«A boa notícia é que não começamos do zero a construir o
catolicismo pós-moderno. Muitos grupos — de base e/ou comunidades eucarísticas,
grupos religiosos de mulheres, capítulos do Dignity, entre outros — têm
experimentado novas formas de ser Igreja há décadas. A teologia sacramental e a
eclesiologia necessárias para desmantelar o sistema hierárquico e substituí-lo
por estruturas igualitárias, globalmente conectadas e com bases funcionais de
acordo com o Evangelho já consta na literatura», escreve Mary E. Hunt, teóloga
feminista e co-fundadora e co-diretora da Women's Alliance for Theology, Ethics
and Ritual (WATER), em Silver Spring, Maryland, em artigo publicado por
National Catholic Reporter.
A tradução é de Luísa Flores Somavilla.
O suposto e reiterado abuso de poder de Theodore McCarrick (arcebispo-emérito
de Washington) sobre os subordinados (não esquecendo um caso de abuso de menor)
acentua o espectro do clericalismo e implora por mudanças.
O teólogo e padre Bryan Massingale concorda com o cardeal de
Chicago Blase Cupich, que o sentimento de ter direitos que prevalece entre
alguns homens ordenados poderiam levar a comportamento de exploração. Ambos
concordam que a questão não é se os homens são homo ou hetero (ou, devo
acrescentar, algo além desse quadro binário), mas se têm, em virtude de seu
status clerical, acesso a privilégio e poder dentro da comunidade eclesiástica
que podem livrá-los de prestar contas.
Massingale e Cupich citam que o clericalismo é o problema.
Eu concordo até certo ponto, mas acho que o problema é mais profundo, na
verdade está localizado na base, enraizado na bifurcação entre clérigos e
leigos que embasam a instituição Católica Romana.
Esta estrutura de cima para baixo, dividida entre clero e
leigos, condiciona relacionamentos e funções na Igreja. O Catecismo da Igreja
Católica diz que a ordenação «confere um caráter espiritual indelével» a um
padre que «não pode ser repetido nem conferido para um tempo limitado», que «fica
para sempre» (1583). O padre é considerado ontologicamente diferente do leigo. O
seu lugar na estrutura hierárquica reflete essa diferença. Os seus papéis como
celebrante sacramental e tomador de decisões são contingentes.
Além disso, em dioceses e ordens, a instituição que paga,
alimenta e inclusive o enterra é construída para manter o bem-estar da
instituição e de si próprio; espera-se que tenha lealdade semelhante à
instituição.
Não admira que os bispos e superiores tenham transferido, resguardado
e protegido os criminosos do clero. É simplesmente assim que o sistema
funciona, não é um caso raro e anormal como eu esperaria que algum participante
honesto pudesse dizer. O desastre da Pensilvânia é prova disso.
Mas é possível mudar. Mesmo que todos os bispos dos Estados
Unidos renunciassem (ou tivessem de sair) e fossem substituídos por outros
clérigos, prevejo que pouco melhoraria. A estrutura, não apenas os indivíduos
que cometem erros, é o problema, e estruturas podem mudar.
A ordenação é a linha vermelha brilhante de divisão deste
esquema. Imagine uma pirâmide com uma linha um pouco abaixo do topo, que é onde
está no clero no sistema eclesiástico. Os números estão bem abaixo de 1 % dos mil
milhões de católicos, mas este sistema acaba por dividir a comunidade em
estratos muito desiguais.
A teóloga bíblica feminista Elisabeth Schüssler Fiorenza
convenientemente chamou isso de “kiriarcado” para sinalizar as muitas formas de
"domínio" dos que têm privilégios de raça, género, classe, entre
outros, e também, nesse caso, clerical. O que está em questão é a estrutura e
não apenas o abuso; o sistema clerical/leigo, não apenas o clericalismo.
O caso McCarrick deixa isso muito claro. Como observou o
padre jesuíta Thomas Reese, «a punição eclesial normal para sacerdotes que
abusam de crianças é expulsão (excomunhão) do sacerdócio». Por outras palavras,
o pior que pode acontecer a McCarrick é ser excomungado, ou seja, ter de deixar
o pedestal clerical. Sendo claros, por suas muitas e variadas acusações de
transgressão, o pior que pode acontecer é ele passar a ser como a maioria de
nós, devendo viver de forma decente sem o status clerical. Ele será de novo o
que era quando foi batizado: leigo.
Ouso dizer que há destinos piores e punições mais severas.
Claro que para os sacerdotes excomungados há outras
consequências, principalmente de questões económicas e reputação. Mas as raízes
de todos estão na mesma estrutura.
A linguagem usada pela Congregação para a Doutrina da Fé não
é ao acaso na redação das normas para "redução ao estado laical com
dispensa de todas as obrigações decorrentes da sagrada Ordem (e da Profissão
religiosa), inclusive do peso de guardar a lei do sagrado celibato". É
para isso que serve. Tenho certeza de que é assim que seria recebido por
pessoas como McCarrick, cujas décadas de acesso irrestrito às crianças,
presunção de virtude pessoal sem provas e incontáveis oportunidades de se
envolver em discurso religioso, político e social os condiciona a sentidos
irrealistas de si mesmos.
Mas quando tudo isso acabar, em círculos religiosos, grande
parte dos crimes hediondos e dos terríveis atos de má fé dos sacerdotes farão
com que voltem ao status de leigos, com o qual o resto das pessoas vive a vida
inteira. Algo está muito errado neste panorama.
Não é a minha intenção acusar e condenar Theodore McCarrick
(agora cuidadosamente chamado "arcebispo" em vez de
"cardeal" pelos colegas eclesiásticos, um lembrete sutil de que
perdeu apenas o título a que renunciou, não o seu privilégio eclesiástico, como
o direito a vale-refeição). Pelo contrário, quero indiciar todo o sistema
eclesiástico que cria as condições para tal desigualdade. O sistema é injusto
para todos, embora de forma diferente dependendo da posição, incluindo até
mesmo McCarrick na velhice.
A boa notícia é que não começamos do zero a construir o
catolicismo pós-moderno. Muitos grupos — de base e/ou comunidades eucarísticas,
grupos religiosos de mulheres, capítulos do Dignity, entre outros — têm
experimentado novas formas de ser Igreja há décadas. A teologia sacramental e a
eclesiologia necessárias para desmantelar o sistema hierárquico e substituí-lo
por estruturas igualitárias, globalmente conectadas e com bases funcionais de
acordo com o Evangelho já consta na literatura.
Esses novos modelos suprem as necessidades dos católicos da
atualidade e, se houver algum, dos católicos do futuro. Seria um legado digno
dos melhores momentos de McCarrick como ser humano sem apagar seus pecados como
clérigo. E poderemos verdadeiramente receber a todos cantando "All Are
Welcome".

Comentários
Enviar um comentário