Uma prosperidade que inclua todos, a centralidade dos bens
comuns, a mudança nas regras dos mercados financeiros, a produção de valor
social. Esses são alguns pontos concretos sugeridos pelo economista Stefano
Zamagni, presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais.
A família, indica Stefano Zamagni, está especialmente no
centro dessa transformação porque "é a primeira economia. Se esquecermos
isso, perdemos a oportunidade de entender uma das principais forças de
transformação da estrutura atual".
As desigualdades sociais, agravadas pela pandemia e pela
indiferença aos danos infligidos à Criação, são um teste decisivo para esta
situação. O Papa Francisco abriu um novo ciclo catequético intitulado “Curar o
mundo”…
O Papa quer curar o atual modelo económico da sua doença. O
Papa é a favor de uma ordem de mercado que, porém, não ‘sinta’ as duas
principais doenças mencionadas. Esta transformação a partir de dentro é
possível hoje, operando em várias frentes que, no entanto, devem ser
convergentes. Até recentemente, pensava-se que seria suficiente aumentar a
riqueza, aumentar a renda nacional, porque assim tudo ficaria bem. Vimos o que
aconteceu: a renda aumentou em nível global, mas, ao mesmo tempo, as
desigualdades aumentaram. Portanto, aqui está o primeiro ponto: a proposta do
Papa é aquela da prosperidade inclusiva, que inclui todos. A segunda é garantir
a harmonia entre o equilíbrio ecológico e o equilíbrio interior. No número dez
da Laudato si’, o Papa fala de ‘paz interior’...
O Papa quer curar o atual modelo económico da sua doença. O
Papa é a favor de uma ordem de mercado que, porém, não ‘sinta’ as duas
principais doenças mencionadas. Esta transformação a partir de dentro é
possível hoje, operando em várias frentes que, no entanto, devem ser
convergentes. Até recentemente, pensava-se que seria suficiente aumentar a
riqueza, aumentar a renda nacional, porque assim tudo ficaria bem. Vimos o que
aconteceu: a renda aumentou em nível global, mas, ao mesmo tempo, as
desigualdades aumentaram. Portanto, aqui está o primeiro ponto: a proposta do
Papa é aquela da prosperidade inclusiva, que inclui todos. A segunda é garantir
a harmonia entre o equilíbrio ecológico e o equilíbrio interior. No número dez
da Laudato si’, o Papa fala de ‘paz interior’...
Na sua opinião, como essas distorções podem ser atenuadas
de alguma forma?
Basta querer, porque, do ponto de vista técnico, dá para
fazer. A primeira necessidade é mudar as regras de funcionamento dos mercados
financeiros. As finanças estão doentes porque se baseiam em leis erradas.
Precisamos que os governos se reúnam à mesa de uma vez por todas e digam:
‘Vamos reescrever os códigos’. Por exemplo, fechar os paraísos fiscais, porque
hoje são uma das principais causas do aumento das desigualdades. Em segundo
lugar, devemos assegurar que as finanças sejam colocadas a serviço da economia
real. Hoje, o oposto é verdadeiro. Há séculos, as finanças serviam para ajudar
empresas, as famílias, todos aqueles que precisavam de ferramentas, e também
sobre isso precisamos escrever: basta com a autorreferencialidade. Porque as
finanças não produzem valor agregado, elas o redistribuem. Isso pode até ser
tolerado, mas hoje se tornou macroevidente, como as crises de 2007-2008 e a
subsequente destacaram. Em terceiro lugar, basta dizer que o objetivo da
empresa não é apenas a maximização do lucro; os mesmos grandes empresários
americanos na sua última declaração, datada de dez dias atrás, disseram:
‘queremos uma economia que tenha como primeiro objetivo não a maximização do
lucro dos diversos acionistas, mas a produção de valor social’.
O Papa também exortou as comunidades cristãs do século xxi a fazer com que os próprios bens
produzissem frutificassem também para os outros, seguindo o exemplo das
primeiras comunidades cristãs. Esse também é um caminho importante a ser
perseguido?
Perto dos bens privados e dos bens públicos, existem os bens
comuns. O meio ambiente é um bem comum; a água é um bem comum; a vacina contra
o coronavírus, por exemplo, é um bem comum, ou seja, são bens que não são nem
do indivíduo nem do organismo público, do Estado, mas são da comunidade. A fim
de revitalizar a lógica do bem comum, há necessidade de comunidade, ou seja,
grupos de pessoas que realizem concretamente, em sua vida diária, a lógica da
aplicação do bem comum. É assim que o convite do Papa deveria ser visto:
‘vocês, comunidades cristãs, trabalhem duro’. Isso deve começar com testemunhos
concretos, que já estão acontecendo, de realidades de pessoas que se reúnem
para aplicar a lógica do bem comum. É por isso que, por exemplo, nasceram as
cooperativas comunitárias.
Para as sociedades ocidentais, apoiar a família com
filhos, especialmente as mães — que trabalham ou não, em realidades onde a taxa
de natalidade está caindo, e também se concentrar na formação dos jovens, são
formas de sair melhor da crise?
São indispensáveis porque o Papa — não ontem, mas em outras
ocasiões — insistiu apropriadamente na recuperação do papel e da função da
família. Mas, em todo o mundo, ‘maus professores’ pensaram que, destruindo a
família como instituição e concentrando tudo no individualismo exasperado, poderíamos
melhorar a situação. Esse é o maior erro porque a família é a primeira
economia. Se esquecermos isso, perdemos a oportunidade de entender uma das
principais forças de transformação da estrutura atual. Quem é o primeiro médico
das crianças? A família. Qual é o primeiro lugar para a educação e a formação
dos jovens? A família. Colocá-lo de volta ao centro significa colocar a figura
da pessoa e, em particular, da mulher de volta ao centro.
Debora Donnini, em Vatican News

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