«O que podemos nós fazer para, mesmo na ausência do presbítero, continuar a manter a chama da fé viva nas nossas comunidades?»
As comunidades da diocese de Bragança–Miranda estão a ressentir-se com a falta de clero e sentem-se cada vez mais abandonadas. A torcida da fé que ainda fumega nas aldeias mais remotas do Nordeste Transmontano está quase a apagar-se.
S. João Maria Vianney, o Santo Cura de Ars, dizia: «Deixai uma paróquia 20 anos sem padre e lá os homens adorarão os animais.» Talvez tenha razão, mas há pelo menos uma realidade no mundo que contradiz essa afirmação: a Igreja coreana.
[Na
Coreia do Sul, para uma população de 49 milhões de habitantes, os católicos são
4,682 milhões. Há 15 dioceses, incluindo três arquidioceses (Seul, Daegu e Gwangju, e um ordinariato militar); 1668 paróquias e 4900 sacerdotes.
Na Coreia do Norte, para uma população de 23,301 milhões de
habitantes, estima-se que 10 mil católicos celebrem a sua fé na
clandestinidade, sujeitando-se a castigos severos se form descobertos. Não há
padres, as igrejas não tem cruzes, e são leigos que orientam as celebrações da
Palavra dominicais. Estima-se que 200 mil católicos estejam a padecer nos
campos de concentração norte-coreanos. Os dados são padre Lee Eun-hyung, o
secretário geral do Comitê para a Reconciliação do povo coreano, que visitou o
país em 2011. * Dados da redação da revista Além-Mar]
No século XVII, a fé cristã foi introduzida naquela península asiática com a chegada de livros católicos em chinês do jesuíta italiano Matteo Ricci. Até à chegada dos primeiros sacerdotes franceses, em 1836, os católicos alimentaram e mantiveram a fé, extraordinariamente, sem o alimento da Eucaristia. Diversas perseguições foram decapitando as comunidades coreanas, habituando-se estas a viver e a aprofundar a sua fé mesmo sem sacerdotes, de tal modo que a Coreia é considerada um caso único no mundo de uma “nação que se evangelizou a si mesma”.
A falta de clero
Durante os últimos anos o concelho de Vinhais foi particularmente fustigado pela diminuição do clero. Em pouco tempo, de sete diminuíram para três o número de sacerdotes que o servem. Há localidades que não têm missa durante mais de dois meses. D. José Cordeiro, o bispo desta diocese, tem-se disponibilizado ele próprio a celebrar em alguns domingos nessas comunidades. Numa delas, alguém lhe terá manifestado o abandono em que se encontram e lhe fez este apelo: «Todos nos abandonaram, por favor que a Igreja não nos abandone.»
De facto está a tornar-se cada vez mais difícil, para o bispo, atender a todas as solicitações das 326 paróquias da diocese com as suas mais de 600 comunidades, espalhadas por montes e vales. Tem apenas cerca de meia centena de sacerdotes para distribuir por todas essas paróquias.
Muitos deles já ultrapassaram os 75 anos, mas apesar de a Igreja lhes reconhecer o direito a renunciarem às suas atividades pastorais, continuam a garantir a celebração da eucaristia em tantas comunidades. Alguns deles, é na velhice que se veem obrigados a assumir um maior número de comunidades do que aquelas que tinham na sua juventude. É certo que então as aldeias tinham muitos mais habitantes e as deslocações eram muito mais difíceis. Mas continuam a ser as mesmas e a exigir que se vá lá.
Perante este panorama, os católicos brigantinos, em vez de aguardarem passivamente que o bispo lhes resolva o problema, devem começar a colocar-se a questão: «O que podemos nós fazer para, mesmo na ausência do presbítero, continuar a manter a chama da fé viva nas nossas comunidades?»
Que o testemunho dos fiéis coreanos os desafie a encontrar formas para acabar com o silêncio que se abateu sobre os campanários nordestinos e que todos os domingos os sinos repiquem de novo, nem que seja para chamar os fiéis à oração do rosário, se não houver a possibilidade de promover outra celebração litúrgica do domingo.
Fonte: Mensageiro de Bragança

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