswein, algumas semanas atrás) ou quando escreve algo (como a nova introdução à edição russa dos seus escritos sobre a liturgia), ele vira notícia. Notícia, porque estas declarações ajudam a construir uma tradição completamente nova do "emérito". No entanto, cumpriria notar que as intenções do emérito não são as mesmas que  as intenções dos jornalistas e comentaristas católicos simplesmente nostálgicos do seu pontificado. Existe uma relação de inegável amabilidade entre Bento e Francisco que contrasta com o azedume entre os campos opostos dos comentaristas papais.

Entretanto, há indicações de um desejo por  um processo de regulamentação. Recentemente, vários teólogos alemães e de historiadores da Igreja pediram ao emérito para abandonar visivelmente o uso da roupa papal branca e voltar a usar a vestimenta vermelha e preta dos cardeais. 

Regras como essas fariam sentido, mas só seriam o começo. O que a vida pós-renúncia de Bento tornou evidente é a necessidade de estabelecer regras a respeito do acesso da e à comunicação social.

As circunstâncias logísticas estabelecidas por Bento XVI para sua vida pós-pontificado – um retiro monástico num mosteiro dentro das muralhas do Vaticano – tornaram a cobertura [mediática] do emérito quase literalmente  um exemplo de "jornalismo de acesso" no qual conseguir falar com uma personalidade importante influenciará o que o repórter  escreve, o que por sua vez determinará o grau de futuro acesso. Este arranjo exclui ainda mais que teólogos e especialistas em direito canônico influenciem como o instituto do mérito é definido.

A mudança do papel da teologia e do direito canónico no Catolicismo no período pós-Vaticano II levou a um papel mais importante da comunicação social, um papel que quase parece "constitucional". Pensemos no chamado magistério dos gestos, como o aplicado no encontro inter-religioso convocado pelo Papa João Paulo II em Assis em 1986: as fotos, vídeos e relatos da comunicação social sobre o evento disseram-nos muito mais do que os curtos pronunciamentos magisteriais feitos no decurso do encontro e até mais do que a posterior elaboração magisterial  na tradição Católica. O mesmo parece estar acontecendo a respeito do "papa emérito". Porque, enquanto não emergir uma liderança teológica ou canónica para tomar o controle da definição e regulamentação do instituto, a comunicação social ficará bastante feliz em fazê-lo.

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