«A
pandemia exigiu de todos uma redescoberta e valorização da vida
espiritual. Ouvimos tantas pessoas a destacar a importância dessa
dimensão da vida, para que pudessem viver um pouco melhor esse
momento. Para os seminaristas, a pandemia pediu e proporcionou um
processo de crescimento espiritual. Contudo, este crescimento só é
possível, através de um sincero e permanente esforço de conversão
do coração», comentam a psicóloga Dra. Luciana Campos e o padre
Douglas Alves Fontes, reitor do Seminário São José da Arquidiocese
de Niterói (Rio de Janeiro, Brasil.
Um
dos primeiros desafios, que a pandemia nos apresentou, foi:
permanecer com os seminaristas no Seminário ou enviá-los para outro
lugar? Este desafio, provavelmente, foi exigente para todos:
formandos, formadores e familiares. Na pesquisa, vimos que a maioria
(dos seminaristas brasileiros) foi para a casa das suas famílias
(62,2 %), e um segundo grande grupo permaneceu nos Seminários (25,6
%). Os restantes dividiram-se entre casas paroquiais, conventos e
alternando casa e seminário.
Família,
acolhimento e acompanhamento de vocações
O
Documento de Aparecida (n. 314), há mais de dez anos, recorda
que a Pastoral vocacional começa na família. Contudo, sabemos que
esta realidade não é tão simples como podemos pensar. Muitas
famílias, de facto, envolvem-se no processo formativo dos
seminaristas, às vezes até de maneira delicada.
A
Igreja sempre enfatizou a necessidade de uma participação ativa das
famílias no processo formativo dos futuros presbíteros. Já São
João Paulo II, na Pastores DaboVobis (n. 41), reconhecia a
importância da família, no acolhimento e formação das vocações.
Ela é considerada a primeira comunidade eclesial de formação dos
vocacionados (Doc. 110, n. 88). É um facto que muitas das
experiências familiares, vividas no seio da família, poderão
influenciar demais a caminhada vocacional dos futuros presbíteros.
Retomando
a Amoris Laetitia, a Ratio fundamentalis (n. 148)
recorda que «os laços familiares são fundamentais para fortificar
a autoestima sadia dos seminaristas. Por isso, é importante que as
famílias acompanhem todo o processo do Seminário e do sacerdócio,
pois ajudam a revigorá-lo de forma realista.»
Não
obstante, os formandos precisam de ser educados para uma experiência
de liberdade que favoreça uma «justa autonomia no exercício do
ministério, e um sadio distanciamento em face de eventuais
expectativas da respetiva família» (Ratio, 148). O formando é
chamado a não esquecer a sua origem, mas, ao mesmo tempo, a fazer um
caminho de independência.
Confinamento
na “família” do Seminário
Para
os seminaristas que ficaram no Seminário, sem dúvida, a pandemia
favoreceu um novo estilo de vida comunitária. Relações mais
próximas, uma rotina mais flexível, um ritmo de atividades mais
sereno, e outras características, são possíveis nessa nova
vivência de Seminário, no tempo da pandemia. Provavelmente, a
relação dos seminaristas entre eles, e com os formadores, pode
estar sendo bem vivida.
O
próprio autoconhecimento também pode ter sido uma conquista desse
tempo. Talvez, nessa nova vivência comunitária, formadores e
formandos puderam olhar-se e relacionar-se, de modo diverso do
quotidiano a que estávamos acostumados, antes da pandemia.
Provavelmente, a pandemia deu um tempero novo à vida comunitária,
mas deu também oportunidade de viver na comunidade de uma maneira
diferente, privilegiando o que é mais importante e necessário.
Análise
da experiência dos seminaristas
Diferentemente
do que muitos poderiam pensar, os seminaristas que responderam ao
questionário, em sua maioria, disseram que conseguiram ter
privacidade dentro da própria família (71 %). Este dado pode dizer
algo sobre a necessária independência do formando em relação a
sua família.
