O Pai Nosso e o Pão Nosso de cada dia - uma oração pela prática da socialização do Pão da Vida e do pão da Terra

A falta de pão na mesa do pobre é um problema decorrente da falta de espiritualidade no altar dos cristãos. O pai nosso é a oração pelo pão de cada dia também do outro e não só do meu.

Oração àquele que dá o Pão
A oração do Pai Nosso (Mateus 6 e Lucas 11) é, ao mesmo tempo, a oração do “pão nosso de cada dia”. O pedido por esse pão é seguido pelo ensinamento de Jesus aos seus discípulos para que não se preocupem com o alimento. Também já se conhecia a ideia de que Deus dá o pão aos seus amados enquanto eles dormem, de acordo com o Salmo 127 (126)

Segundo as palavras de Jesus Cristo, Deus, por meio da Natureza, encarrega-Se de suprir as carências das aves dos céus e dos lírios do campo. E, assim como supre os pequenos animais e os vegetais, a Natureza tem suprimento suficiente para todas as pessoas do planeta. 

Ora, o problema da falta de alimento para muitos não se deve a Deus ou à Natureza, mas à ação humana, que destrói os solos aráveis e envenena as águas, que explora o seu semelhante, que acumula bens e enriquece indiferente ao empobrecimento da maioria, entre outros factores que geram fome, miséria e doenças.

Portanto, na oração do pai nosso, o pedido não é para que Deus me dê um pão que não existe, mas oramos pela prática da socialização do pão.

Impossível rezar «Pai Nosso» sem ética
O alimento é um direito de todos os seres humanos. Quando uma minoria detém a maior parte dos bens, outras pessoas padecem necessidades. O problema da desnutrição, para muitos, está na má utilização dos recursos naturais, quando se visa apenas ao lucro e a acumulação de capital, o que também leva à degradação do meio ambiente.

Logo, o Pai Nosso não é uma prece para ser meramente repetida nas nossas liturgias; ela é a oração sobre a ética da propriedade e dos bens.

Para Jesus Cristo, vale mais uma vida eticamente correta do que a oração corretamente pronunciada.

Há muitos cristãos que oram o pai nosso sem, contudo, expressar o reconhecimento – muito menos, o arrependimento – de que estão a por muitas pessoas sob o castigo da fome e da morte.

É por causa do nosso egoísmo, revelado quando comemos muito e deixamos outros com fome, que há muitos doentes e mortos na nossa Casa Comum.

Não discernir essa realidade significa comer e beber juízo para si, conforme a Primeira Epístola aos Coríntios 11, 17-34.

Para muitos de nós, é fácil partilhar a recitação do pai nosso – e até o PAI NOSSO (Deus) pode ser partilhado e dividido; mas o pão, esse não – esse é exclusivamente “meu”. Para muitos de nós, o máximo que fazemos é uma doação filantrópica das nossas sobras. E, se damos a sobra, apenas denunciamos o nosso contexto de injustiça. É hipocrisia doar a sobra como se fosse um ato de misericórdia. A misericórdia se evidencia pela doação daquilo que nos faz falta.

Todo ídolo exige sacrifício. O ídolo de mercado, representado pela acumulação de propriedades e rendas, vive guardado no altar sagrado dos cofres bancários, venerado pelos seus adoradores, os mesmos que sacrificam os mais fracos e vulneráveis da sociedade.

O pão é um bem que pode ser acumulado ou socializado; por isso, a oração do pai nosso tem implicações económicas, sociais e políticas. Orar ao Pai do Céu pelo pão de cada dia é uma premissa contra a acumulação de bens. O mundo seria diferente se todos os cristãos fizessem do pai nosso uma prática de justiça, solidariedade e socialização do pão.

O pai nosso é a oração pelo pão de cada dia do outro. 

Muito mais do que um modo de orar – é, de facto, uma maneira de viver
O bem-aventurado pobre de espírito, citado em Mateus 5, 3, vive motivado pela sensibilidade e pela compaixão, e tem prazer em socializar com outras pessoas tanto o Pão da Vida quanto o pão da terra.

Além do mais, o bem-aventurado pobre de espírito é também feliz porque sente fome e sede de justiça. E essa sua fome, essa sua sede, são aguçadas diante da fome sofrida pelos injustiçados.

A falta de pão na mesa do pobre é um problema decorrente da falta de espiritualidade no altar dos cristãos. A carência de alimento passa a ser um sinal de nossa falta de espiritualidade à medida que o outro não o tem. Que o Pai do céu nos ajude a socializar o pão da terra.

Pastor Carlos Queiróz, em GUIAME.COM.BR

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