Entrevista
com D. Georg Bätzing, 59 anos, presidente da Conferência Episcopal
Alemã, publicada em La Repubblica, em 14 de junho.
Eleito
há poucos meses presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha,
substituindo o cardeal Reinhard Marx, D. Georg Bätzing, bispo de
Limburgo, fala ao La Repubblica sobre as reformas levadas em
frente pela Igreja do seu país, a relação com Roma, o papel dos
leigos e das mulheres, as feridas da pedofilia, até o tema mais
candente, o celibato sacerdotal e, ao mesmo tempo, a constatação de
que «não seria prejudicial à Igreja se também houvesse sacerdotes
casados».
Excelência,
nos últimos meses, a imprensa escreveu que a Igreja na Alemanha quer
realizar reformas que Roma ainda não consegue assumir. É isso? A
Igreja alemã viaja em uma velocidade diferente de Roma?
Somos
gratos pela vivacidade do compromisso das nossas comunidades e
associações, seja a nível diocesano, seja a nível nacional,
especialmente agora, em tempos de coronavírus. Como Igreja Católica
na Alemanha, há um ano, decidimos fazer o Caminho Sinodal, que já
começámos: bispos, sacerdotes e leigos. Queremos perguntar-nos e
buscar aquilo que Deus tem a dizer-nos neste tempo, como podemos
tornar a nossa Igreja próxima das pessoas e ao serviço da vida.
Muitos assuntos também são urgentes em outros países. Então,
levamos as nossas reflexões para Roma. Mas não haverá um caminho
alemão especial, pois nós compreendemo-nos como parte da Igreja
universal, assim como somos uma Igreja particular para Roma. Uma
pressupõe a outra, e vice-versa.
A
Igreja ainda parece ter uma visão muito clerical. Os leigos ainda
são sempre vistos como secundários, e, no fim das contas, tudo
permanece nas mãos da hierarquia. Que novos passos ela propõe a
esse respeito?
Na
Alemanha, há décadas, há um bom relacionamento entre sacerdotes e
leigos. Os leigos estão representados no catolicismo alemão há
mais de 150 anos. Desde o Sínodo de Würzburg, um dia após o
Concílio Vaticano II, existe uma “conferência conjunta” que
reúne bispos e representantes dos leigos duas vezes por ano. O
Caminho Sinodal foi decidido pelos bispos e pelos representantes dos
leigos, e acho que há aí uma boa colaboração. Ela não está
isenta de debates controversos, mas é sempre marcada por uma grande
estima.
O
Sínodo sobre a Amazónia propôs a possibilidade de ordenar viri
probati, homens casados mais
velhos para aqueles lugares onde não há vocações. O senhor acha
essa estrada viável? Porque abolir a obrigatoriedade do celibato
sacerdotal? Que soluções o senhor vê para essa questão na
Alemanha e que poderiam ser adotadas?
A
abolição do celibato não está em questão. Isso é uma
simplificação excessiva. O Papa Francisco afirmou claramente que
permanecerá fiel ao celibato. E há muitas boas razões para isso.
Mas, junto com a sua reflexão pessoal sobre o Sínodo da Amazónia,
ele também publicou o documento oficial conclusivo desse Sínodo. Lá
se encontra uma indicação de que, na situação específica da
Amazónia, o serviço do sacerdote às pessoas deve ser mais
importante do que a forma de vida. Eu concordo com isso, embora,
pessoalmente, acredite que uma forma de vida completamente centrada
em Deus, completamente a disposição é preciosa. Viver isso também
é um sinal para hoje. No entanto, não me parece que seria
prejudicial para a Igreja se também houvesse sacerdotes casados.
Pelo contrário.
Mas
seria uma grande perda para a Igreja se houvesse apenas sacerdotes
casados e não mais aqueles que escolhem o celibato. Se se deixasse a
liberdade aos sacerdotes, seria compreensível o desdobramento que se
teria. Mas seria importante tornar atraentes ambas formas. A vida
celibatária não é uma vida em solidão, mas, a seu modo, é uma
vida rica em relações, que, todavia, são diferentes de um
relacionamento íntimo. Os sacerdotes costumam estar tão envolvidos
na pastoral e vivem tão longe uns dos outros que se tornou quase
impossível na quotidianidade que se encontrem, rezem juntos, debatam
e, assim, se apoiem reciprocamente.
A
Igreja fala sempre na defesa das mulheres, mas depois permanece
autocentrada e estruturada de modo muito masculino e hierárquico.
Porquê o sacerdócio feminino assusta tanto?
Não
é uma questão de medo. Vários papas explicaram e enfatizaram que o
acesso das mulheres ao sacerdócio não pode ser decidido pela
Igreja. E o Papa Francisco não é exceção. Na Igreja Católica, o
magistério do colégio episcopal “cum Petro et sub Petro” é a
instância decisória. Mas isso não significa que não se possa
continuar a falar sobre o tema da ordenação das mulheres. Porque é
uma demanda presente na própria Igreja! Entre o povo de Deus, as
razões do “não” à ordenação das mulheres geralmente deixaram
de ser aceites. Precisamente por isso, sou muito favorável que sejam
transferidos para Roma, no nível da Igreja universal, os
conhecimentos e as resoluções que reuniremos ao longo do Caminho
Sinodal da Igreja na Alemanha, também no que diz respeito ao papel
das mulheres e aos ministérios. Acredito que aquilo que é
expressado sinodalmente também deve ser esclarecido e encontrar uma
resposta sinodal, não simplesmente a resposta de um dicastério
romano! Eu tenho confiança nisso. Essa é a novidade que ganhou
força com o Papa Francisco.

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