É difícil não sentir desconcerto e mal-estar ao ouvir as
palavras de Jesus: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua
cruz e siga-Me» (Mt 16, 24). Entendemos muito bem a reação de Pedro que, ao ouvir Jesus
falar de rejeição e sofrimento, O chama à parte e se põe a censurá-lo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!» Diz o
teólogo mártir, Dietrich Bonhoeffer, que esta reação de Pedro «prova que, desde
o princípio, a Igreja se escandalizou com o Cristo sofredor. Ela não quer que o
seu Senhor lhe imponha a lei do sofrimento».
Este escândalo pode tornar-se hoje insuportável para nós que
vivemos no que Leszek Kolakowsky (filósofo e historiador polaco) chama «a
cultura de analgésicos», essa sociedade obcecada por eliminar o sofrimento e
mal-estar por meio de todo tipo de drogas, narcóticos e evasões.
Em que consiste a cruz para o cristão?
Se quisermos esclarecer qual deve ser a atitude cristã,
temos de compreender bem em que consiste a cruz para o cristão, pois pode
acontecer que nós a ponhamos onde Jesus nunca a pôs.
Facilmente chamamos “cruz” a tudo aquilo que nos faz sofrer,
inclusive esse sofrimento que aparece na nossa vida, gerado pelo nosso próprio
pecado, ou pela nossa maneira equivocada de viver. Mas não devemos confundir a
cruz com qualquer desgraça, contrariedade ou mal-estar que acontece na vida.
A cruz é outra coisa
Jesus chama os seus discípulos a segui-Lo fielmente e colocar-se
ao serviço de um mundo mais humano: o Reino de Deus. Isto é o principal. A cruz
é apenas o sofrimento que nos virá como consequência desse seguimento; o
destino doloroso que teremos de partilhar com Cristo, se seguirmos realmente os
seus passos. Por isso não devemos confundir o “carregar a cruz” com posturas
masoquistas, uma falsa mortificação, ou o que Paul Nikolaevich Evdokimov, teólogo
cristão ortodoxo, chama «ascetismo barato» e individualista.
Por outro lado, devemos entender corretamente o «renunciar a
si mesmo», condição que Jesus pede para carregar a cruz e segui-Lo. «Renunciar
a si mesmo» não significa mortificar--se de qualquer maneira, castigar-se a si
mesmo e, menos ainda, anular-se ou autodestruir--se. «Negar-se a si mesmo» é não
viver dependente de si próprio, esquecer-se do próprio «ego», para construir a
vida sobre Jesus Cristo. Libertar-nos de nós mesmos para aderir radicalmente a
Ele. Por outras palavras, «carregar a cruz» significa seguir a Jesus dispostos
a assumir a insegurança, a conflituosidade, a rejeição ou a perseguição que o
próprio Crucificado teve de padecer.
Mas nós crentes não vivemos a cruz como derrotados, mas como
portadores de uma esperança final. Todo aquele que perde a sua vida por Jesus
Cristo encontrá-la-á. O Deus que ressuscitou Jesus nos ressuscitará também para
uma vida plena.

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