Parábola de Quaresma - Cada pessoa é uma casa

Cada pessoa é como uma casa. Tal e qual.

Há casas que são uma fachada. Atrás de um belo e suntuoso frontispício, escondem um interior e uns fundos miseráveis.

Em compensação, há pessoas de aparência rude, de mãos calejadas e rostos cheios de sulcos que, no entanto, ao se lhes penetrar no íntimo, revelam uma alma hospitaleira, repleta de bondade sincera e de celestial tranquilidade.

Há uns velhotes, baixinhos e atarracados, com o cabelo virado nas pontas que lembram essas mansardas coloniais de telhado de beira, com a sala de visitas atulhada de objetos antigos, alguns muito bonitos e bem trabalhados, mas que, atualmente, não têm a menor utilidade. Por exemplo: um castiçal de prata para velas de sebo, que ainda não tomou conhecimento da existência do mercado das lâmpadas fluorescentes.

Dois irmãos gémeos são dois prédios iguais, construídos pelo mesmo arquiteto, com o mesmo material.

Os irmãos siameses são dois prédios contíguos.

Um cidadão com mais de dois metros de altura é um arranha-céus.

Uma pessoa doente é uma casa avariada.

Uma pessoa com muitas doenças é um hospital.

O barbeiro é uma espécie de jardineiro, encarregado de podar as vegetações que nascem na frente da casa. Há barbas piores do que plantas gramíneas ou ervas daninhas.

Uma pessoa, uma casa. Várias pessoas, uma aldeia, uma vila ou cidade.

Uma pessoa que tem algumas amizades é uma pensão.

Uma pessoa muito amável é um hotel de luxo.

Uma pessoa fina é um bangalô, muito bem arranjadinho, com jardim (mas só acessível com reserva...)

Também há pessoas palácios...

Pessoas lugares abandonados...

E há pessoas armazém, que nos pagam o almoço.

E há (acrescentamos nós):

(Pessoas prisão...)

+ Pessoas defuntas +

^^ Pessoas Igreja ^^

Apparicio Torelly
jornalista, escritor e humorista político brasileiro (1895-1971)

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