Não se trata de ver isto como remédio contra a pedofilia, mas
como uma escolha para garantir sacerdotes apaixonados pela sua vocação em tempo
integral com outros casados em apoio do ministério e da própria família. Um
livro deixa entender que, talvez, tenha chegado à hora certa para uma decisão
do papa esperada por todos. O problema será abordado em 2019 no Sínodo sobre a
Amazónia
Carlo Di Cicco, em Tiscali
Poderia ser Francisco o papa a desatar o intrigado nó do
celibato obrigatório para os padres na Igreja Católica do rito latino. Essa é,
de facto, uma grande questão que vem atravessando toda a história da Igreja,
especialmente a partir do século IV e a atitude escolhida em relação ao
celibato dos padres amadureceu ou entrou em crise, segundo que a Igreja vivesse
com mais força o valor da espiritualidade ou se adequasse ao modo de vida
mundano.
A questão do celibato obrigatório para os sacerdotes na
Igreja adquiriu novo vigor neste momento em que a opinião pública mundial está
chocada pela revelação dos muitos casos de pedofilia do clero que, embora em
percentual mínimo em relação ao conjunto dos sacerdotes, está a causar dor e
desorientação entre os fiéis leigos. Pedofilia e celibato não têm nada em comum
e um não é causa da outra, mas como ambos tocam a sexualidade e o seu
exercício, no sentido comum das pessoas são confusamente associados,
multiplicando o escândalo.
O celibato para os padres decidido pela Igreja
Desde a Segunda Guerra Mundial, a questão do celibato
obrigatório como condição para se tornar padres na Igreja Católica Latina, a
mais difundida no mundo e especialmente no Ocidente, começou a ser criticada,
discutida, revista em círculos cada vez mais amplos. E um número crescente de
vozes a partir de baixo e da própria hierarquia se pronunciaram em favor de uma
revisão da lei que prevê a possibilidade de ser padre tanto a solteiros como a
casados. Depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), as vozes favoráveis a uma
mudança aumentaram continuamente. Ao ponto de sugerir que poderia ser Francisco
o papa que, com prudência e visão do conjunto, poderia iniciar uma
experimentação prática nessa direção. Imagina-se que a ocasião para uma
abertura como essa poderia surgir no outono de 2019, no Sínodo sobre a Amazónia,
uma região imensa onde a escassez de padres e as dimensões gigantescas e
complicadas em que estão dispersas as comunidades cristãs, torna difícil, quase
impossível as suas celebrações religiosas, às quais eles também têm direito
incontestável.
O problema dos padres destituídos
Uma das fontes à disposição de Francisco para tomar com toda
a seriedade uma decisão desse tipo revelou-se um belo livro sobre a questão do
celibato na igreja publicado recentemente. Foi escrito pelo jornalista Enzo
Romeo, um especialista em Vaticano que estuda, se atualiza e verifica a
confiabilidade de suas fontes. O resultado foi um livro interessante e
confiável introduzido por uma minuciosa panorâmica do problema da destituição
dos padres, assinada por Gianni Gennari, teólogo conhecido e padre romano, que
teve que deixar o ministério depois de se apaixonar por uma mulher com quem se
casou quando chegou a dispensa do celibato.
O livro de Romeo, confiável e excelente síntese sobre toda a
questão do celibato, é resumida no título Lui,
Dio e Lei («Ele, Deus e Ela», 254 páginas), publicado pela Rubettino. Uma
mina de informações, notícias, depoimentos, detalhes, citações estendidas em
forma de narrativa que contam a evolução histórica de uma questão cada vez mais
importante para compreender o cerne do problema do Evangelho. Não que o
celibato seja o coração do Evangelho, que continua a ser, é claro, o amor de
Deus pelos homens, manifestado em Jesus e a missão de anunciar a misericórdia
de Deus, que quer que todos os homens sejam salvos e conhecedores da verdade.
