A destruição do planeta é desprezível – mas ela é tão ruim
quanto não cumprir o mandamento “Não matarás”?
“Pecado ecológico”, ou "pecado contra a Criação”, tem
sido um assunto muito debatido na assembleia especial do Sínodo dos Bispos para
a Amazónia, em Roma.
“Estamos a pecar contra o Criador. Cometemos muitos pecados
contra a natureza, mas nunca examinamos a nossa consciência sobre isso”,
disse-se.
O tom é sério, e a “seriedade” e a “urgência” da situação
são enfatizadas.
No dia 11 de outubro, o cardeal Carlos Aguiar Retes, do
México, dirigiu-se à comunicação social mundial e lembrou fortemente a todos a sua
responsabilidade pela saúde do planeta: uma responsabilidade como cidadão e
consumidor, é claro, mas também como cristão.
Comumente, falamos em “conversão” ecológica, mas a
destruição do ambiente, a partir de uma perspectiva cristã, é pecado?
Matar tem muitas formas
Adelson Araújo dos Santos, um jesuíta brasileiro que leciona
na Universidade Gregoriana de Roma e que participa no Sínodo como perito,
disse: “No grupo em que estou, tivemos uma discussão muito interessante sobre
esse assunto”.
“O quarto mandamento, ‘Não matarás’, foi dado como exemplo.
Na minha opinião, não é apenas o assassinato que é proibido aqui. Porquê a
destruição da vida de uma floresta ou de certas espécies animais não é levada
em consideração?”
O Pe. Adelson disse lamentar o número de vezes que ouviu nas
confissões dos fiéis que, como “não mataram ninguém” e “nunca roubaram”, eles
não sabiam que pecado confessar. Ele acredita que os pastores devem ajudar os
fiéis a terem uma compreensão “mais ampla” dos mandamentos, especialmente a
partir de uma perspectiva ecológica.
Precursores ortodoxos
Essa noção de pecado ecológico, de facto, não é nova, e, a
esse respeito, o mundo ortodoxo parece ter aberto o caminho.
No dia 8 de novembro de 1997, num congresso ambiental em
Santa Barbara, Califórnia, o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla apresentou
uma releitura da história do pecado e declarou que “cometer um crime contra o
mundo natural é pecado”.
No dia 1 de setembro de 2016, na sua mensagem para o
segundo Dia de Oração pela Criação, o Papa Francisco desenvolveu essa ideia. Ele enfatizou a necessidade de um exame de consciência, de
arrependimento e de confissão, até mesmo antes de iniciar uma “mudança de rumo”
para uma vida mais respeitosa da Natureza.
Convidando os católicos a tirarem proveito do Jubileu da
Misericórdia para dar esse passo, ele descreveu a salvaguarda da Criação como
“uma obra espiritual de misericórdia”.
“Somos participantes de um sistema que impôs a lógica do
lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da
natureza. Arrependamo-nos do mal que estamos a fazer à nossa casa comum”,
acrescentou.
Estruturas de pecado
Será que participar de um sistema defeituoso seria,
portanto, equivalente, stricto sensu, a pecar?
Isso já foi escrito por Santo Inácio de Loyola nos seus
Exercícios Espirituais do século XVI, acrescentando aos pecados pessoais os
pecados estruturais de uma sociedade, da qual cada membro faz parte.
Em sua encíclica Sollicitudo rei socialis (1987), João Paulo
II, por sua vez, distinguia entre o pecado pessoal e o pecado social. Ele também introduziu a noção de “estruturas de pecado”, que
geram injustiça ou opressão.
O ser humano, como ser social, certamente não pode escapar
disso; mas, como essas estruturas são conquistas humanas, sua responsabilidade
está sempre comprometida. Assim, mesmo que seja uma vítima, o ser humano é
solidário com o pecado cometido dentro dessas estruturas.
“Uma grande mudança”
A ideia de inserir a ecologia integral – e até mesmo,
eventualmente, essa noção de pecado ecológico – no “próprio tecido” da teologia
católica parece estar a abrir caminho no nível mais alto da Igreja hoje. Esse
Sínodo para a Amazónia pode ser um passo fundamental nesse processo.
“Seria uma grande mudança e uma ampliação da perspectiva
eclesial”, argumentou Dom Adriano Ciocca Vasino, bispo de São Félix, no Brasil,
à margem do Sínodo. «Se fizermos esse trabalho, também deveremos revisitar a
exegese – ou seja, reler o que a Bíblia fala sobre o respeito à Criação – e até
mesmo o direito canónico.»
Mélinée Le Priol, em La Croix International.
Tradução: Moisés Sbardelotto
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