Os quatro sonhos do Papa Francisco para a Europa


O Papa Francisco, em carta enviada ao 
cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do vaticano, por ocasião do 40.º aniversário da Comissão dos Episcopados da União Europeia (COMECE), do 50.º  aniversário das relações diplomáticas entre a Santa Sé e a União Europeia e do 50.º aniversário da presença da Santa Sé como Observador Permanente no Conselho da Europa, partilha os seus sonhos para a Europa:

«Senhor Cardeal! Estas breves palavras brotam da minha solicitude de Pastor e da certeza de que a Europa ainda tem muito para dar ao mundo. Por conseguinte, as mesmas pretendem unicamente ser uma contribuição pessoal para a reflexão solicitada por muitos sobre o seu futuro. Muito grato lhe ficarei se quiser partilhar o seu conteúdo durante os encontros que vai ter, nos próximos dias, com as autoridades europeias e com os membros da COMECE.» 

«Gostaria de dizer à Europa: Tu, que foste uma forja de ideais ao longo dos séculos e agora pareces perder o teu ímpeto, não te detenhas a olhar o teu passado como um álbum de recordações. Com o tempo, até as mais belas recordações se atenuam, e acabamos por deixar de as lembrar. Mais cedo ou mais tarde damo-nos conta de que se esfumam os próprios contornos do rosto, sentimo-nos cansados e amofinados na vivência do presente e, com pouca esperança, ao olhar para o futuro. Depois, sem o ímpeto do ideal, descobrimo-nos frágeis e divididos, mais inclinados a dar voz às lamentações e a deixar-nos atrair por quem faz das lamentações e da divisão um estilo de vida pessoal, social e político.

Europa, volta a encontrar-te! Volta a encontrar os teus ideais, que têm raízes profundas. Sê tu mesma! Não tenhas medo da tua história milenária, que é uma janela para o futuro mais do que para o passado. Não tenhas medo da tua necessidade de verdade que, desde a Grécia antiga, abraçou a terra realçando as interrogações mais profundas de todo o ser humano; da tua necessidade de justiça que se desenvolveu a partir do direito romano e, com o tempo, se tornou respeito por todo o ser humano e pelos seus direitos; da tua necessidade de eternidade, enriquecida pelo encontro com a tradição judaico-cristã, que se espelha no teu património de fé, arte e cultura.

Hoje, enquanto muitos se interrogam desalentados sobre o futuro da Europa, há tantos que a olham com esperança, convencidos de que ela ainda tem algo a oferecer ao mundo e à humanidade. É a mesma confiança que inspirou Robert Schuman, ciente de que «o contributo vital que uma Europa organizada pode dar à civilização é indispensável para se manter relações pacíficas». [Declaração Schuman (Paris, 9 de maio de 1950)] É a mesma confiança que podemos ter também nós, a partir de valores partilhados e radicados na história e cultura desta terra.

Então que Europa sonhamos para o futuro? Em que consiste o seu contributo original? No mundo atual, não se trata de recuperar uma hegemonia política ou uma centralidade geográfica, nem de elaborar soluções inovadoras para os problemas económicos e sociais. A originalidade europeia reside, antes de mais nada, na sua conceção do homem e da realidade, na sua capacidade de iniciativa e na sua solidariedade operosa.

Assim, sonho uma Europa amiga da pessoa e das pessoas. Uma terra onde seja respeitada a dignidade de cada um, onde a pessoa seja um valor em si mesma e não o objeto dum cálculo económico nem uma mercadoria. Uma terra que defenda a vida em todos os seus momentos, desde o instante em que surge invisível no ventre materno até ao seu fim natural, porque nenhum ser humano é dono da sua própria vida ou da dos outros. 

Uma terra que favoreça o trabalho como meio privilegiado para o crescimento pessoal e a edificação do bem comum, criando oportunidades de emprego especialmente para os mais jovens. Ser uma Europa amiga da pessoa significa promover a sua instrução e desenvolvimento cultural; significa proteger os mais frágeis e débeis, especialmente os idosos, os doentes que carecem de tratamentos custosos e as pessoas com deficiência.

 Ser uma Europa amiga da pessoa significa defender os direitos, mas também lembrar os deveres; significa recordar que cada um é chamado a prestar a sua própria contribuição à sociedade, pois ninguém é um universo à parte e não se pode exigir respeito por si mesmo, sem respeito pelos outros; nem se pode receber, se ao mesmo tempo não se está disposto também a dar.

