A casa é igreja doméstica - a liturgia cristã nasceu numa atmosfera familiar, íntima e afetiva

É um facto relevante que a liturgia cristã nasça em casa, numa atmosfera familiar, íntima e afetiva.

A primeira igreja cristã foi a família de Nazaré: Maria, José e Jesus.

A última ceia de Jesus com os discípulos foi numa casa desejada: «Ide à cidade e virá ao vosso encontro um homem trazendo um cântaro de água. Segui-o, e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: O Mestre manda dizer: ‘Onde está a sala em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?’ Há de mostrar-vos uma grande sala no andar de cima, mobilada e toda pronta. Fazei aí os preparativos» (Marcos 14, 13-15)

Após a Páscoa e as primeiras perseguições, os discípulos reencontram-se no contexto hospitaleiro de uma casa e da família que a habita: «Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo» (At 2, 46-47).

É na casa de Maria, mãe de João, de sobrenome Marcos, que se recolheram em oração quando aí chega, de noite, Pedro, milagrosamente libertado do cárcere (cf. Atos 12, 12).

Deus é da casa
Na experiência cristã mais autêntica, Deus é de casa:
Fez-se homem;
opta por habitar fora das paredes do templo;
entra e habita na casa dos homens, almoça e ceia com eles;
partilha com os homens os espaços da quotidianidade;
vela quando eles dormem;
está com as crianças quando brincam;
acompanha os gestos e ofícios de cada dia, o trabalho, o estudo, os barulhos e os odores da cozinha.

Só um Deus que se fez homem pode escolher habitar fora das paredes do templo, na mesma casa do homem, na “profana” morada dos mortais. E será assim para sempre, porque está na natureza própria do cristianismo.

Casa, igreja doméstica
Que belo seria se voltassem as “domus ecclesiae”! A primeira estrutura da comunidade de que temos memória é a assembleia em casa, ou “igreja doméstica”, que no mundo romano assumirá o nome de “domus ecclesia”, literalmente “casa da comunidade”.

Que belo seria se voltassem as igrejas domésticas em cada bairro, em cada avenida, em cada condomínio, igrejas domésticas e familiares, íntimas e quentes, onde os amigos se encontram para escutar a Palavra, interceder pelo mundo, partir o pão em memória dele. A primeira comunidade cristã radicou-se na quotidianidade expressiva da casa.

Dali pode partir. Porque ali, onde a vida celebra a sua liturgia, respira o Senhor da vida.

O primeiro altar do mundo foi e é a mesa de casa. Durante os três primeiros séculos foram escolhidos edifícios bem mimetizados no tecido urbano, e na maior parte dos casos de dimensões modestas. Casas que do exterior pareciam habitações particulares normais, enquanto no interior compreendiam locais destinados ao Batismo, à Eucaristia, à preparação daqueles que iniciavam o caminho da fé.

Então, a primeira catedral não é aquela solene e monumental das cidades, mas é e permanece doméstica e familiar.

Ermes Ronchi, padre e teólogo italiano da Ordem dos Servos de Maria, em Messaggero di sant'Antonio

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