«Existe, por parte das famílias e da sociedade, um incentivo para que os jovens sejam padres?»

A propósito da Semana dos Seminários 2018, o padre José Alfredo Ferreira da Costa, reitor do Seminário Maior do Porto e secretário da Comissão Episcopal para as Vocações e Ministérios, concedeu uma entrevista ao Jornal de Notícias que aqui divulgamos.

Ler tudo sobre a Semana dos Seminários(11 a 18 de novembro):

Os jovens estão a voltar aos seminários ou as vocações são mais tardias?
A sociologia diz-nos que, hoje em dia, o conceito de jovem é muito alargado. No ambiente da Igreja fala-se do jovem de hoje como a primeira geração incrédula (Armando Matteo), conceito cujo sentido precisa de ser aprofundado. Sim, há pessoas que atiram para mais tarde na idade a opção por entrar no Seminário, mas a questão do discernimento em ordem à vida religiosa sempre esteve lá presente.

Existe, por parte das famílias e da sociedade, um ‘incentivo’ para que os jovens sejam padres?
Social, familiar e culturalmente falando não é prestigiante a opção pela vida presbiteral. Há um desgaste latente neste estilo de vida e que tem várias origens (evolução do próprio ministério, dificuldades e feridas que a sua vivência acarreta, processo da secularização e mundanização). Todavia sente-se, na maioria das comunidades cristã, a “ausência” do sacerdote, que nos indica a absoluta necessidade da sua presença, discreta e como serviço livre e desinteressado a todos e particularmente aos mais carentes.

Quem vai para o seminário já sabe o que quer fazer na vida?
O mistério de Deus e o mistério da Igreja provam que sempre haverá quem se sinta “chamado”, vocacionado à vida religiosa. Acontece, no contexto das comunidades cristãs, o que acontece na sociedade em geral: muitos jovens fazem um curso académico e depois não encontram colocação na sua área e vêem-se obrigados a fazer outra coisa. 

A vida é uma realidade dinâmica e a vocação é um “investimento” que depois terá uma circunstância de realização muito própria na geografia de uma diocese ou até na geografia da Igreja universal. Procuramos, na formação, abrir horizontes e cultivar um “livre sentido da responsabilidade” (Dietrich Bonhoeffer), para que um dia cada um possa aceitar e assumir uma missão concreta, ainda que nunca tenha sido pensada ou desejada subjetivamente.

Ser pároco (de 3, 4, ou 5 paróquias) é um desafio?
É um desafio e uma tarefa. As nossas paróquias mudaram muito, por força da mobilidade contemporânea. Há que definir o que é uma paróquia. Se uma realidade com fronteiras ou se um “lugar” de acolhimento. 

As nossas paróquias tradicionais e do interior têm cada vez menos pessoas residentes, mas que com as quais ainda se mantêm laços. Ao passo que surgiram grandes paróquias nos meios suburbanos e que têm uma marca muito despersonalizante. O pároco e os seus mais diretos colaboradores têm de perceber isso e acolher sempre. 

Claro que a paróquia não pode ser uma «estação de serviços rápidos, quer sejam espirituais ou religiosos «. É preciso dinamizar laços e compromissos. A paróquia é um lugar de identificação com uma comunidade que vive à luz do mistério do Reino que Jesus proclamou.

Qual é a principal mudança que vê nos jovens que entram agora no seminário em relação aos de há dez anos?
Eu avaliaria os últimos vinte. Foi publicado em 1998 um documento sobre a pastoral das vocações: Novas vocações para uma nova Europa. Era comum os entusiasmos pelo atravessar do milénio. Também em termos eclesiais isso trouxe algum messianismo… que depois não se verificou. Um mundo melhor apareceria quase espontaneamente! Há muitas realidades novas e, efetivamente, a exigências de novas vocações. O 

Papa Francisco tem dito que quer padres com espírito missionário, também entre nós, na velha e cristã Europa. A grande dificuldade e a urgente mudança é a conversão ao evangelho como norma de vida, no que ele significa de universalidade e de amor. Os jovens aceitam propostas com valores altos, mas também se contentam com o mínimo. O equilíbrio está precisamente na conversão de vida.

Entrevista citada por Voz Portucalense

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