Anselmo Borges, padre e professor de filosofia da
Universidade de Coimbra, não espera grandes anúncios do encontro entre o Papa e
os presidentes das conferências episcopais do mundo inteiro, mas diz acalentar
a esperança de ver os candidatos a padres sujeitos a um escrutínio psicológico
e formados fora dos seminários. A ordenação de mulheres e de homens casados e o
fim do celibato obrigatório – defende ainda – são imprescindíveis.
Criaram-se muitas
expectativas relativamente a este encontro, num contexto em que a Igreja está
fragilizada. O que poderá, na sua opinião, sair deste encontro?
Não vai sair nada de estrondoso para a opinião pública,
porque, fundamentalmente, o objectivo do Papa Francisco com esta convocação é
forçar uma tomada de consciência desta chaga na Igreja que não se imaginava
fosse uma chaga tão extensa e vergonhosa. Eu não conheço condenação mais
contundente e mais funda da pedofilia e do abuso de crianças do que a
condenação de Jesus no Evangelho: “Deixai vir a mim as criancinhas”. Mas
imediatamente a seguir, Jesus disse: “Ai de quem escandalizar uma criança. Era
preferível atar-lhe a mó de um moinho ao pescoço e lançá-lo ao fundo do mar”. É
uma condenação terrível. E aconteceu este número ainda por determinar de casos
de abusos e com este requinte brutal que é, aliás, um requinte com duas faces:
abusava-se das crianças e depois (há relatórios disso) dizia-se-lhes que não
dissessem a ninguém porque isso era pecado. Isso é abusar da consciência. É
verdadeiramente inqualificável. Por outro lado, os bispos que tinham obrigação
de atender às vítimas atenderam muito mais à salvaguarda da instituição, e por
isso mesmo encobriram os abusos e os seus autores. Sei que o número de
pedófilos é maior e muito mais extenso nas famílias, mas isso não me
tranquiliza em relação à Igreja, porque as pessoas confiavam na Igreja e houve
aqui uma traição a essa confiança. E neste momento a Igreja está profundamente
fragilizada e descredibilizada. Portanto, este encontro é para que a Igreja
toda, e também os fiéis, tomem consciência desta chaga, desta verdadeira
tragédia. Em relação às medidas a tomar e à condenação canónica, o Código de
Direito Canónico já foi renovado neste sentido da pedofilia. E, tratando-se ao
mesmo tempo de um pecado e de um crime, é preciso colaborar com a justiça
civil. Agora, evidentemente, também é preciso dar garantias reais de defesa
àqueles que são acusados.
O Papa já pediu
reiteradamente perdão por estes abusos. Acha que ele terá condições para ser
mais efectivo no sancionamento destes comportamentos?
Ainda hoje uma alta figura política me dizia ‘Este Papa é um
milagre’. Francisco acaba de reduzir ao estado laical o ex-cardeal Theodore
McCarrick, dando assim um sinal claro de que a tolerância zero para a pedofilia
por parte do clero é a sério. Ele faz o que pode. E vai haver testemunhos,
aliás, esta cimeira vai começar ouvindo testemunhos das vítimas. E quem as ouve
percebe que aquilo é horrível, impressionante. Portanto, aqueles presidentes
das conferências episcopais e, através deles, aqueles bispos que ainda não
tomaram consciência desta tragédia, despertarão. E isso é uma grande vantagem.
Aliás, este encontro global anti-abusos centrar-se-á, segundo um dos
responsáveis, o cardeal Blase J. Cupich, arcebispo de Chicago, na
"responsabilidade, prestação de contas e transparência", para
"enfrentar o monstro" da pedofilia clerical.
Um dos méritos deste
encontro é o Papa obrigar os bispos a confrontarem-se com a gravidade destes
abusos?
Precisamente. Porque, se as pessoas tivessem tomado
verdadeiramente consciência, não tinham feito o encobrimento dos casos. Repare:
entre as crianças abusadas e a instituição, preferiram defender a instituição.
Isso é próprio de gente que tem pouca consciência da gravidade da situação. E
julgo que, ao tomarem consciência da gravidade, também tomarão consciência
daquilo que é preciso fazer em ordem às vítimas: apoiá-las psicologicamente,
terapeuticamente, espiritualmente, e, eventualmente, também materialmente.
Neste contexto, que
comentário lhe merece a postura da Conferência Episcopal Portuguesa?
Acho que também os bispos portugueses, devido à pressão da
opinião pública e a esta posição de “tolerância zero” do Papa, estão neste
momento abertos a receber as vítimas que denunciem.
O Observador, num trabalho sobre o
vice-reitor do seminário do Fundão, condenado em 2013 a dez anos de prisão por
abusar de menores, recordava os testemunhos dos pais das vítimas. E estes
acusavam o facto de não só não terem tido apoio por parte da Igreja como, ao
contrário, os fizeram a Igreja os fez sentirem-se culpados pelo facto de terem
exposto o caso.
Acabei de lhe dizer que não havia consciência suficiente por
parte da hierarquia da Igreja. E que, através deste encontro, espera-se que
haja essa tomada de consciência da gravidade da situação. E há ainda uma outra
coisa que julgo extremamente positiva que pode derivar desta cimeira: é preciso
estar atento aos candidatos a padres, concretamente num tempo em que a oferta e
a procura são muito desequilibradas. Isto de ser padre é uma responsabilidade
gigantesca, um padre lida com a vida das pessoas e, no limite, até com a
intimidade das pessoas, na confissão.