Sonho uma Europa que seja uma família e uma comunidade. Um lugar que saiba valorizar as peculiaridades de cada pessoa e de cada povo, sem esquecer que estão unidos por responsabilidades comuns. Ser família significa viver em unidade, valorizando as diferenças a começar pela diferença fundamental entre homem e mulher. Neste sentido, a Europa é uma verdadeira família de povos, diversos entre si, mas ligados por uma história e um destino comuns. Os últimos anos, e ainda mais a pandemia, têm demonstrado que ninguém pode sobreviver sozinho e que uma certa forma individualista de conceber a vida e a sociedade gera apenas desconforto e solidão. Todo o ser humano aspira a fazer parte duma comunidade, ou melhor, duma realidade maior que o transcenda e dê sentido à sua individualidade. 

Uma Europa dividida, feita de realidades solitárias e independentes, facilmente se achará incapaz de enfrentar os desafios do futuro. Pelo contrário uma Europa-comunidade, solidária e fraterna, saberá valorizar as diferenças e o contributo de cada um para enfrentar, juntos, as questões que a aguardam, a começar pela pandemia, mas também o desafio ecológico, que não diz respeito apenas à proteção dos recursos naturais e à qualidade do ambiente onde habitamos; mas trata-se de escolher entre um modelo de vida que descarta homens e coisas e um modelo inclusivo que valoriza a criação e as criaturas.

Sonho uma Europa solidária e generosa. Um lugar acolhedor e hospitaleiro, onde a caridade – que é a virtude cristã suprema – vença toda a forma de indiferença e egoísmo. A solidariedade é expressão fundamental de toda a comunidade e exige que cuidemos uns dos outros. Falamos sem dúvida duma «solidariedade inteligente», que não se limite apenas a atender às carências fundamentais quando necessário.

Ser solidários significa conduzir quem é mais frágil por um caminho de crescimento pessoal e social, de modo que um dia possa por sua vez ajudar os outros. Como um bom médico, que não se limita a ministrar um medicamento, mas acompanha o paciente até à sua recuperação total.

Ser solidários implica fazer-se próximo. Para a Europa, significa concretamente tornar-se disponível, vizinha e desejosa de apoiar os outros Continentes – penso especialmente na África –, através da cooperação internacional, para se resolverem os conflitos em curso e iniciar um desenvolvimento humano sustentável.

Entretanto a solidariedade alimenta-se de gratuidade e gera gratidão. E a gratidão leva-nos a olhar para o outro com amor; mas, quando nos esquecemos de agradecer pelos benefícios recebidos, estamos mais inclinados a fechar-nos em nós próprios vivendo no medo de tudo o que nos rodeia e é diverso de nós.

Vemos isto nos inúmeros medos que permeiam as nossas sociedades hoje em dia, entre os quais não posso silenciar a difidência a respeito dos migrantes. Só uma Europa que seja comunidade solidária pode enfrentar este desafio de forma profícua, ao passo que as soluções de parte já se demonstraram inadequadas. Com efeito é claro que o devido acolhimento dos migrantes não se pode limitar a meras operações de assistência a quem chega, frequentemente fugindo de conflitos, carestias ou desastres naturais, mas deve permitir a sua integração de tal modo que possam «conhecer, respeitar e até assimilar a cultura e as tradições da nação que os recebe». [Francisco, Discurso aos participantes na Conferência «(Re)Thinking Europe» (28 de outubro de 2017)]

Sonho uma Europa saudavelmente laica, onde Deus e César apareçam distintos, mas não contrapostos. Uma terra aberta à transcendência, onde a pessoa crente se sinta livre para professar publicamente a fé e propor o seu ponto de vista à sociedade. Acabaram-se os tempos do confessionalismo, mas também – assim o esperamos – dum certo laicismo que fecha as portas aos outros e sobretudo a Deus, [Cf. Francisco, Entrevista ao semanário católico belga «Tertio» (7 de dezembro de 2016)] pois é evidente que uma cultura ou um sistema político que não respeite a abertura à transcendência, não respeita adequadamente a pessoa humana.

Os cristãos têm, atualmente, uma grande responsabilidade: como o fermento na massa, são chamados a despertar a consciência da Europa para animar processos que gerem novos dinamismos na sociedade. [Cf. Francisco, Discurso aos participantes na Conferência «(Re)Thinking Europe» (28 de outubro de 2017)] Por isso, exorto-os a empenhar-se corajosa e decididamente, prestando a sua contribuição em todos os âmbitos onde vivem e trabalham.»

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