Porém,
estando em casa, outro desafio possível seria o enfrentamento dos
conflitos familiares. 42,6% responderam que tiveram que enfrentá-los.
Por um lado, foi apenas uma troca: os conflitos no Seminário foram
suspensos e chegaram os familiares. Neste sentido, podemos
questionar: os conflitos familiares foram causados pelos próprios
seminaristas ou, talvez, eles tenham sido os mediadores desses
conflitos? Essa experiência é de suma riqueza, para o processo
formativo, porque permite que os seminaristas sejam "colocados à
prova" para lidar com essas realidades que os tocam de maneira
significativa. Ao mesmo tempo, lhes dá a possibilidade de conhecer
sua família de maneira mais profunda e real.
Um
bom formando nunca pode esquecer-se da sua origem, da sua raiz
familiar. Contudo, infelizmente, sabemos que muitos optam por virar
uma página, de tal maneira que parece que "caíram do céu"
e chegaram ao Seminário. Vergonha? Medo? Raiva? Por tantos motivos,
muitos seminaristas ignoram ou tentam ignorar sua família. Aqui,
caberá sempre um olhar atento dos formadores, para perceber quando
esse facto está a ocorrer e ajudar o formando a perceber-se como
membro daquele núcleo familiar, e auxiliá-lo a lidar com essa
dificuldade, em relação à sua família.
Um
seminarista que não fala da sua família, não a visita, prefere
passar férias em outros lugares e não com a família, evita a vinda
desta ao Seminário, precisa do auxílio atento e delicado dos
formadores, para seu bem, hoje no Seminário e, amanhã, no
presbitério. Neste caso, voltar para casa na pandemia pode ter sido
um desafio para muitos, mas, para todos, foi uma oportunidade de
encontro com a sua história e com os seus.
Se
para muitos de nós, a pandemia favoreceu um estado de elevação da
ansiedade, a maioria dos seminaristas respondeu que o seu estado
emocional, nesse momento de pandemia, está normal (41,9 %). Não
obstante, um outro grupo percebeu-se levemente ansioso (33 %) e
(8,1%) muito ansioso. Poderíamos dizer que muitos conseguiram e
estão a conseguir lidar bem com as suas emoções, neste momento.
Mas e os que não o estão? "Perderam" muitos dos auxílios
ordinários da vida de Seminário. Não é um número pequeno e
inexpressivo, aquele que apresenta um quadro de ansiedade. Por isso,
talvez, a alimentação tenha sido uma das válvulas de escape. Ao
mesmo tempo em que (41,8 %) responderam que a alimentação está
boa, outros (11,3 %) destacaram que ela está exagerada.
Na
entrevista, (35,7 %) dos rapazes responderam que sentiam o peso da
solidão. A maioria (64,3 %) afirmou que não sentia. Poderíamos
elencar inúmeros motivos, pelos quais os seminaristas não sentiam o
peso da solidão. Porém, podemos também perguntar: não sentiram ou
não se davam o direito de sentir? É um facto que um dos nossos
desafios é perceber e lidar com os nossos sentimentos.
Uma
reflexão necessária para os formadores
Os
seminaristas que estavam a sentir o peso da solidão fazem-nos pensar
em duas questões centrais: como estão as relações pessoais dos
seminaristas? Tendo em vista que estão, na maioria, com as suas
famílias, como sentem o peso da solidão? Estão a saber conviver
com os seus e com os outros? Além disso, outra questão central
precisa de ser colocada: tendo em vista que a maioria dos que
responderam ao nosso questionário, foi dos seminários diocesanos,
como estão a lidar com a experiência do estar/viver sozinho?
Sabemos que uma característica do clero diocesano é uma vida bem
diversa da vida dos religiosos que vivem em comunidade. Talvez, essa
resposta nos faça pensar num dos desafios enfrentados pelos
diocesanos, que têm uma vida mais "solitária".