Amor, sexo e sacerdócio
Mas o celibato é uma perspetiva importante para pensar a fé
e, portanto, a compreensão que foi se acumulando nos séculos de celibato levou
a considerá-lo uma questão de amor. Enquanto nos séculos passados tratava-se de
esclarecer a relação entre os eclesiásticos com as mulheres, após o Concílio
Vaticano II tornou-se insistente, até mesmo no magistério da Igreja, enfrentar
o problema do celibato como um problema de amor, ao invés de sexualidade. De facto,
o amor representa a capacidade e a disponibilidade da pessoa de doar-se
totalmente, enquanto a sexualidade pode ser vivida mesmo em uma condição de
grande egoísmo que reduz as outras pessoas a instrumentos do próprio prazer.
A obra de Romeo é valiosa pela simplicidade e clareza e
coloca em foco essa grande verdade, levando, sem intenções apologéticas
tendenciosas, a concluir que resolver a questão do celibato obrigatório não é
uma concessão para a mundanidade, mas a demanda por uma responsabilidade e
coerência mais radical com as escolhas da vocação de cada um. As citações do
livro sobre o ensinamento dos papas do pós-concílio não por acaso colocam em
paralelo a vida matrimonial e a vida missionária dos sacerdotes: nem uma nem a
outra têm uma solução humana e não trazem felicidade para a pessoa se não forem
vividas por amor. Para ambas as escolhas é preciso estar preparados, não é
possível improvisar.
Por que impor uma regra nunca escrita na Bíblia
O sacerdócio, em particular, não tem o celibato como um
elemento constitutivo, no sentido de que o ministério também pode ser exercido
por padres casados. Não há uma ordem divina para ser padres celibatários, mas
existe uma disposição vinculante da Igreja, plenamente legítima e racional pela
qual aos padres se pede a fidelidade ao celibato, que garante alta qualidade no
desempenho da missão. Por esse motivo, o celibato será frutífero e um real
distintivo somente se livremente escolhido e não imposto como lei obrigatória
para aqueles que queiram responder à sua vocação ao sacerdócio.
Qualquer um que
queira atualmente se tornar padre sabe que terá que respeitar o celibato. Mas
se uma vez padre as circunstâncias da vida o levassem a quebrar esse
compromisso, todos os padres sabem que a penalidade é a renúncia obrigatória ao
ministério. Portanto, se pensa sobre a possibilidade de tornar a escolha do
celibato opcional, prevendo padres celibatários e padres casados com um
regulamento prático ainda totalmente a ser elaborado.
O que o papa pensava antes de se tornar sacerdote
E o que Francisco tem a ver com tudo isso? O livro de Romeo
esclarece bastante o que Francisco pensava antes de se tornar padre, antes de
se tornar bispo, antes de se tornar papa e, consequentemente, o que pensa agora
que é papa. "No verão de 2015, o pastor pentecostal argentino Norberto
Saracco, amigo de velha data de Bergoglio – como pode ser lido, entre outros
exemplos, na página 63 - relata ao "National Geographic" uma longa
conversa confidencial que teve com Francisco em Santa Marta dois meses após a sua
eleição. Naquela ocasião, o papa teria dito que entre as mudanças que mais lhe
interessavam introduzir havia a abolição do vínculo do celibato para os
padres".
Devemos acreditar? Talvez sim, talvez não, mas certamente
está de acordo com a coerência com que Francisco está a pedir a cada cristão
que viva o seu livre testemunho do Evangelho. A sua revolução e reforma
da Igreja baseiam-se na conversão espiritual, a única que pode garantir o
sucesso da reforma das estruturas e das leis.
Só aparentemente a abolição da
obrigação do celibato para os padres e a introdução de livre escolha da opção
celibatária ou como casados pode ser considerada menos exigente. Na realidade,
operar em liberdade é a forma mais exigente possível de assumir para si a
responsabilidade e coerência na vida.

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