Enquanto o Papa Francisco elabora a decisão polémica (com a
ala conservadora católica) para permitir que homens casados se tornem padres em
áreas remotas da Amazónia, a viagem à Ásia pode ser a sua
próxima ação para aquilo que, claramente, é o seu programa de reforma clerical.
Em particular, a maior parte dos bispos que participaram do
Sínodo para a Amazónia em outubro deste ano concordaram sobre a ordenação de
homens casados em circunstâncias especiais na região amazónica, onde fiéis que
querem ir à missa e receber a Eucaristia não veem um padre durante meses, até
mesmo anos.
É aqui que podemos entender o problema fundamental com a
diminuição do clero restrito a padres celibatários. O objetivo maior do
Cristianismo é apresentar Jesus às pessoas por meio do trabalho pastoral do
clero e da participação nos sacramentos. Restringindo este objetivo a uma
classe de homens não casados, a Igreja restringe a sua capacidade de fazer
aquilo que diz ser a sua finalidade. Críticos estridentes chegam a dizer que
estas ideias são heréticas. Mas tal é o tipo de drama que se pode esperar de
figuras clericalistas conservadoras. Portanto, deixemo-las de lado.
Precisamos seguir para onde o Papa Francisco está a dirigir-se e
entender o quanto de “radical” têm as suas ideias. Nesse sentido, pensemos: a
última vez que um sínodo considerou a questão de homens casados como padres foi
em 1971, no terceiro sínodo do Papa Paulo VI. Para a consternação dos católicos
progressistas – e daqueles que se já se preocupavam com o declínio no número de
vocações ao sacerdócio –, Paulo reafirmaria o celibato sacerdotal em 1967.
Em 1970, um grupo de estudiosos católicos, entre eles Joseph
Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI, escrevia ao Papa Paulo:
“Os abaixo assinados, que através da confiança dos bispos
alemães foram chamados como teólogos a uma comissão para questões de fé e moral,
sentem-se compelidos a submeter as seguintes considerações aos bispos alemães”,
escreveram.
“As nossas reflexões dizem respeito à necessidade de um
exame urgente e de um olhar judicioso da lei do celibato da Igreja latina para
a Alemanha e a Igreja universal como um todo...”.
Mas o sínodo de 1971 apoiou o papa na questão do celibato,
embora com uma minoria contrária significativa, e o problema ficou esteve
intacto por 48 anos até o Papa Francisco trazê-lo novamente à mesa de
discussão.
O documento final do Sínodo dos Bispos para a Amazónia diz
que muitos na região têm “enormes dificuldades” de receber a comunhão e de
estar na presença de um padre.
A proposta final foi a de “ordenar como padres homens dignos
e estimados da comunidade” que já tenham experiências “frutíferas” como
diáconos e que “recebam uma formação adequada para o sacerdócio, tendo uma
família legitimamente constituída e estável”.
“Nenhum padre é ordenado sem primeiro ser diácono”, disse o
Cardeal Michael Czerny, acrescentando que essa proposta significava uma grande
“mudança pastoral” para a Igreja.
Na sequência, haverá um documento que Francisco espera
escrever no final deste ano. Como informou o sítio electrónico oficial do
Vaticano: “As suas conclusões serão ansiosamente aguardadas pelos fiéis que se
perguntam se ele [o documento] incluirá uma abertura à suspensão de uma
proibição aos padres casados, pelo menos em certas circunstâncias, em uma parte
do mundo onde as igrejas evangélicas protestantes estão, cada vez mais, ganhando
convertidos.”
O crescimento dos cristãos evangélicos
Claro está que Francisco escolheu uma região amazónica remota como o lugar para testar reformas um tanto necessárias em países em
desenvolvimento, nos quais a Igreja tem crescido e onde ele vê o futuro do
catolicismo.
Isso mostra-se particularmente pertinente no Brasil, país
que possui o maior número de católicos, mas onde a Igreja sofre com os ataques
dos cristãos evangélicos que crescem rapidamente em número.
Hoje, o aumento dos evangélicos, bem como de bolsas de
católicos que vivem em áreas remotas, é uma temática forte na Ásia.
Na Tailândia, há
sete principais tribos que vivem em áreas distantes. Os povos Hmong, Karen,
Akha e Lisu têm milhares de católicos. Tais grupos étnicos e outros espalham-se
por montanhas no sudoeste asiático (Bangladesh, Myanmar, Tailândia, Laos e
Vietnã) e no sul da China.
Centro do catolicismo no continente, nas Filipinas grupos
evangélicos têm uma presença significativa, e o mesmo acontece na Indonésia e
no Camboja. O destaque vai para a Coreia do Sul, onde cristãos ricos usam a
religião para criar redes de negócios e construir megaigrejas – prática também
presente na China.
Os coreanos têm enviado missionários para as regiões sul e
sudeste da Ásia. No começo deste ano de 2019, a revista The Economist escreveu que o
cristianismo pentecostal e evangélico cresce mais rapidamente na Ásia do que
nas demais partes do mundo, alcançando um número acima de 200 milhões de fiéis
em 2015, acima dos 17 milhões em 1970.
Isso vem ao encontro do raciocínio do Papa Francisco no
sentido de ordenar homens casados ao sacerdócio.
Também é válido perguntar se a China pode ser um país
onde uma consideração a respeito de padres casados já se faz necessária. Pelo
menos dois bispos chineses que o pontífice trouxe de volta ao contacto com a
Santa Sé têm famílias. Usando estes exemplos, sem dúvida é verdade que outros
padres e provavelmente prelados no gigante asiático possuam arranjos familiares
“não convencionais” que não se encaixam em um sacerdócio celibatário.
A Igreja chinesa tem lutado para conseguir padres e bispos o
suficiente, enquanto o governo do Partido Comunista recentemente passou a
reprimir a participação dos menores em missas, aulas bíblicas e outras
atividades católicas.
Como disse Francisco no início do Sínodo dos Bispos: “Se
tudo continuar como é, se passarmos os nossos dias contentes que ‘esta é a maneira
que as coisas sempre foram feitas’, então a dádiva desaparece, sufocada pelas
cinzas do medo e da preocupação por defender o status quo”.
Claro que um dos obstáculos a mudanças desse tipo é o
clericalismo rampante em quase todos os países asiáticos onde os líderes
eclesiásticos – que amam a pompa e todas aquelas vestimentas – veem-se como
partes de elites seletas e se estremecem com o horror da entrada de alguém
“menor” ao clube. A ironia, evidentemente, se perde nestes homens.
Michael Sainsbury, jornalista, em La Croix International.
Tradução: Isaque Gomes Correa.

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