A vida é um dom! «Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8) é o tema da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Doente
Este ano a solene celebração o Dia Mundial do Doente – 11 de
fevereiro, Festa de Nossa Senhora de Lourdes – decorrerá em Calcutá, na Índia.
Na sua mensagem (ler abaixo), o Papa Francisco declara: «Quero lembrar, com alegria e
admiração, a figura da Santa Madre Teresa de Calcutá, um modelo de caridade que
tornou visível o amor de Deus pelos pobres e pelos doentes. [...] A Santa Madre
Teresa ajuda-nos a compreender que o único critério de ação deve ser o amor
gratuito para com todos, sem distinção de língua, cultura, etnia ou religião. O
seu exemplo continua a guiar-nos na abertura de horizontes de alegria e esperança
para a humanidade necessitada de compreensão e ternura, especialmente para as
pessoas que sofrem.»
E, logo a seguir, afirma: «A gratuidade humana é o fermento
da acção dos voluntários, que têm tanta importância, quer no sector social,
quer no da saúde, e que vivem de modo eloquente a espiritualidade do Bom
Samaritano.»
Para nós, discípulos de Jesus, recordar o conteúdo da
parábola do Bom Samaritano é recordar o facto de que o próprio Jesus foi e é
essa figura de proximidade. É afinal ele quem diz (ao doutor da lei e a cada um
de nós): «Vai e faz o mesmo tu também» (Lc 10,37b). Este convite a tornarmo-nos
criadores de proximidade é um chamamento a assumirmos os mesmos critérios e os
modos de relação reconhecidos em Jesus. Afinal, viver com Jesus e como Jesus
sobre a terra.
A vida é dom de Deus e é chamada, em Deus, a fazer-se dom
para a vida do outro. Chamada a fazer-se dom, a vida pessoal torna-se mediação
do próprio dom de Deus, no que torna possível a vida humana do outro.
O título da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do
Doente deste ano é “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10,8).
Viver a vida como um dom corresponde a não queremos
guardá-la para nós próprios.
Viver a vida como vida dada. Entregue. Uma vida que faz
viver.
Não nos serão pedidos, a cada um de nós, gestos heróicos...
Mas, se em cada dia nos soubermos aproximar dos mais vulneráveis com “o óleo da
consolação e o vinho da esperança” (como rezamos num dos prefácios do Tempo
Comum), então já estamos a seguir o Senhor. A viver com Ele e como Ele.
Sabemos, por exemplo, o que é dar tempo. E vivemos num tempo
em que ninguém tem tempo...
Ou o que é dar um sorriso.
Podemos, ao aproximar-nos de um doente, dar ânimo. Ou dar
força. Dar coragem. Dar a mão.
Podemos dar-nos.
Viver a vida como um dom.
Padre J. M. Pereira de Almeida*, em Além-Mar
*coordenador nacional da
Pastoral da Saúde
Mensagem do Papa Francisco para o XXVII Dia Mundial do Doente (11 de fevereiro de 2019)
«Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8)
Queridos irmãos e irmãs!
«Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8): estas são
palavras pronunciadas por Jesus, quando enviou os apóstolos a espalhar o
Evangelho, para que, através de gestos de amor gratuito, se propagasse o seu
Reino.
Por ocasião do XXVII Dia Mundial do Doente, que será
celebrado de modo solene em Calcutá, na Índia, a 11 de fevereiro de 2019, a
Igreja – Mãe de todos os seus filhos, mas com uma solicitude especial pelos
doentes – lembra que o caminho mais credível de evangelização são gestos de dom
gratuito como os do Bom Samaritano. O cuidado dos doentes precisa de
profissionalismo e ternura, de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma
carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é «querido».
A vida é dom de Deus, pois – como adverte São Paulo – «que
tens tu que não tenhas recebido?» (1 Cor 4, 7). E, precisamente porque é dom, a
existência não pode ser considerada como mera possessão ou propriedade privada,
sobretudo à vista das conquistas da medicina e da biotecnologia, que poderiam
induzir o homem a ceder à tentação de manipular a «árvore da vida» (cf. Gn 3,
24).
Contra a cultura do descarte e da indiferença, cumpre-me
afirmar que se há de colocar o dom como paradigma capaz de desafiar o
individualismo e a fragmentação social dos nossos dias, para promover novos
vínculos e várias formas de cooperação humana entre povos e culturas. Como
pressuposto do dom, temos o diálogo, que abre espaços relacionais de
crescimento e progresso humano capazes de romper os esquemas consolidados de
exercício do poder na sociedade. O dar não se identifica com o ato de oferecer
um presente, porque só se pode dizer tal se for um dar-se a si mesmo: não se
pode reduzir a mera transferência duma propriedade ou dalgum objeto.
Distingue-se de presentear, precisamente porque inclui o dom de si mesmo e
supõe o desejo de estabelecer um vínculo. Assim, antes de mais nada, o dom é um
reconhecimento recíproco, que constitui o caráter indispensável do vínculo
social. No dom, há o reflexo do amor de Deus, que culmina na encarnação do
Filho Jesus e na efusão do Espírito Santo.
