Um conto de Natal: O dia em que o Pai Natal visitou o Menino Jesus

O Pai Natal, como sabemos, existe há muito tempo. E é uma figura universal: ele vai aos lugares mais longínquos, sempre disposto a ouvir os pedidos das crianças e, quando possível, atendê-los.

Foi assim que um dia o bom velhinho se viu naquela longínqua e perturbada região do mundo conhecida como Médio Oriente. E lá, perto de uma aldeia, encontrou um menino que brincava. Sem demora, dirigiu-se a ele:

- Meu filho, sou o Pai Natal. Tiveste sorte: já que te encontrei, estou disposto a satisfazer um desejo teu. Diz-me, portanto, o que queres.

O menino não respondeu. Fitava o Pai Natal em silêncio. 

Perturbado, o Pai Natal insistiu:
- Vamos lá, diz o que desejas. Aos outros, faço restrições. Mas a ti estou disposto a fazer concessões especiais. O que queres? Brinquedos? Mesa farta? Quem sabe uma casa nova para ti e os teus pais?

- De que adianta a alguém - replicou o menino - ganhar o mundo inteiro, se se perde a si mesmo?

A resposta deixou o Pai Natal perturbado. Esperava uma lista comprida de pedidos, não uma ponderação como a que acabava de ouvir. Mas não podia perder a compostura: afinal, era uma figura pública. Optou por ignorar as palavras do menino. Apontando-lhe a roupa modesta, propôs:

- Que tal uma roupa novo? Hem? O que me dizes? Posso arranjar-te uma de excelente tecido.

- Observa - disse o menino - os lírios do campo, que não fiam nem tecem. E contudo, eu te digo: nem mesmo o rei Salomão, com toda sua pompa, se vestiu como um deles.

A esta altura, o Pai Natal estava francamente perplexo - e alarmado:

- Escuta, a tua atitude não leva a nada. Deste modo, nunca conseguirás nada. Serás pobre, passarás fome...

- Bem aventurados os pobres - exclamou o menino -, porque deles é o reino de Deus. Bem-aventurados os que têm fome, porque serão saciados.

Depois disto, o Pai Natal resolveu desistir e ir-se embora. Ali não havia nada a fazer. Era um menino muito estranho, aquele Jesus de Nazaré.

conto de Moacyr Scliar,
no livro Mamãe não dorme enquanto eu não chegar

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