Episcopado, presbiterado e laicado: como renovar o sacerdócio e o ministério? Artigo de Massimo Faggioli
Muitos símbolos do catolicismo mudaram, recuaram ou até
desapareceram, para serem substituídos por outros. Mas não o padre católico. A
presença da Igreja na educação, na cultura e no trabalho social pode não ser
tão visível como antes, mas o papel do padre permanece evidente. Quando a
maioria das pessoas pensa no catolicismo, elas ainda pensam num homem de colarinho
romano.
Um seminário promovido pelo Boston College, que ocorreu
entre setembro de 2016 e meados de 2018, produziu um interessante documento
sobre o sacerdócio e o ministério, com um notável conjunto de propostas sobre a
formação dos futuros sacerdotes.
O documento, publicado na última edição de 2018 da revista
Origins, intitula-se To Serve the People of God: Renewing the
Conversation on Priesthood and Ministry [Servir o povo de Deus: renovando
a conversa sobre sacerdócio e ministério, aqui: https://www.bc.edu/content/dam/bc1/schools/stm/continuing%20education/encore/pdf/To%20Serve%20the%20People%20of%20God.pdf].
O grupo que o produz inclui homens e mulheres, católicos leigos e ordenados,
estudiosos e agentes de pastoral. Ele foi presidido por Richard Gaillardetz, do
Departamento de Teologia do Boston College, e Thomas Groome e Richard Lennan,
da Escola de Teologia e Ministério do Boston College.
A introdução do documento de 9000 palavras deixa claro que o
foco está na formação dos padres diocesanos, não dos membros de ordens
religiosas ou de novos movimentos eclesiais, como o Caminho Neocatecumenal. O
foco também está nos Estados Unidos: os autores reconhecem que algumas de suas
propostas podem não ser aplicáveis a outros países.
A primeira parte do documento, “Ministério na vida da
Igreja”, aborda os fundamentos eclesiológicos do ministério na vida da Igreja –
a sacramentalidade da Igreja e a natureza eclesial de todos os seus
ministérios.
A segunda parte é dedicada a “Um perfil do padre
bem-formado”, apresentando o padre em todos os seus aspetos: como pregador,
como líder do culto e da oração, como líder colaborativo, como representante
público da Igreja e como praticante da caridade pastoral.
A terceira parte, “Moldando o futuro”, trata do recrutamento
e da formação dos padres. É a parte mais interessante, porque desenvolve
propostas concretas. Ao abordar o futuro dos seminários diocesanos, o documento
afirma que “a estrutura fechada do seminário, muitas vezes isolada do mundo qotidiano
das famílias (...) pode isolar os seminaristas”.
Ecoando o que o Papa Francisco tem dito muitas vezes, o
documento encoraja as dioceses a resistirem à “pressão de aumentar os números
aceitando seminaristas indiscriminadamente”. Também adverte os formadores sobre
os perigos de “formas de piedade que tendem a uma perfeição ‘desencarnada’ ou
negligenciam o envolvimento com o mundo”.
Isso os encoraja a abordar a necessidade de que os futuros
padres tenham “a capacidade de relação com uma grande variedade de mulheres e
homens”. Uma boa formação clerical deve apoiar a maturidade afetiva e o
desenvolvimento psicossexual, e “deve promover diretamente alternativas ao ‘manto
de silêncio do celibato”.
O documento também recomenda que a formação não seja uma
responsabilidade apenas dos ordenados, e que os seminaristas sejam treinados
junto daqueles que estão se preparando para outros ministérios eclesiais.
A parte final de “Moldando o futuro” aborda as questões da
formação permanente, do novo ambiente do ministério (nada bom para “lobos
solitários”), e a necessidade de estar aberto a desenvolvimentos futuros na
disciplina do ministério: “O ministério ordenado da Igreja tem uma história
precisamente porque mudou ao longo do tempo. Esse fato sugere que mais mudanças
podem ser esperadas enquanto o futuro se desenrola”.
Em geral, o documento do Boston College tem duas ênfases
principais. A primeira é a necessidade de ver o ministério como uma obra
colaborativa entre padres e outros ministros, não apenas pelos óbvios problemas
causados pela falta de padres, mas também por razões teológicas: os autores
enfatizam a natureza eclesial de todos os ministérios. A distinção entre os ministérios
ordenado e não ordenado não deveria ser mal entendida como a distinção entre o
profissional e o amador.
A segunda ênfase está na necessidade de repensar as nossas
abordagens à formação, para ir além do seminário monolítico – uma inovação do
Concílio de Trento que persistiu sem muitos ajustes por mais de 400 anos.