Todo o homem é pobre, necessitado e indigente. Quando
nascemos, para viver tivemos necessidade dos cuidados dos nossos pais; de forma
semelhante, em cada fase e etapa da vida, cada um de nós nunca conseguirá, de
todo, ver-se livre da necessidade e da ajuda alheia, nunca conseguirá arrancar
de si mesmo o limite da impotência face a alguém ou a alguma coisa. Também esta
é uma condição que carateriza o nosso ser de «criaturas». O reconhecimento leal
desta verdade convida-nos a permanecer humildes e a praticar com coragem a
solidariedade, como virtude indispensável à existência.
Esta consciência impele-nos a uma práxis responsável e
responsabilizadora, tendo em vista um bem que é indivisivelmente pessoal e
comum. Apenas quando o homem se concebe, não como um mundo fechado em si mesmo,
mas como alguém que, por sua natureza, está ligado a todos os outros,
originariamente sentidos como «irmãos», é possível uma práxis social solidária,
orientada para o bem comum. Não devemos ter medo de nos reconhecermos necessitados
e incapazes de nos darmos tudo aquilo de que teríamos necessidade, porque não
conseguimos, sozinhos e apenas com as nossas forças, vencer todos os limites.
Não temamos este reconhecimento, porque o próprio Deus, em Jesus, Se rebaixou
(cf. Flp 2, 8), e rebaixa, até nós e até às nossas pobrezas para nos ajudar e
dar aqueles bens que, sozinhos, nunca poderíamos ter.
Aproveitando a circunstância desta celebração solene na
Índia, quero lembrar, com alegria e admiração, a figura da Santa Madre Teresa
de Calcutá, um modelo de caridade que tornou visível o amor de Deus pelos
pobres e os doentes. Como dizia na sua canonização, «Madre Teresa, ao longo de
toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina,
fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida
humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. (...) Inclinou-se
sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada,
reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos
da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes (…) da pobreza
criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a
todas as suas obras, e a “luz” que iluminava a escuridão de todos aqueles que
nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento.A sua
missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos
nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais
pobres entre os pobres» (Homilia, 4/IX/2016).
A Santa Madre Teresa ajuda-nos a compreender que o único
critério de ação deve ser o amor gratuito para com todos, sem distinção de
língua, cultura, etnia ou religião. O seu exemplo continua a guiar-nos na
abertura de horizontes de alegria e esperança para a humanidade necessitada de
compreensão e ternura, especialmente para as pessoas que sofrem.
A gratuidade humana é o fermento da ação dos voluntários,
que têm tanta importância no setor socio-sanitário e que vivem de modo
eloquente a espiritualidade do Bom Samaritano. Agradeço e encorajo todas as
associações de voluntariado que se ocupam do transporte e assistência dos
doentes, aquelas que providenciam nas doações de sangue, tecidos e órgãos. Um
campo especial onde a vossa presença expressa a solicitude da Igreja é o da
tutela dos direitos dos doentes, sobretudo de quantos se veem afetados por
patologias que exigem cuidados especiais, sem esquecer o campo da
sensibilização e da prevenção. Revestem-se de importância fundamental os vossos
serviços de voluntariado nas estruturas sanitárias e no domicílio, que vão da
assistência sanitária ao apoio espiritual. Deles beneficiam tantas pessoas
doentes, sós, idosas, com fragilidades psíquicas e motoras. Exorto-vos a
continuar a ser sinal da presença da Igreja no mundo secularizado. O voluntário
é um amigo desinteressado, a quem se pode confidenciar pensamentos e emoções;
através da escuta, ele cria as condições para que o doente deixe de ser objeto
passivo de cuidados para se tornar sujeito ativo e protagonista duma relação de
reciprocidade, capaz de recuperar a esperança, mais disposto a aceitar as
terapias. O voluntariado comunica valores, comportamentos e estilos de vida
que, no centro, têm o fermento da doação. Deste modo realiza-se também a humanização
dos tratamentos.
A dimensão da gratuidade deveria animar sobretudo as
estruturas sanitárias católicas, porque é a lógica evangélica que qualifica a
sua ação, quer nas zonas mais desenvolvidas quer nas mais carentes do mundo. As
estruturas católicas são chamadas a expressar o sentido do dom, da gratuidade e
da solidariedade, como resposta à lógica do lucro a todo o custo, do dar para
receber, da exploração que não respeita as pessoas.
Exorto-vos a todos, nos vários níveis, a promover a cultura
da gratuidade e do dom, indispensável para superar a cultura do lucro e do
descarte. As instituições sanitárias católicas não deveriam cair no estilo
empresarial, mas salvaguardar mais o cuidado da pessoa que o lucro. Sabemos que
a saúde é relacional, depende da interação com os outros e precisa de
confiança, amizade e solidariedade; é um bem que só se pode gozar «plenamente»,
se for partilhado. A alegria do dom gratuito é o indicador de saúde do cristão.
A todos vos confio a Maria, Salus infirmorum. Que Ela nos
ajude a partilhar os dons recebidos com o espírito do diálogo e mútuo
acolhimento, a viver como irmãos e irmãs cada um atento às necessidades dos
outros, a saber dar com coração generoso, a aprender a alegria do serviço
desinteressado. Com afeto, asseguro a todos a minha proximidade na oração e
envio-vos de coração a Bênção Apostólica.

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