O Papa Bento XVI terminou a exortação apostólica Africae munus – o
Serviço da África – com uma oração à Mãe de Deus: «A bem-aventurada Virgem
Maria, Mãe do Verbo de Deus e Nossa Senhora da África, continue a acompanhar
toda a Igreja com a sua intercessão» (n.º 175).
A devoção africana à Mãe de Jesus perde-se nas brumas da
memória cristã. Os frescos das antigas igrejas núbias, no que é hoje o Sudão,
são testemunho silencioso desse passado de fé. Os três reinos núbios formaram
um enclave cristão entre os séculos VI e XV até serem tragados pelo Islão. A
Virgem tem um lugar preeminente nessa iconografia antiga de que hoje restam
alguns frescos nos museus de Cartum e Varsóvia.
A devoção etíope a Nossa Senhora é expressão dessa herança.
Maria é comummente chamada «Kidane Mehret», literalmente «Aliança de
Misericórdia». A Igreja Ortodoxa celebra-a no dia 16 de cada mês. A festa anual
é a 16 de abril. O ícone da Virgem Mãe com o Menino ao colo guardada por dois
anjos repete-se por inúmeras igrejas ortodoxas e católicas. A mesma devoção
está presente entre os coptas do Egipto.
O título Nossa Senhora da África ou Virgem de África tem
marca portuguesa. O infante Dom Henrique ofereceu a imagem por ele assim chamada
à cidade de Ceuta em 1421. No século XIX, o culto chegou a Argel, na Argélia. A
construção da imponente basílica em estilo neobizantino começou em 1858 numa
colina sobre o Mediterrâneo e foi consagrada em 1872. O templo é também
frequentado por muçulmanos.
A Basílica de Yamoussoukro, na Costa do Marfim, é outro
lugar mariano africano dedicado à Nossa Senhora da Paz. O templo, construído
entre 1985 e 1989, é uma cópia da Basílica de São Pedro, mas em maior.
Os países africanos de expressão portuguesa além da língua
também herdaram a devoção mariana:
- A padroeira de Cabo Verde é a Senhora das
Graças
- A padroeira da Guiné-Bissau é a Senhora da Candelária.
- Angola tem em Muxima um
santuário nacional dedicado à Senhora da Conceição
- A Senhora da Conceição é padroeira de
Moçambique.
África é lugar de aparições marianas: Ngome, na África do
Sul, e Kibeho, no Ruanda, são dois centros reconhecidos.
Mas a Senhora de
Fátima também está presente em África desde 1942 quando foi inaugurado o
Santuário de Namaacha, em Moçambique. O cardeal John Onaiyekan, arcebispo de
Abuja (Nigéria), explicou que a mensagem de Fátima é muito importante para
África, porque «é um apelo à paz».
Hoje, há pelo menos 57 paróquias dedicadas à Senhora de
Fátima na África. Moçambique está à frente com 16. Angola tem 11. O lugar
de culto mais deslumbrante é o altar de Nossa Senhora de Fátima no cume nevado
do monte Kilimanjaro, na Tanzânia, a 5895 metros de altitude.
A devoção mariana com rosto africano é sobretudo corporizada
na Legião de Maria. A organização nasceu na Irlanda em 1921. Milhares e
milhares de mulheres católicas dedicam-se de alma e coração ao serviço das suas
comunidades desde o cuidado dos templos e da ordem nas celebrações ao serviço
aos mais necessitados inspiradas na Virgem de Nazaré.
José da Silva Vieira (MCCJ), revista Além-Mar, maio de 2018

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