Misericordiosamente perfeito é o que ama com um amor que nunca se esgota

O Evangelho de São Mateus, capítulo 5, versículos 38 a 48, é a continuação do discurso de Jesus sobre o Monte, onde apresenta o modo original de ser e de viver dos seus seguidores; trata-se da nova justiça do Reino, onde Jesus vai até às raízes mais profundas de nosso ser para ativar o amor ali presente; este amor, aberto, oblativo, gratuito..., é capaz de uma nova relação até com os inimigos, em profunda sintonia com o modo de agir do Pai, que ama a todos, bons e maus, pois todos são seus filhos e filhas.

Amar o nosso inimigo interior
Mas, quando Jesus fala em amar os inimigos, não se refere somente àqueles inimigos externos. As suas palavras referem-se também a um acontecimento interior. Quando o inimigo é uma força externa nem sempre há motivos para assumirmos a culpa. Mas quando o inimigo se encontra no nosso interior e nós não conseguimos entrar em acordo com ele, os responsáveis somos nós mesmos; precisamos saber lidar com as nossas sombras e fragilidades e, assim, reconciliar-nos com o inimigo interno que rejeitamos.

Reconciliar-nos com as nossas fraquezas e os nossos lados sombrios é um processo doloroso, mas, quando tentamos evitar essa dor e ignoramos o nosso adversário interior, acabamos por gastar muita energia na ilusão de o manter afastado.

E, se não chegarmos a um acordo com o inimigo no nosso interior, ele transformar-se-á num tirano que nos dominará; aquilo que rejeitamos em nós transforma-se num juiz interior e esse manter-nos-á confinados na prisão do nosso próprio medo e da auto-rejeição.

Amar é reconciliar
O nosso inimigo interior só se transformará em nosso amigo e ajudante no nosso caminho de vida se nos reconciliarmos com ele.

Ao oferecer-nos um gesto de perdão em vez de um gesto de repulsão ou de condenação, tornamo-nos mais humanos. Demonstramo-nos humanos com quem mais precisa de humanidade: nós mesmos.

É o momento da compaixão para connosco.

Misericordiosamente perfeito é o que ama
Diante da necessidade de reconciliação com as nossas sombras, fragilidades, limites e fracassos..., pode parecer estranho a afirmação final de Jesus no Evangelho de Mateus: «Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48).

São Lucas, no entanto, modifica as palavras de Jesus para escrever: «Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso.» (Lucas 6, 36)

Sem dúvida, esta expressão parece mais ajustada, inclusive por todo o contexto. E tem razão, porque não se pode exigir que o ser humano seja “perfeito”; não só não está ao seu alcance, mas esse requisito pode conduzi-lo a um perfecionismo estéril e esgotador.

A nossa cultura é controlada pela ideia de que o ser humano pode e deve ser “perfeito”.
Desde a nossa infância fomos impelidos a procurar a perfeição.

Anos e anos, essa ideia de “perfeição” foi modelando a nossa mente e petrificando o nosso coração.

Também na vida cristã, inúmeras pessoas e grupos religiosos nasceram e cresceram seguindo as pautas de formação do chamado “ideal de perfeição”, gerando muita rigidez, moralismos, culpabilidades, escrúpulos... e farisaísmo. O seguimento da pessoa de Jesus foi se esvaziando, dando lugar a um voluntarismo centrado na prática minuciosa de leis e normas (legalismo).

Esse conceito assumiu um valor central na compreensão e na orientação da nossa vida espiritual, reforçando-se a ideia de que tudo aquilo que diz respeito a Deus deve ser perfeito.

E a santidade passou a ser considerada como sinónimo de perfeição.

Sinais de que se caminha no labirinto desumano da perfeição
1. A expressão “atingir a perfeição” revela-se uma imprudência. A procura da perfeição não ajuda a pessoa a viver, a amar, a sonhar, a sorrir, a perdoar, a ser feliz...

2. Nas suas formas mais graves, a busca da perfeição é angustiante, conduz ao desprezo de si mesmo, torna insuportável a relação com os outros e pode conduzir à automutilação.

3. Quem tem sua vida centrada na busca da perfeição, aceitar o erro é uma tarefa muito humilhante e dificultosa. O facto de equivocar-se, longe de ser uma oportunidade, representa uma ameaça à sua dignidade. Para ele não basta ser bom, é preciso ser perfeito.

4. Isso não é vida. 

Devemos passar de um humanismo da “auto-exaltação” para um humanismo da “auto-acolhimento”
A compaixão afirma o “eu real” contra as pretensões do “eu ideal”.

A compaixão nos leva de volta à casa, revestindo-nos de uma atitude amorosa para connosco.

A compaixão oferece-nos inúmeras ocasiões para tratar-nos como amigos, em vez de nos tratar como estranhos ou inimigos.

Graças à compaixão, podemos levantar-nos depois de cada queda, abrir-nos novamente à presença da Graça de Deus, continuar a amar tudo aquilo que dentro e fora do nosso ser se apresenta sob as vestes do humano.

Assim, o discípulo de Jesus deve ser perfeito no Amor como o Pai celestial é perfeito no Amor. Ele ama a todos sem distinção.

Em outras palavras, a perfeição cristã é o convite a um amor que nunca se esgota; é o convite para aprender a perdoar como Deus perdoa e a amar como Deus ama.

Alguns exegetas interpretam que, em hebraico, a expressão “perfeito” faz alusão a algo “completo”. Nesse sentido, o apelo a ser “perfeitos” deve ser entendido como um chamado a aceitar-se em toda a sua verdade: «Aceita-te com toda a tua verdade, a tua luz e tua sombra, os teus acertos e erros, as tuas qualidades e defeitos...!»

Centro de Espiritualidade Loyola

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