A nossa sociedade é mais sã do que era Jesus Cristo? Ele foi declarado «fora de si» (Mc 3, 20-35)

A cultura moderna exalta o valor da saúde física e mental, e dedica todo um conjunto de esforços para prevenir e combater as doenças. Mas, ao mesmo tempo, estamos a construir entre todos uma sociedade onde não é fácil viver de forma sã.

Nunca esteve a vida tão ameaçada pelo desequilíbrio ecológico, a contaminação, o stress ou a depressão. Por outra parte, temos vindo a fomentar um estilo de vida onde a falta de sentido, a carência de valores, um certo tipo de consumismo, a trivialização do sexo, a falta de comunicação e tantas outras frustrações impedem as pessoas de crescer de forma sã.

Algo disto sucedeu com Jesus, de quem os Seus familiares pensam que «não está no seu juízo», enquanto os letrados vindos de Jerusalém consideram que «tem dentro Belzebu»: ler o Evangelho deste décimo domingo comum: Mc 3, 20-35.

Uma sociedade é sã na medida em que:
- favorece o desenvolvimento são das pessoas. 
Quando, pelo contrário, as conduz ao seu esvaziamento interior, a fragmentação, à dissolução como seres humanos, temos de dizer que essa sociedade é, pelo menos em parte, patogénica.

Perguntemo-nos, então, que é mais são?
- deixar-nos arrastar por uma vida de conforto, comodidade e excesso que provoca letargia no espírito e diminui a criatividade das pessoas ou viver de modo sóbrio e moderado, sem cair na «patologia da abundância»?

- continuar a funcionar como «objetos» que giram pela vida sem sentido, reduzindo-a a um «sistema de desejos e satisfações», ou construir a existência dia a dia dando-lhe um sentido último a partir da fé? Não esqueçamos que Carl G. Jung se atreveu a considerar a neurose como «o sofrimento da alma que não encontrou o seu sentido».

- encher a vida de coisas, produtos de moda, vestidos, bebidas, revistas e televisão ou cuidar das necessidades mais profundas e cativantes do ser humano na relação do casal, no lar e na convivência social?

- reprimir a dimensão religiosa esvaziando de transcendência a nossa vida ou viver a partir de uma atitude de confiança nesse Deus «amigo da vida» que só quer e procura a plenitude do ser humano?

José Antonio Pagola

Comentários