Está a falar da
necessidade de haver escrutínio psicológico entre os candidatos a padres?
Os candidatos a padres deviam ser sujeitos a um escrutínio
psicológico através de peritos qualificados de saúde mental. É muito
importante, isso. Acho que a tomada de consciência de que estamos a falar
deveria levar a isso. E a formação dos candidatos a padre tem de ser outra, com
a presença de mulheres também. Tem de ser em espaço aberto, por exemplo, em
paróquias; indo às aulas e à universidade, mas vivendo em paróquias.
Acabando-se com os
seminários?
Um seminário seria um lugar onde se reuniam para alguma
formação mais direccionada, comunitária, se quiser. O tipo de seminário que nós
temos que é o seminário tridentino prestou o seu serviço mas hoje julgo que
deve ser repensado.
O porta-voz da CEP
referiu-se à dezena de casos de abusos cometidos em Portugal considerando que
são poucos e que, como tal e dadas as directrizes aprovadas de 2012, não se
impõe que se faça um levantamento nacional. Concorda?
Eu penso que tem de haver mais colaboração também da parte
de Roma. E que os arquivos deviam ser abertos para saber o que realmente se
passou. Não sou favorável a este “goteio” com que nos chega o conhecimento dos
casos: agora são os Estados Unidos, depois a África do Sul, depois a Escócia…
Devia haver uma abertura dos arquivos e mais colaboração por parte do Vaticano,
porque muitos casos devem ter ficado por lá arquivados, pura e simplesmente.
Mas a ideia que a CEP
tem defendido é que aqui o problema não se põe e que não teve em momento nenhum
a gravidade do que se revestiu lá fora.
Neste momento, o próprio Papa diz que quem tiver
conhecimento deve denunciar. E o cardeal [de Lisboa, D. Manuel Clemente] disse
que está acolhedor e receptivo e que dialogará com as vítimas que se
apresentarem. O que se pode fazer mais? Estou convicto de que ele o diz
sinceramente. Agora se há vítimas que têm muita dificuldade em expressar-se?
Compreendo, é difícil, porque o sofrimento foi demasiado intenso para estarem a
abrir outra vez a ferida.
As vítimas do Fundão,
por exemplo, a Igreja sabe quem são.
Isso devia ser feito, evidentemente. Onde as vítimas são
conhecidas, isso devia ser feito. Como digo, esta tomada de consciência é
também para que se vá ao encontro das vítimas com o apoio psicológico,
terapêutico, espiritual e até material, no limite.
Confia que a Igreja
em Portugal está a dar resposta cabal e capaz aos casos de abuso sexual de
menores eventualmente cometidos por membros da Igreja?
Sou-lhe absolutamente sincero: desconheço. Agora, parece-me
que dificilmente os bispos escapariam ao apoio a vítimas e a famílias que
aparecessem. Até porque há a pressão social e a dos média.
Tem falado da
possibilidade de, no sínodo da Amazónia, marcado para Outubro, se avançar para
a ordenação de homens casados. Mas o Papa veio recentemente esclarecer que, no
que a ele lhe diz respeito, o celibato é para manter.
Sinceramente, não compreendo. Ouça, é uma questão de tempo.
Com que fundamento se insiste no celibato? Já escrevi, citando um grande
sociólogo, Javier Elzo, professor numa universidade jesuíta, que 80% ou mais do
clero, padres e bispos, em África estão a ter uma vida sexual aberta. Não
esqueçamos que Jesus entregou o celibato a uma opção, à liberdade; portanto, a
Igreja não pode impor isso como lei. E o abuso das freiras que agora o Papa
também denunciou é a prova de que o celibato leva a vidas duplas. Porque é que
não se faz um inquérito secreto aos padres sobre a sua vida sexual, para saber
o que se passa, o que é que eles querem? Seria muito interessante. Como a
recusa da ordenação das mulheres, o celibato não faz sentido. Jesus tinha
discípulos e discípulas. A Igreja não pode continuar misógina nem machista.
Onde é que está que as mulheres não podem presidir à Eucaristia? O cardeal D.
José Policarpo chegou a dizer isto, simplesmente foi chamado ao Vaticano. A
Igreja tem um passo excessivamente lento, ela chega lá, mas sempre tarde.
Fica-se com a
sensação de que há sinais contraditórios da parte do Papa. E, por outro lado,
avançar-se com a ordenação de homens casados é ainda diferente do fim do
celibato.
A Igreja avança muito lentamente. O papa Francisco tem
inimigos poderosos. E, portanto, ele terá medo de criar uma ruptura dentro da
Igreja, um cisma.
O que é que, no seu
entender, se seguirá a este encontro?
A cimeira termina no domingo, com um discurso conclusivo do
papa Francisco, a clarificar que os abusos são um mal “não negociável”. Depois,
a partir das respostas aos inquéritos preparatórios enviados às conferências
episcopais (90% responderam) e dos trabalhos durante o encontro, a comissão
organizadora da cimeira reunir-se-á para analisar as propostas apresentadas e
aprofundar um plano de acção para levá-las à prática nos diferentes níveis da
Igreja. E julgo que uma cimeira como esta, com a representatividade que tem a
nível global, poderia ser um ponto de partida para um sínodo verdadeiramente
representativo da Igreja universal para, em reuniões periódicas, tratar dos
problemas da Igreja. E porque não ser a assembleia que elegeria o novo Papa,
acabando com a eleição papal restringida aos cardeais?
Natália Faria, em Público

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