Com o Evangelho, aprender a perder para ganhar


A expressão «perder» é dita por Jesus seis vezes no Evangelho de São Mateus:

Mt 5, 29:  Portanto, se a tua vista direita for para ti origem de pecado, arranca-a e lança-a fora, pois é melhor perder-se um dos teus órgãos do que todo o teu corpo ser lançado à Geena.

Mt 5, 30: E se a tua mão direita for para ti origem de pecado, corta-a e lança-a fora, porque é melhor perder-se um só dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado à Geena.

Mt 10, 39: Aquele que conservar a vida para si, há de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há de salvá-la.

Mt 16, 25:  Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.

Mt 16, 26: Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Ou que poderá dar o homem em troca da sua vida?

Nestas frases, Jesus não está a falar de um tema religioso. Está a apresentar aos Seus discípulos qual é o verdadeiro valor da vida.

O dito está expresso de forma paradoxal e provocadora. Há duas formas muito diferentes de orientar a vida: uma conduz à perdição, a outra, à salvação.

O primeiro caminho consiste em agarrar-se à vida, vivendo exclusivamente para si mesmo: fazer do próprio «eu» a razão última e o objetivo supremo da existência. Este modo de viver, procurando sempre o próprio lucro ou vantagem, conduz o ser humano à perdição.

O segundo caminho consiste em saber perder vivendo como Jesus, abertos ao objetivo último do projeto humanizador do Pai: saber renunciar à própria segurança ou lucro, procurando não só o próprio bem, mas também o dos outros. Este modo generoso de viver conduz o ser humano à Sua salvação.

Jesus está a falar desde a Sua fé num Deus salvador, mas as Suas palavras são uma grave advertência para todos. Que futuro espera a uma humanidade dividida e fragmentada onde os poderes económicos procuram o seu próprio benefício; os países o seu próprio bem-estar; os indivíduos o seu próprio interesse?

A lógica que dirige nestes momentos a marcha do mundo é irracional. Os povos e os indivíduos, estamos a cair pouco a pouco na escravidão do «ter sempre mais». Tudo é pouco para nos sentirmos satisfeitos. Para viver bem necessitamos sempre mais produtividade, mais consumo, mais bem-estar material, mais poder sobre os outros.

Procuramos insaciavelmente o bem-estar, mas, não nos estaremos a desumanizar sempre um pouco mais? Queremos «progredir» cada vez mais, mas, que progresso é este que nos leva a abandonar milhões de seres humanos na miséria, na fome e na desnutrição? Quantos anos poderemos disfrutar do nosso bem-estar fechando as nossas fronteiras aos famintos e a quem procura entre nós refúgio de tantas guerras?

Se os países privilegiados só procuram «salvar» o nosso nível de bem-estar, se não queremos perder o nosso potencial económico, jamais daremos passos para uma solidariedade a nível mundial. Mas não nos enganemos. O mundo será cada vez mais inseguro e mais inabitável para todos, também para nós. Para salvar a vida humana no mundo temos de aprender a perder.





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