Outro
dado interessante, mas não novo, diz respeito ao uso das redes
sociais. Hoje, mais do que nunca, não nos é possível falar de
formação sacerdotal, desconsiderando esse dado. Se antes da
pandemia o uso das redes sociais estava na pauta de cada dia, o tempo
da pandemia colocou-nos diante de um desafio que não podemos deixar
de lado, porque faz e fará parte da vida formativa antes, durante e
depois do Seminário. Não podemos desconsiderar que estamos no
século xxi, os nossos
formandos, na sua maioria, nasceram neste século, e todos exercerão
o ministério neste século.
A
entrevista revelou que (36,7 %) dos seminaristas estavam a usar a
Internet para redes sociais. Estas são o pão nosso de cada dia, na
caminhada formativa. Contudo, ao mesmo tempo em que ela se torna um
necessário instrumento de evangelização, e assim deve ser, tem-se
tornado o palco de muitos conflitos e muitas questões formativas
que, talvez, não apareçam na vida ordinária e real, mas ficam
gritantes no mundo virtual.
Acompanhamos
não só os seminaristas, mas tantos padres e leigos redescobrindo as
redes sociais, neste tempo de pandemia. Contudo, sem desmerecer e
desconsiderar a busca por novas amizades, e um empenho sincero para
um profícuo apostolado, até que ponto essa busca desenfreada por
"estar nas redes" não está a dizer muito sobre os
candidatos ao presbiterado?
Da
mesma forma que constatamos uma busca significativa dos jovens, pelas
redes sociais, os seminaristas, em sua maioria, não fariam
diferente. Infelizmente, precisamos constatar que essas buscas,
muitas vezes, estão em desacordo com a vida "real" deles.
Além disso, é comum criar um mundo virtual que não seja condizente
com o real. É possível também reconhecer a busca de seguidores,
gostos e partilhas dos formandos, quase como se fossem novos artistas
e/ou youtubers. Mas esse seria o papel de um sacerdote e/ou futuro
sacerdote, nas redes sociais e na internet, em geral?
As
inúmeras lives que aparecem em todo canto e ao longo do dia podem,
no fundo, ser uma possível revelação de pessoas que não estão a
lidar bem com a solidão. Revestem o meio e o acesso com ótimas
intenções, mas escondem o verdadeiro sentido da busca: afeto. No
fundo, o que vemos e constatamos é um desejo ardente de afeto e de
reconhecimento. Tendo em vista que, no mundo virtual, aparece o que
queremos, muitos dos nossos formandos podem viver uma certa
esquizofrenia formativa. Caberá aos envolvidos na formação um
olhar atento e um acompanhamento cuidadoso, para fomentar o
autoconhecimento dos formandos e um verdadeiro amadurecimento da
liberdade e da responsabilidade.
Todos
esses dados nos fazem refletir e questionar o processo formativo! Por
isso, é preciso pensar e repensar a formação, sobretudo, atentos
aos sinais dos tempos!
Formação
continuada fora do seminário
"Jesus
desceu, então, com seus pais para Nazaré
E
Jesus ia crescendo em sabedoria,
estatura
e graça diante de Deus e dos homens."(Lc 2,51s)
Comecemos
a refletir sobre como as diferentes dimensões da formação
sacerdotal - humano-afetiva, espiritual, comunitária e intelectual -
foram trabalhadas neste período.
Um
aspeto importante, indicado nos questionários, refere-se a este
momento de profunda introspeção, propiciado pelo confinamento, e a
questão vocacional: 67,2% dos rapazes admitiram que repensaram a sua
vocação neste período. O que isto significa? Poderemos contemplar
este dado como uma fragilidade vocacional, ou como percurso natural,
diante de um tempo apartado do quotidiano formativo no interior do
Seminário? E teria este quesito ligação com a qualidade da relação
com Deus, apontada como ótima, por um quantitativo de apenas 16,4 %?
