Imagem do 4.º Encontro
Nacional - Retiro da Fraternitas, em 1987. O Movimento tinha nascido do convite
do padre Filipe Figueiredo (ao centro, com camisa preta e colarinho
eclesiástico branco) para o primeiro retiro, que aconteceu em agosto de 1986.
A Fraternitas é uma
associação de presbíteros casados que nunca deixaram de se sentir sacerdotes,
continuam a comungar e veem no mundo a sua paróquia. «Tu serás sacerdote para
sempre», lembram.
No espírito do
Movimento, criado pelo cónego Filipe Figueiredo, nascido em Beduído, no concelho de Estarreja, diocese de Aveiro,
e padre e cónego na diocese de Évora (ver perfil no final desta notícia),
está a recusa em aceitar a dispensa das obrigações sacerdotais com os
"termos humilhantes e até vexatórios" que o pedido formal exigia (até
2019). Esses termos foram agora alterados pelo Papa Francisco: ver Vaticano muda linguagem humilhante e agressiva aos padres
que pedem dispensa do celibato.
«Mantemos a relação com
a Igreja. Não somos ex-padres. Eu não gosto da palavra padre,
porque padre é "pai" e significa que não somos
irmãos. Eu não sou fisicamente irmão do meu pai. Eu sou filho do meu pai e os
padres não são pais de ninguém, são irmãos e irmãs de toda a gente. Todos nós
somos irmãos», disse à agência Lusa José Alves Rodrigues,
presbítero casado com Maria da Assunção, pais de dois filhos.
Apesar de assumir que
foi feliz enquanto presbítero, para José Rodrigues «foi fácil» deixar o
ministério: «Para mim foi continuar a fidelidade. Eu fui muito feliz enquanto
estive no ministério. E para continuar a ser fiel e feliz decidi enveredar pelo
casamento. Olho para os sete anos em que exerci o ministério como muito bons na
minha vida. Se continuasse lá, não sei se continuaria a ser feliz como fui até
lá e como sou agora», explicou.
Não aceita a designação
de ex-padre. Nenhum membro da Fraternitas, acompanhado pela esposa ou viúvo,
aceita. «Tu serás sacerdote para sempre, a ordenação é para sempre, não há
repetições, desordenações, não há anulação da ordenação. Nenhum de nós deixa de
ser presbítero», diz convicto o José.
José Rodrigues deixou de
(poder) exercer o ministério sacerdotal em 1978. Casou com Assunção em 1980.
«Ela foi difícil de convencer. Às vezes pensa-se que as mulheres são o motivo
para nos desviarmos, não é verdade, nem sempre é verdade», salienta ele.
Assunção, por sua vez,
rejeita o estigma da "mulher do padre", nunca se viu assim. «Nunca vi
nessa perspetiva negativa. O Zé apareceu-me como próximo, como companheiro»,
disse à Lusa.
«Foi ser fiel a essa
certeza e foi neste caminhar conjunto que vimos que estávamos unidos e que o
amor não nos podia impedir de viver este amor maior a que fomos chamados. Nunca
senti esse peso negativo, também a comunidade onde vivíamos facilitou. Sei que
para a minha mãe isso a fez sofrer, mas depois foi ela que inclusivamente nos
arranjou casa», disse, a sorrir.
Desse «amor maior»
nasceram dois filhos. Um, o Pedro, sofre de uma doença neuromuscular. A
esperança média de vida da patologia que o Pedro tem era de vinte anos. O Pedro
tem 37.
«Acho que descobrir Deus
no mundo é mesmo descobri-Lo na vida. Também ali [na doença do Pedro]
descobrimos Deus. Ninguém é perfeito. Ele diz que não é doente. Ele tem uma
doença progressiva, mas não é doente. E por isso ele vive com muito mais
intensidade que a maioria das pessoas)», explicou José Rodrigues, agora sim,
"pai".
Perguntado se «foi um
castigo de Deus pelo "pecado" aos olhos da Igreja?», nenhum dos
pais acredita nisso: «Já nos disseram isso. Eu não acredito nesse deus. Também
não insultei a pessoa que o disse. Eu não acredito nesse Deus», respondeu José.
«Sim, foi-nos dito isso, mas eu também não o vejo assim, foi um caminho que tivemos e temos de seguir e fazemos parte dele com a mesma intensidade. O que nos interessa é que o Pedro seja feliz», acrescenta Assunção.
«Sim, foi-nos dito isso, mas eu também não o vejo assim, foi um caminho que tivemos e temos de seguir e fazemos parte dele com a mesma intensidade. O que nos interessa é que o Pedro seja feliz», acrescenta Assunção.
Felicidade que esteve na
base do pedido da dispensa das obrigações sacerdotais. «O rescrito da
dispensa do estado clerical era uma coisa asquerosa, que o Papa Francisco agora
mudou. Era um documento horroroso, com uma linguagem vexante. Mas senti que,
para a minha sogra – uma mulher de muita fé –, era importante e pedi a
dispensa, em atenção a ela. O próprio bispo que mo entregou, D. Armindo Lopes
Coelho, disse-me: "Não leia isso." Ele próprio via que aquilo não era
aceitável. E eu não o li, obedeci ao bispo», diz, rindo-se, José Rodrigues.
Do perfil do Cónego Filipe Figueiredo, fundador da Fraternitas Movimento:
O P.e Filipe foi o
fundador e era o assistente espiritual dos Missionários de Cristo Sacerdote,
associação dedicada à espiritualidade e à oração pelas vocações sacerdotais e
pelos sacerdotes; e dos Missionários de Cristo Bom Pastor, associação com
a mesma finalidade da anterior, composta por sacerdotes e dos Jovens em Acção
Apostólica da Imaculada em Ordem ao Ano 2000 (JAAI 2000).
O P.e Filipe foi o
fundador e era assistente espiritual da Associação FRATERNITAS Movimento,
constituída por padres dispensados do exercício do ministério e pelas suas
esposas ou viúvas.
Ler na íntegra: P.e Filipe de Figueiredo, homem de Deus
Fonte e créditos a: LUSA e Açoriano Oriental

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