Quero interpretar o ano que passou e este novo início de década em perspectiva de peregrinação.
Fomos peregrinos e tivemos de dar passos para alcançar as nossas metas. Certamente, alguns caminharam a passos largos, outros cansaram-se rápido e pensaram em desistir.
Muitos nem sequer chegaram a metade do caminho devido às tempestades violentas que ameaçam a fragilidade da vida. Viver é caminhar e expor-se a sérios riscos.
Existe algo que descobrimos quando entramos na lógica do peregrino: só se vai longe e só se caminha com mais agilidade se formos depurando as nossas bagagens, ou seja, se largamos aquelas coisas que tornam exaustiva a caminhada.
Pense cada um na quantidade de coisas que acumulou este ano que passou e que deram tanta dor de cabeça;
reflita cada um sobre as pessoas que o pararam no caminho para trocar umas palavras e para pedir uma mão, mas não foi possível pois estávamos com a mente e o coração preocupados com as coisas.
Ainda é tempo de desapegar-se e ser mais feliz com o necessário. Eis uma das lições do peregrino: ao invés da mochila que acumula bugigangas, tenhamos um coração grande para acolher pessoas e não nos apegarmos a coisas e a situações secundárias.
Todo o peregrino planeia alcançar as metas, chegar ao destino sonhado. Mas nem sempre isso é claro. As vezes tomam-se atalhos errados e acaba-se por voltar ao ponto de partida.
Lembre-se cada um que as coisas melhores conquistam-se quando aceitamos trilhar os caminhos desafiantes que nem sempre são claros e precisos.
A vida pedir-nos-á para entrarmos em florestas escuras, atravessarmos pântanos, escalarmos montanhas, pois o mais importante é perseverar, visto que o peregrino é um homem de kenosis: à medida que caminha vai desgastando a sua vida por uma causa maior, por algo que é superior a ele, algo que traz um bem não apenas a si mesmo, mas à humanidade.
O peregrino é, antes de tudo, um ser solidário, pois caminha com os outros e espera por aqueles que têm passos lentos. Isso custa-lhe muito, mas sabe que sua kenosis não é em vão, a sua semente desabrochará em muitos frutos.
Caminhemos, é necessário! Seja, cada um, um peregrino: Invista as energias na aventura da vida! Dentro do caldeirão de ideologias da mudança de época que atravessamos a maior de todas as tentações é o aceitar caminhar sem sentido, viver na banalidade, instrumentalizar o ser humano, pensar que tudo já foi feito, contentar-se apenas com o pão duro da realidade.
Porém, como o peregrino é também um ser de olhar crítico, ele supera a armadilha da ideologia com o remédio da Utopia. Sim, a utopia que abre o futuro, que faz cair por terra a máscara da mentira e da opressão. A utopia que o peregrino conserva no coração é aquela do Reino de Deus que nos faz ser homens de boas notícias, por isso os pés do peregrino são benditos, anunciam a paz.
Como o peregrino é um ser sempre de partidas, ele aprende a superar as suas perdas. Cada vez que deixa um lugar, sabe que deve despedir-se de pessoas e derramar lágrimas de saudades. Ele parte de coração apertado, mas tem de ir, pois a sua vida é a estrada e em breve encontrar-se-á com tantos outros rostos, culturas e desafios a superar.
O dilema das partidas, por outro lado, torna-nos mais livres interiormente, liberta-nos dos enraizamentos que sufocam a utopia.
Todas as partidas põem-nos num “não lugar”, pois arrancam-nos do nosso ninho. Porém se aceitamos o desafio de caminhar, em breve chegaremos a outra pátria, onde mais uma vez teremos de construir relações, ou seja, temos de nascer de novo.
Por fim, além de ser um homem de kenosis, de utopia e do binómio morte/vida, o peregrino deixa-se mover pelo amor: sair de si mesmo para encontrar-se com um tu. Ele deve desejar estar com o próximo para não viver isolado, não perder tempo com a sua própria imagem. A energia amorosa que o peregrino nutre todos os dias serve para o curar da sua egolatria e libertá-lo do vírus da indiferença.
Na verdade, tornar-se peregrino nas estradas deste mundo significa cristificar-se, ou seja, assumir um estilo de vida que nos remete para Jesus de Nazaré, jovem da Kenosis, senhor da vida e da morte, apaixonado pela utopia do reino e homem de Eros integrado. Você seria capaz de avaliar a vida a partir destas perspectivas? Se sim, então façamos um brinde ao peregrino!
Padre Ademir Guedes Azevedo, missionário passionista
em UNISINOS

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