Como
poderia o diretor espiritual estar a mediar este momento desafiador
para os seminaristas? Apenas 30,8% dos rapazes continuaram a contar
com o acompanhamento espiritual online, ao passo que 69,2% ficaram
sem esta possibilidade, ressaltando que este é um percentual muito
próximo dos que admitiram questionar a sua vocação. Estes dados
possuem potencial para nos arguir sobre o quanto a mediação de um
sacerdote experiente pode impactar um jovem formando na sua
caminhada. Talvez, forçosamente, nos perguntemos se antes mesmo da
pandemia este acompanhamento ocorria com a frequência e a
efetividade necessárias. Por outro lado, quando indagados sobre a
presença dos formadores neste período, as respostas são mais
animadoras, pois a maioria dos rapazes (89 %) foram contactados pelos
formadores, para interação social (25,6 %) e também para a
continuidade do trabalho formativo (74,4 %).
É
preciso reconhecer que as dificuldades na vida de um vocacionado ao
sacerdócio não se resumem ao tempo do Seminário, uma vez que
antes, durante e depois, os vocacionados ao presbiterado lidam com
inúmeros desafios e dificuldades. Vale lembrar que outras vocações
também têm as suas. Porém, a resposta sobre o repensar a vocação
também nos faz pensar até que ponto os seminaristas têm raízes
firmes e um alicerce sólido, sobre os quais "edificarão"
os seus ministérios. De facto, a pandemia é algo totalmente novo e
questionador, mas outros desafios ainda virão.
É
sempre necessário auxiliar os vocacionados a terem, cada vez mais
claro, o motivo pelo qual deixaram suas famílias, ingressaram no
Seminário, nele permanecem e dele partirão, para seguir outro
caminho ou assumir o ministério sacerdotal. Muitas vezes, o que
ocorre é que as motivações vocacionais são superficiais,
ilusórias e inconstantes. Contudo, é sempre possível depurar, para
chegar no seu essencial, no seu núcleo sólido, mesmo que tantas
camadas apareçam cobrindo o núcleo central do chamado vocacional.
Caberá, aos formadores, oferecer um auxílio constante e sereno,
para que os formandos façam o seu caminho de discernimento!
Já
o dado da direção espiritual parece fazer ecoar um dado percebido
na vida presbiteral. Infelizmente, é percetível um hiato, entre a
rotina da direção espiritual e a vida sacerdotal. Sem querer
minimizar os desafios da pandemia, essa resposta dos seminaristas não
estará apontando para o que vemos no presbitério e continuaremos a
ver? Por outro lado, o valor da direção espiritual talvez não
esteja ainda internalizado e assumido pelos formandos. O que acontece
durante a pandemia pode ser o mesmo que acontece no período de
férias: a direção espiritual fica em segundo plano.
Os
formandos precisam aprender o valor do abrir o coração, com
sinceridade, a um irmão mais velho, no mesmo caminho discipular. Às
vezes, a direção será um falar diante do espelho, fazer ecoar o
que está dentro de si. Desta maneira, muitas questões vão se
apaziguando. Quando um jovem formando deixa a direção, vai
permitindo que suas questões cresçam dentro dele e podem,
futuramente, causar sérios danos. Contudo, se ele tivesse aberto o
coração, na direção, estaria a preservar-se de tantos problemas
futuros. O que acontece é que a direção esquecida será retomada,
quando a coisa estiver complicada. Aí, talvez, já seja tarde
demais! Dizia um velho e sábio diretor espiritual: «Mesmo quando
você não tiver nada a dizer, venha, porque eu tenho.»
Ao
serem questionados sobre as maiores dificuldades, neste momento, as
respostas são bem difusas e plurais: dificuldades para manter a
rotina de orações (32,5 %) aparecem seguidas de dificuldades pela
falta de contatos sociais (22,1%), de manutenção da castidade
(11,1%), por falta de direção espiritual (10,5%), dificuldades de
assistir à missa online (7%), entre outros fatores. Outro desafio no
momento, refere-se à perda de entes queridos: (14,6%) perderam algum
ente próximo e deste quantitativo, (31,9%) vêm demonstrando
dificuldades em elaborar o luto.
