Alessandra Smerilli, religiosa do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, doutora em Economia e
consultora do Vaticano, coordena os impulsos vaticanos para uma economia
sustentável após a pandemia da Covid-19. Nesta entrevista, ela explica porque,
para um mundo melhor depois da crise, também é preciso que haja mais mulheres
em cargos de chefia.
Roland Juchemin, em Domradio.de. Tradução: Moisés Sbardelotto.
Irmã Alessandra, você faz parte da comissão sobre a Covid-19
do Vaticano, que se ocupa das consequências da pandemia. Já se falou das
oportunidades de um novo começo no âmbito económico e social após o
confinamento. Existem sinais positivos ou são simples desejos?
Acho que a mudança é possível. Mas ela não ocorre
automaticamente. Tendemos a voltar ao estilo de vida habitual. A pandemia já
introduziu mudanças. Segundo alguns estudos, nas oito semanas de confinamento,
a digitalização do mundo do trabalho deu passos, para os quais, de outra forma,
seriam necessários cinco anos. Para outras mudanças que todos esperam – um
ambiente mais saudável, maior justiça social – os governos e as empresas
precisam de impulsos e de ajudas para canalizar os desenvolvimentos de forma
adequada.
E vocês dão tais impulsos?
Sim, tentamos promover e apoiar esses processos. É por isso
que trabalhamos a nível internacional com especialistas em economia, empresas,
agências de consultoria para chegar aos mais importantes tomadores de decisão.
Trata-se principalmente de dar voz aos pobres e àqueles que foram esquecidos
por causa da pandemia. Precisamente nesta semana, o papa exortou a evitar que o
dinheiro público seja atribuído a empresas que não trabalham de maneira inclusiva
e sustentável.
Mas hoje todo governo e toda empresa não estão tentando
aplacar o crescente descontentamento com medidas que muitas vezes estão longe
de ser sustentáveis?
Sim, é isso. Por isso, são necessários tomadores de decisão
sábios, que são aqueles que queremos apoiar. A Europa, com o “New Green Deal” [proposta para transformar o sistema econômico através de uma redução drástica das emissões de gases de efeito estufa e a aposta pela eficiência energética],
por exemplo, tem uma estratégia clara. No entanto, existem lobbies que
obstaculizam o desenvolvimento sustentável; ameaçam o perigo de que, depois, as
empresas terão que demitir os colaboradores. Mas existem estudos que preveem
com precisão onde e quais postos de trabalho serão perdidos e como as pessoas
deverão ser formadas e apoiadas para que possam encontrar trabalho em outro
lugar. Por isso, é importante dizer claramente o que favorece o bem comum e
quais passos é preciso dar para fazer isso.
Você foi nomeada pela ministra italiana para a Família e a
Igualdade de Oportunidades, Elena Bonetti, para uma comissão consultiva
composta apenas por mulheres. Qual é a situação das mulheres após seis meses de
pandemia?
Os nossos dados mostram que as mulheres são as mais afetadas
tanto social quanto economicamente. Durante o confinamento, quando todos
tiveram que ficar em casa, apenas 55% dos homens assumiram mais as tarefas
domésticas. Em quase a metade das famílias, o trabalho doméstico e o cuidado dos
filhos a serem acompanhados também nas aulas on-line continuaram ficando a
cargo das mulheres – acrescentando-se ao seu trabalho profissional. Se no
outono [europeu] as escolas não forem retomadas normalmente, muitas mulheres
não poderão voltar a trabalhar. Na Itália, esse é um problema cultural.
É um problema mais grave na Itália do que em outros Estados?
Sim. No índice Gender-Pay-Gap, a diferença salarial entre
mulheres e homens para a mesma atividade, considerando-se 144 Estados no mundo,
a Itália vê nada menos do que 120 países em situação melhor do que a sua.
Mais sustentabilidade, mais justiça social, mais justiça
entre os gêneros: esses são objetivos bonitos e importantes, mas todos eles
podem ser alcançados?
É uma esperança! Os Estados nos quais as mulheres estiveram
mais envolvidas na tomada de decisões para enfrentar a pandemia superaram
melhor a crise até agora. As medidas foram tomadas e organizadas com mais
rapidez e comunicadas de forma mais clara e empática. A ponto de explicar tais
medidas expressamente também às crianças e aos adolescentes, como fez a chefe
de governo da Nova Zelândia, Jacinda Ardern. Dirigir-se à geração futuro é um
traço tipicamente feminino, no caso da pandemia extremamente importante.
Na Igreja Católica, o predomínio masculino é particularmente
forte. Quais são as suas experiências nessa monocultura masculina?
Estamos no bom caminho. Não só no Vaticano, mas também na
Conferência Episcopal Italiana. Em um mundo de predomínio masculino como o
Vaticano, não há necessariamente apenas uma má vontade de assumir mulheres. As
mulheres são até menos conhecidas, suas habilidades não são conhecidas.
Você diz que está no bom caminho. Mas com que velocidade?
O Papa Francisco dá sinais importantes. Mas não depende
apenas dele. É um processo igualmente importante que também deve ocorrer nas
dioceses, nas paróquias, nos movimentos. Além disso, é necessária uma
legitimação especial: nós, mulheres, devemos nos colocar em jogo, sem timidez
nem senso de inferioridade. Lembro-me no Sínodo dos os jovens, em 2018, quando
o cardeal Reinhard Marx relatou as experiências no âmbito alemão de como as
mulheres deviam assumir responsabilidades nos órgãos eclesiais e como elas eram
expressamente favorecidas e preparadas. Precisamos disso ainda mais.
O papa nomeou um jesuíta para a direção da Secretaria para a
Economia, e outro homem tornou-se recentemente secretário-geral desse órgão. No
entanto, o próprio papa disse que havia duas candidatas. Uma oportunidade
perdida?
Talvez sim. Mas esse cargo atualmente é muito delicado.
Havia enormes expectativas no nível midiático em relação à nomeação de uma
mulher. Isso dificultaria o desempenho das funções decorrentes dessa nomeação
com a necessária discrição. Frequentemente, essa atenção midiática desencoraja
as pessoas a se candidatarem para um certo cargo e as impede no trabalho.
Você teria sido uma boa escolha para um desses cargos?
Acho que não, porque sou uma académica.
Quando você lida com meninas ou mulheres jovens, você
percebe o que as desencoraja ou as perturba de modo particular?
A nível universitário, encontro um grande entusiasmo e vejo
que essas jovens mulheres têm expectativas muito claras. As decepções chegam
mais tarde, nas empresas ou nas organizações, quando se dão conta de que há
poucas oportunidades para elas.
Você é um exemplo para as mulheres jovens?
Tento superar os estereótipos e abrir caminhos para outras:
como religiosa, como graduada em economia, como consultora política. É por isso
que eu também participo de debates na televisão. E, quando alguém me diz, como
já aconteceu: “Volte ao convento para rezar!”, eu respondo que Deus se fez
homem para se encarregar do mundo e dos seus problemas. E que eu também fui
chamada para fazer isso. Principalmente os jovens me dizem: siga em frente,
mostre-nos o que é possível.
Para aprofundar

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