É difícil repensar a formação sacerdotal hoje sem levar em
consideração as recentes controvérsias na “teologia do laicado”. Hoje, pode-se
encontrar tanto clericalismo entre alguns leigos pós-Iluminismo e pré-Vaticano
II quanto entre os próprios clérigos. A teologia do laicado do documento do
Boston College está principalmente implícita. Ela parece pressupor que o
ministério leigo trabalha em colaboração com o ministério ordenado, não como um
substituto dele. Mas também implica que agora há um laicado católico maduro e
instruído que não está mais disposto a ser considerado como naturalmente
inferior ao clero.
Esse documento do Boston College também reflete a atmosfera
da divisão intraeclesial em que agora ocorrem os debates sobre o sacerdócio.
Quando os autores escrevem na introdução que “não existe um consensus fidelium” em relação à
ordenação de mulheres ou de homens casados, eles estão meramente a dizer a
verdade. Pode levar muito tempo para que tal consenso surja.
É claro, houve uma longa tradição de padres casados nos
primeiros séculos da Igreja (como ainda existe nas Igrejas Católicas
orientais), mas quantos católicos comuns sabem disso hoje?
“Servir ao povo de Deus” insiste na necessidade de os
católicos falarem de uma transformação que já está em andamento. Nas últimas
décadas, houve uma redistribuição dos papéis de liderança envolvendo o
diaconado permanente restaurado pelo Vaticano II, novos ministérios leigos
masculinos e femininos, e os novos “movimentos eclesiais”, nos quais a
distinção entre membros leigos e ordenados é muito menos relevante.
Mas essa redistribuição de poder está ocorrendo na ausência
de um real desenvolvimento magisterial de ensino sobre o ministério na Igreja.
Uma pluralidade de ministérios e figuras ministeriais se desenvolveu em grande
parte extra legem – isto é, sem uma
regulação teológica e jurídica abrangente.
Para seu crédito, Roma não quis limitar a ação do Espírito,
por isso deixou muito espaço para a experiência. Mas muitos desses novos
ministérios surgiram como resultado da emergência da falta de clero. Note-se
que isso só foi possível quando as Igrejas locais dispunham de recursos
financeiros para contratar pessoal leigo (masculino e feminino) para cargos de
cuidado pastoral anteriormente confiados exclusivamente ao clero. Igrejas
pobres simplesmente não podem se dar ao luxo de fazer isso – ou pelo menos não
do mesmo modo.
Em uma escala maior, os bispos em partes ricas do mundo, sem
um número suficiente de padres locais, agora importam clérigos de países pobres
que parecem ter um superávit, pelo menos em comparação connosco [nos Estados
Unidos]. Os resultados podem variar, mas, mesmo quando funciona bem, isso
levanta questões morais sobre a relação entre a Igreja nos países ricos do
Ocidente e a Igreja no mundo em desenvolvimento. Pode parecer apenas uma outra
forma de extração de recursos.
A história da Igreja pode ser vista como uma história de
reformas do clero: a imposição do celibato clerical na Igreja Católica Romana
foi uma luta de séculos; levou décadas para construir e formar seminários
diocesanos depois de Trento.
Nós não temos razão para duvidar de que uma nova reforma da
formação clerical levará muitos anos para ser implementada. O que torna ainda
mais importante começarmos agora. Tanto o escândalo do abuso clerical quanto a
falta de padres no Ocidente exigem que a Igreja pós-Vaticano II aborde uma
questão que o Vaticano II nunca focou: a seleção e a formação dos padres.
O Vaticano II elevou o episcopado (pelo menos na teoria) à
colegialidade com o papa e chamou o laicado à santidade e a um papel muito mais
ativo tanto na Igreja quanto no mundo. Mas o baixo clero ficou preso no meio
como uma espécie de reflexão tardia (vale a pena lembrar que foi apenas na
terceira sessão do Concílio, em 1964, que 50 párocos foram convidados a
participar – e então apenas como “auditores”. Eles eram muito menos visíveis do
que os observadores ecuménicos e até mesmo do que os leigos convidados).
O documento do Boston College é um lembrete valioso da
necessidade urgente da Igreja de reexaminar a forma como ela prepara os seus ministros.
Como o ministério é em si colaborativo, esse reexame do futuro do ministério
também deve ser colaborativo, envolvendo representantes do baixo clero e do
laicado, assim como dos bispos. Um sínodo – por definição, um tipo de
colaboração – seria a maneira ideal para lidar com essa questão importante e
negligenciada.
Massimo Faggioli*, em Commonweal Magazine
*historiador da Igreja, professor de Teologia e Estudos Religiosos
Foto: AsiaNews
Foto: AsiaNews

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