Recolhimento, diálogo consigo próprio, silêncio para «ir para dentro de si»: Quatro motivos para ter tempos a sós com Deus

«Uma só coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir para dentro de si e não encontrar ninguém durante horas: a isto é preciso chegar.

Estar só como está só a criança. Se nos aproximamos de uma criança absorta num jogo ou na exploração de um objeto, tem-se repentinamente da sua parte uma reação brusca: ela gosta de estar só consigo própria, com as suas fantasias, os seus arabescos gestuais e mentais.

Depois, quando cresce, perde esta capacidade de estar consigo própria e começa, sim, a vida em companhia, mas também a lógica do bando e do rumor de fundo, uma espécie de distração permanente do silêncio. Desta maneira perde-se a possibilidade de se encontrar a si própria, de escutar-se, de penetrar no secreto da consciência.»

É isto que o grande poeta austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926) evoca numa das suas “Cartas a um jovem poeta”: aceder à obra, aqui: RAINER MARIA RILKE - Cartas a um jovem poeta

Estar só contém em si o germe da reflexão, da maturação, da fineza espiritual, da própria contemplação de fé.

Infelizmente é um exercício que desapareceu do horizonte educativo e das práticas quotidianas, inclusive dos adultos. É assim que sobe o grau da superficialidade, da irritabilidade, da banalidade e da indiferença.

O silêncio para «ir para dentro de si» é uma espécie de dieta da alma que nos purifica das misérias, nos eleva das coisas, nos liberta do tagarelar, nos despoja das realidades inúteis.

Mas atenção: ainda que sejam parecidos exteriormente, a verdadeira solidão não é isolamento, porque este é uma prisão da alma e um terreno onde pode florescer a erva daninha da infelicidade ou acontecer a morte do amor.

Gianfranco Ravasi, em Avvenire. Tradução: SNPC

Quatro motivos para ter tempos a sós com Deus

1.º – Fomos criados para ter comunhão com Deus. Essa é a razão de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus (Génesis 1, 27-28). Deus quer ter comunhão connosco e, por isso, nos fez parecidos com Ele, e Ele dotou o nosso intelecto e os nossos sentimentos de capacidades para dialogarmos: podemos falar com Ele, senti-Lo.

2.º – Deus está sempre desejoso de ter comunhão connosco. A iniciativa da comunhão entre Deus e nós é sempre Dele: «Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor» (1 Coríntios 1, 9).

3.º – O tempo a sós com Deus é o (pão) que alimenta as capacidades espirituais na nossa vida terrena. Vemos no Novo Testamento da Bíblia que Jesus tinha muitos momentos a sós com o Pai, e isso lhe dava poder para resistir às tentações e manifestar o poder de Deus na sua vida.

4.º – Precisamos  do pão espiritual todos os dias. Como disse o próprio Jesus: « Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4, 4).

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