Bispos lusófonos afirmam «Compromisso pela Paz, pela Fraternidade Humana e a Vida em Comum no Espaço Lusófono»
Nós Bispos de Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Portugal e
São Tomé e Príncipe, reunidos no XIV
Encontro dos bispos dos países lusófonos, na Guiné-Bissau, sobre o tema «O
diálogo inter-religioso como promotor da paz e do desenvolvimento», queremos
afirmar que “« fé em Deus une e não separa, aproxima na diferença, afasta da
violência e do ódio» (Mensagem do Papa Francisco por ocasião da viagem
apostólica aos Emirados Árabes).
«Ide em paz e o Senhor vos acompanhe», é a bênção que recebemos no final da Santa Missa. Pela
graça de Deus, queremos mesmo ir em paz. Mas como há de ser isto, depois de
passarmos a porta desta catedral? Como
viver, de facto, esta esperança e esta promessa, aqui em Bissau, nos países lusófonos que representamos e
por esse mundo fora?
Vivemos um tempo de grande crise.
A
ameaça à família, a relativização dos valores e as alterações climáticas
ameaçam a sobrevivência da família humana.
A nível
global, é urgente a revisão e transformação dos modos de vida.
As
relações humanas, entre pessoas e entre comunidades, e as estruturas sociais e
políticas que construímos estão sob observação. Não é afinal aí que todas
as formas de desequilíbrio, de abuso e de violência têm lugar, dirigindo-nos
neste caminho insustentável?
Face à crise, todos buscamos um sentido de
vida.
muitos
recorrem à fé para encontrar sinais concretos de esperança.
Milhões
de pessoas, e muito particularmente os jovens, põem os seus olhos nos líderes
religiosos em busca de sinais, ideias e ações que façam a diferença, que ajudem
na construção de uma sociedade mais justa, mais pacífica e mais sustentável, um
mundo em que a fé em Deus tenha o rosto da fraternidade humana.
No início do ano passado, em Abu Dhabi, o Papa
Francisco e o Grande Imã da Fé Muçulmana de Al-Azhar, Ahmed el-Tayeb, assinaram
uma Declaração sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Vida em
Comum.
Esta declaração convida «todas as pessoas, que
trazem no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana, a unir-se e trabalhar
em conjunto, de modo que tal documento se torne para as novas gerações um guia
rumo à cultura do respeito mútuo, na compreensão da grande graça divina que
torna irmãos todos os seres humanos».
A declaração afirma, entre outras coisas, que o
diálogo, a compreensão e a promoção de uma cultura de tolerância e aceitação
dos outros e de convivência pacífica contribuiriam significativamente para
reduzir muitos problemas económicos, sociais, políticos e ambientais, que muito
pesam sobre grande parte da humanidade, em particular os mais vulneráveis.
Juntamente com outros grupos religiosos,
cristãos e muçulmanos podem e devem melhorar o seu envolvimento uns com os
outros:
começando
na reflexão sobre valores partilhados,
desenvolvendo
confiança,
partilhando
preocupações comuns
e
aprofundando o diálogo nas suas múltiplas possibilidades em conteúdo e forma:
diálogo de oração e espiritualidade,
diálogo de justiça social, ecologia integral e direitos humanos,
diálogo de convivência na hospitalidade mútua.
A Guiné-Bissau, cuja população professa
diferentes religiões (tradicionais, muçulmana, cristãs e outras), é um país em
que o diálogo ecuménico e inter-religioso tem uma grande relevância no dia a
dia das pessoas e das comunidades. A longa experiência dos bispos de Bissau e
Bafatá, em conjunto com os líderes muçulmanos e evangélicos, no diálogo e ação
inter-religiosa, na prevenção e mediação de conflitos e na criação de um
ambiente favorável à paz e ao desenvolvimento, serve de inspiração e base de
reflexão para todo o espaço lusófono. Os outros países têm também experiências
ricas e com real impacto na vida dos seus países e comunidades.
Neste sentido, partindo da Declaração sobre a
Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Vida em Comum, e cruzando-a com o
papel das religiões na prossecução dos objetivos do desenvolvimento
sustentável, é possível identificar oportunidades para formas de diálogo e
ações conjuntas com outras confissões e religiões, assim como com os demais
parceiros sociais.
O Compromisso de Bissau pela Paz, a
Fraternidade Humana e a Vida em Comum no Espaço Lusófono, que aqui afirmamos, é manifestação da nossa vontade de continuar a aprofundar
a reflexão e o diálogo e a desenvolver parcerias e ações conjuntas nos países
lusófonos. Estendemos o convite a todos os que se revejam neste compromisso,
para que nos associemos no desenvolvimento desta missão.
Como referiu o Papa Francisco na sua mensagem do
dia 1 de janeiro de 2020, Dia Mundial da Paz, «o mundo não precisa de palavras
vazias, mas de testemunhas convictas, artesãos da paz abertos ao diálogo, sem
exclusões nem manipulações. De facto, só se pode chegar verdadeiramente à paz
quando houver um convicto diálogo de homens e mulheres que buscam a verdade
mais além das ideologias e das diferentes opiniões».
A paz é dom de Deus e construção fraterna.
Assim, com fé e confiança em Deus, juntos vamos construir a paz na fraternidade
e na solidariedade, na convivência e na reconciliação, na justiça e na
esperança.
Compromisso proclamado na Catedral de Bissau
a 19 de janeiro de 2020,
no final da celebração
da Santa Missa

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