Sobre
o luto, sabemos o quão desafiador é lidar com ele. Porém, é
importante que os seminaristas aprendam cada vez mais a lidar com
essa experiência, porque será uma constante na vida ministerial.
Não só o próprio seminarista, e o futuro presbítero lidam, com
frequência com o luto, mas precisarão auxiliar muitos a lidar com
essa experiência. Neste contexto, se faz necessário iluminar o luto
com a luz da fé. O presbítero é aquele que se alegra com os que se
alegram, e chora com os que choram (Rm 12,14s), muitas vezes, no
mesmo dia.
Em
relação à rotina das orações, elencada como a maior dificuldade,
pode ser a mesma experiência vivida por muitos, nos períodos de
férias. É claro que manter uma rotina espiritual dentro de uma
casa, com uma família que talvez não valorize tanto o que está
tentando ser mantido, é sempre um desafio. Porém, a ausência da
estrutura do Seminário pode também revelar uma vida espiritual de
fachada, que não se mantém sem a comunidade, sem o sino, a capela
e, sobretudo, sem os formadores. Tudo isso precisa ser refletido,
para que os formandos reconheçam a importância e a necessidade de
uma vida espiritual sólida, disciplinada e bem vivida, como uma
realidade necessária para a vida vocacional e não tanto como um
dever que parecerá mera obrigação.
Como
itens positivos, propiciados pelo momento, destacam-se a
possibilidade de aproveitar o contato estreito com a família
(29,4%), a descoberta de novas habilidades (23%), o aumento da
espiritualidade (22,4%) e da qualidade dos estudos (12,7%), como
principais ganhos.
Aqui,
percebemos dados importantíssimos! Como essa "redescoberta"
das famílias pode ser muito produtiva. É a volta às origens, e um
contato próximo e real daqueles que são responsáveis pela
existência de todo vocacionado. Este contato facilita a humanização
do futuro presbítero, que lidará com as famílias e suas questões,
ao longo de todo o seu ministério sacerdotal. O contato estreito com
a família, nestes meses, também pode ter possibilitado um
conhecimento mais profundo sobre si mesmo.
Da
mesma maneira, a oportunidade de descobrir novas habilidades mostra o
quanto todos nós precisamos nos reinventar. Como Igreja, esse é
sempre um desafio que toca no exercício da nossa missão. É não se
contentar com a formação inicial e reconhecer a formação
permanente como necessidade para o bom e frutuoso desempenho do
ministério sacerdotal, no meio de um mundo que se transforma da
noite para o dia. O formando, que já se fecha a essas mudanças,
está fadado a viver seu ministério em uma bolha, que ele próprio
está construindo e que estourará quando menos pensar.
Se a
dimensão espiritual e humano-afetiva ganhou novos contornos, como
será que a dimensão intelectual caminhou nestes tempos? Esta tem
sido parte da pauta da mídia, sobre como os sistemas educacionais
tiveram, rapidamente, que dar uma resposta de ensino a distância
(EAD), sem o devido preparo e muitas vezes, sem condição, por parte
dos estudantes, de corresponderem às novas demandas educativas, pois
ainda que o professor tenha meios de oferecer seu curso, o estudante,
muitas vezes, não conta com os equipamentos físicos necessários,
nem com conexões, tampouco com espaço adequado para a realização
das atividades.
A
maior parte dos seminaristas brasileiros relataram que deram
continuidade aos seus estudos, neste período, de modo remoto
(86,7%), contrastando com um número menor que não tiveram
oportunidade de fazê-lo (13,3%). A qualidade desta nova modalidade
de ensino foi considerada ótima, por um pequeno grupo (12,1%), boa,
por (38,7%), mediana, para (36,6%) e, finalmente, avaliada como ruim,
por (12,6%) dos rapazes. Um dado importante é sobre a percepção de
que há uma atuação sistemática, por parte da coordenação
pedagógica, em seus institutos formativos. Neste quesito, (41,4%)
têm a percepção de organicidade pedagógica dando corpo ao
processo formativo, enquanto (32,4%) sentem falta da mesma, o que
propicia, a cada professor, funcionar de modo independente e
desarticulado. (13,1%) dos rapazes foi contatado pela parte
pedagógica do Seminário, para verificar se possuíam os meios de
realizar as aulas, enquanto o mesmo percentual (13, 1%) relatou que
não houve nenhum contato e verificação neste sentido. No tocante
aos procedimentos avaliativos remotos, a maior parte (43,3%) disse
que tais procedimentos foram encaminhados de modo independente pelos
professores,ocorreram de modo padronizado em plataforma específica
(24,9%),e não fizeram avaliações (20,2%).
