À medida que se aproxima o Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazónia, de 6 a 27 de outubro, os críticos perguntam-se em alta-voz porquê se vai realizar o evento, e todos os sinais sugerem que ele poderá ser outro capítulo da batalha em curso entre progressistas encorajados pelo Papa Francisco e conservadores descontentes com ele.
Para qualquer pessoa inclinada a questionar a necessidade do Sínodo ou a politizá-lo, o leigo Mauricio Lopez (na foto), do Equador, tem uma mensagem simples: «Venha morar numa dessas comunidades remotas durante um ano. A visão de muitos que têm medo do Sínodo mudaria drasticamente se eles viessem viver aqui por um ano. Todas as questões ideológicas ou doutrinais chegariam ao fim.»
Ele é um dos organizadores do iminente Sínodo e defende que o evento está disposto a pensar “fora da caixa” em termos gritantes.
Se a Igreja Católica não pode mudar a forma como aborda os novos desafios – e “não o dogma”, enfatiza Lopez – “então temos de reconhecer perante as pessoas que somos incapazes de responder aos desafios que a realidade coloca e ao seu direito a receber os sacramentos, e temos de agradecer-lhes pela sua presença e dar-lhes a nossa bênção ao abandonarem a Igreja.»
Em particular, Lopez apoia os pedidos pela ordenação de homens casados, os chamados viri probati, como uma solução para a crónica escassez de padres na Amazónia, dizendo que é uma «proposta que vem diretamente do povo de Deus que está no território».
O arcebispo Rafel Cob, um missionário da Espanha que está no Equador desde 1998, concorda em chamar a ordenação de homens casados parte de uma mudança de uma Igreja “clerical” para uma Igreja “ministerial”.
As comunidades remotas que Lopez tem em mente incluem cerca de 4500 pequenas aldeias espalhadas por toda a Amazónia, que se encontram em nove países, incluindo Equador, Brasil, Venezuela, Bolívia, Colômbia e Guianas. No total, existem cerca de 500 povos indígenas na região amazónica e mais de 80 que ainda vivem em isolamento voluntário.
Em 2017, o Papa Francisco anunciou o seu plano de um Sínodo dos Bispos para abordar os desafios que a Igreja Católica enfrenta na evangelização desses povos, mas também na preservação da própria floresta tropical, que a comunidade científica vê como fundamental para manter a biodiversidade mundial que eles dizem que atualmente está sob ameaça por parte das indústrias do petróleo e da mineração, além do desmatamento.
Lopez é o secretário executivo da Repam, a Rede Eclesial Pan-Amazônica. Ele também é um dos dois membros do conselho pré-sinodal, de um total de 18, que não são bispos. A outra é a Ir. Maria Irene Lopes dos Santos, uma freira brasileira apelidada de “Princesa da Amazónia”.
Falando com jornalistas em Quito, Lopez disse que a Repam coordenou e realizou cerca de 300 sessões de escuta em toda a região, envolvendo os nove países. Isso levou a que cerca de 87 000 pessoas da Amazónia fossem ouvidas por meio de assembleias territoriais ou grupos paroquiais.
Segundo o leigo, nascido no México, mas que mora no Equador, o Sínodo destina-se a provocar três conversões fundamentais.
A primeira é a uma Igreja “em saída”, que evangeliza através dos seus esforços sociais e que “entra em contacto com a realidade com alegria, não impondo a fé, mas tornando-a contagiosa”.
Lopez sublinha a exortação apostólica Evangelii gaudium, de Francisco, como o documento principal, dizendo que é um chamamento do papa para uma “conversão do coração”.
Para o leigo mexicano missionário no Equador, o Sínodo também pede uma “conversão ecológica”, e argumenta que é “triste que alguns representantes do mais alto nível da Igreja não possam reconhecer que a doutrina social católica é tão doutrinal quanto o resto”. A encíclica Laudato si’, diz ele, é como um apelo do papa “para todo o planeta”, o que não prejudica a identidade da Igreja, mas “prioriza aqueles que foram fundamentais na proteção da Mãe Terra”.
A terceira e última conversão, segundo Lopez, é rumo à “sinodalidade da Igreja”, que Francisco exortou na sua constituição apostólica Episcopalis comunio.
Ao convocar um Sínodo sobre a Amazónia, diz Lopez, Francisco está “a dizer-nos que a periferia é o centro. A Amazónia sempre foi concebida pelos governos, pelas empresas privadas e pelo próprio povo como uma periferia, como um espaço a ser colonizado e explorado”.
Num encontro entre o papa e os organizadores do Sínodo, Francisco afirmou à Repam para “prestar atenção na coisa mais importante: a periferia é o centro”. Lopez concorda: «A periferia, considerada como descartável e sem valor, pode iluminar e purificar o centro.» E afiança: «Nada é mais evangélico do que isso.»
Durante esse encontro, o papa também teria elogiado a “alegria” sentida no conselho pré-sinodal. De acordo com Lopez, isso porque a maioria dos bispos que fazem parte da comissão são prelados missionários que trabalham no lugar e entendem a realidade acerca da qual falam.
«Devemos perguntar àqueles que são contra o processo sinodal também se não são contra a Igreja e o papa», afirma Lopez. «Precisamos ver se eles são contra qualquer mudança e reforma que possam ser necessárias.»
Inés San Martín, em https://cruxnow.com

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