O padre Tiago Freitas (na foto, do Diário do Minho), da Arquidiocese de Braga, autor de uma tese de doutoramento sobre novos modelos de paróquias, considera que o novo documento do Vaticano sobre o tema é uma oportunidade perdida, falhando pela falta de atenção aos desafios da evangelização.
A Instrução “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja” foi publicada a 27 de julho de 2020 pela Congregação para o Clero (Santa Sé).
Em declarações à Agência Ecclesia, o padre Tiago Freitas, autor da tese “Colégio de Paróquias – Um proto-modelo crítico para a paróquia da Europa Ocidental em tempo de mobilidade”, diz que o novo documento é «muito técnico, muito formal, sobre aspetos muito concretos, centrado no Direito Canónico» e foi recebido com «surpresa» por diversos responsáveis católicos.
O Padre Tiago Freitas questiona persistência do modelo centrado no padre e falta de atenção aos desafios da evangelização.
O novo documento sublinha o papel central do padre, na paróquia, e rejeita que leigos ou diáconos possam «presidir à comunidade paroquial», por considerar que essa missão compete ao pároco.
Para o padre Tiago Freitas, «não há razão objetiva para que os leigos não possam cooperar ou participar num real governo das paróquias».
A Instrução surge como síntese de documentos de 2002 e 1997, com mais de 20 anos, apresentando como “modelo ideal um pároco com uma paróquia”.
O entrevistado entende que esta é uma “resposta clara” da Santa Sé ao que acontece neste momento na Alemanha, onde a Igreja Católica vive uma caminhada sinodal e que está a “assustar a Cúria Romana”, com mulheres em cargos diretivos nas dioceses alemãs.
“Não há razão objetiva para que os leigos não possam cooperar ou participar num real governo das paróquias”, aponta.
Outro cenário é o da Suíça, onde equipas de leigos têm a responsabilidade de “governar” a paróquia.
“Aí sim, pode ser discutível se o pároco não é transformado numa espécie de capelão, uma espécie de funcionário. Esse é outro risco, onde se põe em causa o múnus de ser pastor”, sublinha o padre Tiago Freitas.
Para o especialista, há um conjunto de experiências, sobretudo na Europa, a que a Santa Sé quer “pôr travão”.
“Não se têm em conta sequer os próprios pressupostos da Instrução, que é a transformação da sociedade e da Cultura em que vivemos”, acrescenta.
O novo documento sublinha o papel central do padre, na paróquia, e rejeita que leigos ou diáconos possam “presidir à comunidade paroquial”, por considerar que essa missão compete ao pároco.
“O único foco que aqui vejo é a figura do pároco e a liderança nas paróquias”, assinala o padre Tiago Freitas, deixando de lado qualquer forma de “empoderamento” dos leigos ou de “governo colegial”.
O sacerdote entende que o documento tinha bons pressupostos, ao aludir à “irrelevância do critério territorial” da paróquia, a começar pelos próprios fiéis, e à necessidade de “reforma de estruturas” e conversão “missionária”.
“Estes são os pressupostos. O problema é que depois, entrando no documento, não há nada de novo senão a reafirmação de tudo o que está em vigor, neste momento”, prossegue.
Para o especialista, o caminho das Unidades Pastorais deve ter “as motivações corretas”, considerando que “a Igreja em Portugal tem trilhado o caminho sugerido” pela Congregação para o Clero.
O padre Tiago Freitas sustenta que a prioridade deveria ser dar resposta ao “problema maior” das paróquias, que é a queda do número de cristãos, de pessoas comprometidas, projetando também os desafios do pós-pandemia.
“A forma de anúncio, a urgência de um primeiro anúncio, as modalidades de anunciar Jesus Cristo. Isto é que é uma paróquia evangelizadora”, elenca.
O entrevistado questiona ainda que se apresentem como modelos para as paróquias os santuários, que são, “por definição, locais fixos, imóveis, a que os peregrinos vão ter”.
“A Igreja missionária é a Igreja que sai de si”, observa.
Em conclusão, o padre Tiago Freitas defende que este é “um documento técnico que está destinado ao esquecimento”.
Texto Octávio Carmo, Ecclesia

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