Diante
de tudo isso, vale ressaltar que a Ratio Fundamentalis, no capítulo
VI, fala dos agentes da formação: o bispo diocesano, o presbitério,
os seminaristas, a comunidade dos formadores, os professores e os
especialistas. A Igreja quer destacar a importância de todos se
envolverem no processo formativo do futuro clero. Em tempo de
pandemia, esse dado é mais do que nunca ressaltado. Os desafios
enfrentados no processo formativo nos fazem pensar na necessidade de
um trabalho, verdadeiramente, eclesial e colegiado, de tal maneira
que o resultado possa ser muito mais proveitoso. É sempre um erro
constante restringir a missão de formar aos presbíteros residentes
no Seminário. Estes não são os únicos responsáveis pela formação
do futuro clero!
Na
pesquisa que realizamos, ao mesmo tempo em que (72,6%) responderam
que não estavam fazendo qualquer acompanhamento, (21,7%) estavam
fazendo acompanhamento: psicológico, nutricional, psiquiátrico e
fonoaudiológico. Essa constatação nos mostra a riqueza de um
processo formativo interdisciplinar, como a Ratio nos propõe (n.
145). Tudo isso também nos aponta para outro dado, que temos
encontrado cada vez com mais claridade: a situação dos nossos
formandos do século XXI, que exige um cuidado ampliado e profundo,
por parte dos envolvidos na missão de formar os futuros presbíteros.
Um
último dado que podemos destacar da pesquisa é o que diz respeito
às relações. O presbítero é um homem de relações a exemplo do
próprio Jesus, ao qual ele será configurado, não através de um
passe de mágica, mas através de uma formação séria e profunda. A
exemplo do Mestre, o presbítero sabe que sua vida é marcada por uma
tríplice relação: consigo, com Deus e com os outros. Nem sempre a
vivência dessa dinâmica relacional é tão simples e, por isso, bem
vivida. Os formandos precisam investir nesse campo central da vocação
sacerdotal.
Dos
seminaristas participantes, (53,5%) responderam que se sentiam bem,
na relação com eles mesmos, enquanto (30,6)% disseram que se
sentiam regulares, nessa relação. (8,2%) disseram que essa relação
estava ruim. Já na relação com Deus, (43,7%) responderam que
estavam vivendo uma boa relação, enquanto (32,1%) disseram que era
uma relação regular. Na relação social, (45,9%) disseram que
viviam uma boa relação e (36,4%) viviam uma relação regular.
Tudo
isso nos faz pensar e reconhecer o presbítero e, por isso, os
candidatos ao presbiterado como homens de relação. Contudo, essa
dinâmica relacional na vida presbiteral precisa partir de uma
relação profunda e verdadeira, consigo e com Deus, para que as
relações com os outros sejam maduras e responsáveis. Além disso,
os formandos e, sobretudo, os presbíteros, precisam ter consciência
da necessidade de uma reserva nas relações, de tal maneira que a
relação consigo e com Deus seja preservada e bem vivida. A pandemia
pode, também, nos fazer pensar esse quadro de relações que, para
muitos, é um desafio, por não ter contato direto com o povo. Porém,
essa ausência é importante e necessária, para os presbíteros e,
por isso, para os seminaristas.
