«Antídoto contra o clericalismo é um laicado maduro», entrevista com Mauricio López, coordenador das Comunidades de Vida Cristã (CVX)
Mauricio López diz que é mexicano por nascimento, equatoriano por opção e amazónico por vocação. O atual secretário executivo da Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repam) está a concluir o seu serviço à frente das Comunidades de Vida Cristã (CVX), presentes em cerca de 70 países e vinculadas à Companhia de Jesus, com a qual colaboram não em função da instituição, mas sim da missão. Deu esta entrevista a Luis Miguel Modino, para Religión Digital.
Depois de vários anos de serviço como presidente da CVX, qual é o legado que permanece em sua vida?
Eu diria que o mais importante que a presidência da CVX durante cinco anos me deixou é a certeza de que o discernimento comunitário é uma possibilidade concreta e real, é uma resposta específica ao mundo de hoje, que também está cheio de dispersão, fragmentação e superficialidade, e nos permite entrar em profundidade no serviço concreto pelo Reino, especialmente tendo em conta a nossa identidade laical.
Eu acho que esse legado de saber que a nossa missão só pode ser entendida a partir da vivência comunitária é algo que dá muito sentido à nossa missão de sentir com a Igreja. Nos Exercícios Espirituais, Santo Inácio falava profundamente de algumas orientações para sentir com a Igreja. Eu acho que, se é possível falar de algum legado para mim, é ter aprendido a discernir comunitariamente.
A outra coisa é que as dinâmicas globais - que se expressam na diversidade cultural, numa equipa de trabalho que é a Equipa Mundial, que é integrada por pessoas de todos os continentes, com uma grande diversidade - nos unem numa mesma vocação pelo Reino. Hoje nos sentimos chamados a sentir que a nossa espiritualidade não é para um consumo privado, para nos fecharmos em nós mesmos, mas para colocá-la ao serviço da Igreja e do mundo.
Gustavo Gutiérrez, um dos grandes promotores da Teologia da Libertação, dizia que a espiritualidade inaciana é, talvez, a que pode responder melhor às realidades tão complexas do mundo de hoje. Não é nem melhor nem pior, mas talvez, sim, uma espiritualidade que pode responder melhor a essa situação de um mundo que também muda com muita rapidez, que está em uma dinâmica de contraste. A espiritualidade consegue conectar o diferente e ajuda a encontrar o sentido do Reino no meio de uma grande diversidade.
Por último, saber que a minha missão na Igreja está profundamente marcada pelos dons que recebi de tantas mulheres e homens, que foram semeando no meu coração com paciência, confiando, acompanhando meus tropeços, e tudo o que eu faço hoje em minha missão eclesial, seja na Repam ou na Cáritas Equador, onde estive até recentemente na Secretaria Executiva, também tem a ver com essa espiritualidade que tenta fazer sentido da construção do Reino em meio às diversas realidades.
Qual é a importância dos leigos para a Companhia de Jesus?
A Companhia de Jesus é uma instância irmã da CVX desde o seu início. A CVX procede das comunidades marianas, que também completam 450 anos de caminhada, e a CVX é a interpretação e a renovação de há 50 anos de uma comunidade de leigos vinculados à espiritualidade inaciana, querendo responder muito mais em virtude da nossa identidade laical aos apelos do Concílio Vaticano II.
A espiritualidade inaciana é uma espiritualidade que une polos diferentes e processos improváveis de comunhão, isto é, encontrar Deus em todas as coisas, contemplar na ação, usar de todas as coisas na medida em que nos levem a um fim maior.
Acredito que a Companhia de Jesus está entendendo cada vez mais que o chamado à colaboração tem que ir além de suas próprias estruturas e instituições. Não é uma colaboração em função da instituição, mas sim uma colaboração no coração da missão. E a CVX, tendo identidade própria, autonomia também jurídica e de acordo com o Direito Canônico na Igreja, pode e é chamada a ser essa instância diferente por nossa própria identidade, mas que quer complementar e animar caminhos de enriquecimento mútuo e, sobretudo, de resposta aos grandes sinais de morte na realidade de hoje.
Juntos, somos chamados a responder melhor, a partir de cada uma das nossas respectivas ministerialidades, mas a serviço de uma mesma missão, que é uma missão no coração da Igreja.
Como pode a espiritualidade inaciana influir na vida quotidiana de cada batizado?
A espiritualidade inaciana é uma espiritualidade que une polos distintos e processos improváveis de comunhão, isto é, encontrar Deus em todas as coisas, contemplar na ação, usar de todas as coisas na medida em que nos levem a um fim maior. Ela permite que muitos aspectos do nosso mundo que nos estão a fragmentar façam sentido numa mesma direção, que é encontrar o rosto encarnado de Cristo entre a realidade diversa, e, nela, sentir-nos chamado a ser redenção do género humano, ou seja, a fazer sentido da esperança e do projeto de vida, de justiça e de dignidade em meio à realidade.
Eu acredito que essa espiritualidade permite que, em todos os âmbitos da vida quotidiana, profissional, política, social, cívica, sintamos que somos chamados a fazer a diferença, que, seja o que for que façamos, fazemo-lo com uma profunda convicção de que ali estamos a construir o Reino e que isso seja notado. Não que seja notado de uma maneira qualitativamente distinta, mas sim pela profundidade e pelo testemunho de fazê-lo com toda a certeza de que Deus trabalha dentro da vida e que nós somos um pouco criadores com Ele.
Como é que a figura do Papa Francisco, jesuíta e que tanto critica o clericalismo, pode influir para que a Igreja hierárquica reconheça cada vez mais a importância do laicado?
O Papa Francisco está a chamar a uma forte afirmação do laicado de hoje e não só em palavras. Eu acho que a exortação apostólica Gaudete et exsultate é uma absoluta convicção a partir do pontificado de Francisco e um mapa para poder fazer do meio da vocação laical o caminho privilegiado para a santidade. Ela está a reafirmar e a reivindicar essa vocação na Igreja, que não é uma vocação secundária, que não é uma vocação também reduzida, mas sim o caminho pleno para responder aos sinais mais profundos da realidade hoje.
Eu acho que o papa também está a traçar para nós linhas muito concretas, por exemplo, na criação do novo Dicastério para a Vida, a Família e os Leigos, no qual tivemos alguns encontros específicos como CVX, escutando uma verdadeira e genuína convicção de mudar as coisas, incorporar as diretrizes do Concílio Vaticano II, que já estão com cinquenta anos de atraso e têm de ser postas em movimento também.
Por outro lado, a nomeação como subsecretários dentro desse âmbito eclesial na figura de leigas, especificamente. Por outro lado, eu acho que o único antídoto contra o clericalismo é um laicado maduro, responsável, capaz de encontrar o seu próprio lugar na Igreja e que possa ser um interlocutor construtivo com a Igreja, mas, ao mesmo tempo, servir de interface para responder a todos os outros espaços onde hoje a Igreja não está ou não pode estar presente ou está cada vez mais limitada para chegar.
O século presente, como já dizia o Concílio Vaticano II, é o século dos leigos, mas cabe a nós fazer um discernimento profundo, com maturidade, a partir da complementaridade, para poder encontrar a nossa verdadeira identidade e o nosso contributo mais profundo no meio desse caminho do Reino. O kairós que estamos vivendo hoje, a partir do Concílio Vaticano II e até o Papa Francisco, passa necessariamente pela sua concretização, pelo facto de os leigos encontrarem o seu verdadeiro chamamento e vocação no meio da Igreja.

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