Luzes
para o pós-pandemia
"Tudo
concorre para o bem dos que amam a Deus" (Rm 8,28)
Todos
nós já vimos imagens de flores nascidas em cenários bem curiosos:
pedras, troncos cortados, paredes… Cenários onde todos defenderiam
o fim da vida e, por isso, o fim da esperança. Contudo, a vida
continua desabrochando e nos convidando a acreditar e esperar. A
pandemia pede de nós a superação de um otimismo utópico, ou um
realismo pessimista, para darmos lugar a um realismo esperançoso. O
contexto da pandemia nos motiva a reconhecer que todos podemos sair
melhores dessa experiência, que afetou toda a humanidade. A formação
sacerdotal não pode estar fora desse palco!
Ao
concluirmos este percurso que fizemos, a partir da pesquisa, com 2000
seminaristas do Brasil, queremos destacar algumas luzes que a
pandemia nos convida a enxergar e assumir, na continuidade da nossa
história como homens e mulheres de fé!
A
primeira luz que encontramos é uma experiência de maturidade, que a
pandemia está nos pedindo. Um contexto, como este, pede presbíteros
maduros e, por consequência, formandos que se empenham por uma
maturidade humana e também espiritual. O Doc. 110 (n. 173) nos
lembra que o cultivo da vida comunitária faz com que o formando
alcance alguns objetivos, dentre eles, "definir-se como cristão
adulto, purificando-se nas motivações e transformando a própria
conduta, com vista a uma progressiva configuração a Cristo."
Outra
luz que a pandemia está nos oferecendo, sobretudo aos formandos, é
a possibilidade de uma relação mais profunda conosco, favorecendo o
autoconhecimento, de tal maneira que o formando alcance "um
satisfatório conhecimento das próprias fraquezas, sempre presentes
em sua personalidade, tendo em vista a capacidade de autodeterminação
e de uma vivência responsável." (Doc. 110, n. 190b) Contudo,
isso só será possível se os formandos superarem a tentação de
uma vida exibicionista, que tende ao exterior, à aparência e pouco
ao interior.
Neste
mesmo caminho, a pandemia ofereceu a todos e, particularmente, aos
nossos formandos, um contato muito próximo das famílias.
Principalmente, isso ocorreu, como vimos na entrevista, porque a
maioria dos seminaristas está passando a pandemia nas casas de suas
famílias. Este contato pode ter sido muito proveitoso, para que os
formandos consigam "relacionar-se, com sinceridade, com a
própria família, sem apegos e dependências, nem rejeições e
descompromissos, e sem perder as raízes sociais e culturais."
(Doc. 110, 190g)
Ao
mesmo tempo em que descobrimos um novo mundo virtual, com a pandemia,
muitos podem ter se refugiado nesse mesmo mundo. Para o formando, é
sempre importante uma consciência clara sobre si mesmo e sua
vocação, para que não se perca no mundo virtual. Uma postura
equilibrada pedirá, a cada formando, uma presença evangélica nas
redes sociais, e não uma presença como mais um refém do mundo
virtual, em detrimento do real. Da mesma forma, os formandos também
são chamados a não se omitir nesse novo campo de evangelização,
que se descortina diante de nossos olhos. Por isso, é preciso
"educar-se no uso adequado e responsável das novas tecnologias
e dos meios modernos de comunicação e entretenimento." (Doc.
110, n. 190p)
A
pandemia exigiu de todos uma redescoberta e valorização da vida
espiritual. Ouvimos tantas pessoas destacando a importância dessa
dimensão da vida, para que pudessem viver um pouco melhor esse
momento. Para os seminaristas, a pandemia pediu e proporcionou um
processo de crescimento espiritual. Contudo, este crescimento só é
possível, através de um sincero e permanente esforço de conversão
do coração. Ao mesmo tempo, só uma disciplina responsável
possibilitará uma vivência profundamente espiritual, mesmo em
tempos de crise, como o atual (Doc. 110, n. 211).
O
mundo em que estamos pede, cada vez mais, que o presbítero seja
perito nas coisas humanas e divinas (Doc. 110, n. 288). A pandemia
pediu um constante adaptar-se em inúmeros campos, dentre eles o
campo dos estudos. Uma formação intelectual sólida e adequada,
para que o futuro presbítero seja capaz de ser um formador de
consciência, como pedia Aparecida. Esse novo ambiente mostrou, aos
formandos, a necessidade de uma disciplina e um empenho cada vez mais
pessoal, para se dedicar com seriedade e profundamente aos estudos.
Todo
esse contexto que estamos vendo nos faz pensar que, de fato, toda
formação sacerdotal precisa ter claro o destino pastoral do futuro
presbítero. Dessa maneira, a pandemia nos colocou diante dos grandes
areópagos, para os quais os futuros presbíteros serão enviados.
Assim, esse tempo pode proporcionar, aos formandos, novo ardor, novos
métodos e novas expressões (Doc. 110, pn. 229)
Por
último, podemos pontuar que a pandemia nos fez recordar que "a
missão do Seminário é formar presbíteros capazes de dialogar com
a realidade plural e atuar, pastoralmente, no meio do povo,
valorizando os leigos e leigas em seus diversos carismas, serviços e
ministérios." Só assim os formandos poderão conhecer bem a
realidade para assumi-la e transformá-la à luz do Evangelho. (Doc.
110, n. 7)
Que
esse tempo seja, para todos nós, a oportunidade de nos reinventarmos
à luz da presença amorosa de Deus, para sermos capazes de nos
tornar sinais credíveis da Sua presença no meio do Seu povo, que é
confiado a nós!
Que
a pandemia nos cure de tantas doenças que nos impedem de vivermos
nossa missão eclesial no coração do mundo! Que assim nos
empenhemos, com muito mais ardor, para que a formação sacerdotal
possa gerar novos e bons presbíteros, verdadeiros homens de Deus,
capazes de se compadecer do nosso povo e ter a consciência de serem
servidores à luz do Mestre, que veio para servir e não ser servido
(Mt 20,28)!
Que
o pós-pandemia não nos encontre como se nada tivesse acontecido;
não permita que continuemos da mesma forma, mas nos empenhemos para
ser melhores, criativos, valorizando as coisas essenciais,
enraizando-nos cada vez mais n'Aquele que nos chamou, nos formou e
nos envia à missão! Todo esse caminho só será possível se
corrermos, no certame que nos é proposto, "tendo os olhos fitos
em Jesus, autor e consumador da nossa fé."(Hb 12,2)
"'Porque
sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?' O início da fé é
reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes,
sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores,
das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida.
Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a
bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há
naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem
tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas
tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais."
(Homilia
do Papa Francisco, Praça de S. Pedro, 27/03/2020)
"Como
padres, filhos e membros de um povo sacerdotal, temos que assumir a
responsabilidade pelo futuro e projetá-lo como irmãos. Coloquemos
nas mãos feridas do Senhor, como uma oferta sagrada, nossa própria
fragilidade, a fragilidade de nosso povo, e de toda a humanidade. O
Senhor é quem nos transforma, que nos trata como pão, leva a vida
nas mãos d'Ele, nos abençoa, nos quebra e nos compartilha, e nos dá
ao seu povo."
(Carta
do Papa Francisco aos sacerdotes da Diocese de Roma, 31/05/2020)
Referências
bibliográficas
CNBB.
Diretrizes para a formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil.
Doc. 110. Brasília: Edições CNBB, 2019.
CONGREGAÇÃO
PARA O CLERO. RatioFundamentalisInstitutionisSacerdotalis. Brasília:
Edições CNBB,2016.
FERNANDEZ-CARVAJAL,
Francisco. A quem pedir conselho?. São Paulo: Quadrante, 2000.
FRANCISCO,
PP. Vida após a Pandemia. Roma: LibreriaEditrice Vaticana, 2020.
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Extraordinário de Oração, em tempo de epidemia, presidido pelo
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05/06/2020.

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