«Vão às encruzilhadas dos caminhos e convidem para a festa de Deus todos os que encontrarem» (Mt 22, 9)

Leitura do Livro do profeta Isaías
: «O Senhor do Universo há de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos.
[…] Dir-se-á naquele dia: “Eis o nosso Deus, de quem esperávamos a salvação; é o Senhor, em quem pusemos a nossa confiança. Alegremo-nos e rejubilemos, porque nos salvou”» (Is 25, 6-10).

Leitura do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus«Naquele tempo, Jesus disse: “O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. […] Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes.”» (Mt 22, 1-14).

Uma parábola para a sociedade de hoje
Mais uma vez nos encontramos diante de outra parábola luminosa e inquietante. Há um banquete para todos, o banquete da fraternidade, da vida partilhada, do mundo convertido em Reino. Mas muitos querem a sua própria refeição, o seu lugar à parte, para não se misturarem com os outros, para não se “contaminarem”.

É uma parábola que desmascara o nosso contexto atual, onde o mundo se divide em banquetes de alguns e misérias de outros, uma Humanidade em luta por um pão que cria guerras em vez de alimentar abraços e mesas partilhadas.

Isto é surpeendente: Deus é festeiro e convida toda a gente
É típico do Evangelho comparar o Reino de Deus com uma festa de casamento. Jesus revela a imagem de um Deus festeiro, que organiza um surpreendente banquete, convidando a todos “bons e maus”.

Não é um convite para uma vida sem alegria; não é um convite para uma vida amarga, para uma vida onde tudo está proibido. Deus convida sempre para a festa; o Evangelho é convite para a festa de Deus com a Humanidade.

Diante da recusa de muitos dos convidados para participar no banquete, Deus nunca fracassa; a festa do casamento será celebrada; Ele sabe que mesmo aqueles que não receberam o cartão de convite estão dispostos a participar no evento. E Deus não gosta de ver cadeiras vazias; Ele quer “ver a sua casa cheia”.

E dá a impressão de que quanto mais a sala do banquete se enche de convidados, mais aumenta o espaço; porque “ainda havia lugares”. No coração do Pai cabem todos. Ainda há lugares para aqueles a quem ninguém convida; há lugares para os excluídos; há lugares para esses a quem nós marginalizamos; ainda há lugares para esses que nunca encheram o seu estômago; ainda há lugar para esses que nós julgamos como maus; ainda há lugar para esses que nunca ouviram falar do Reino.

A sala do banquete estará cheia. Os empregados serão enviados às encruzilhadas dos caminhos da vida para convidar a todos. E o curioso: “maus e bons”. Também os maus são convidados para a festa de Deus.

Deus convida aqueles que ninguém convida; Deus convida não aqueles que tinham preferência; agora os convidados não têm nome, são todos, são todos os nomes.

Estar com Deus mas relações de gratuidade e doação
Convite, casamento, festa, banquete... tudo está maravilhoso. Mas não se pode estar de qualquer maneira na festa; é preciso estar vestido festivamente, ou seja, estar vestidos do amor e da graça daquele que convidou. Trata-se do traje da alegria, do amor, da graça.

O Reino não é um lugar, mas um novo espaço de relações fundadas na gratuidade e na doação. Isto depende da nossa decisão pessoal de preferi-lo a outras coisas, de confiar na bondade em excesso que nos é revelada. Este salto no vazio não é fácil. Preferimos as seguranças daquilo que conquistamos com o nosso próprio esforço. Não confiamos naquilo que não depende dos nossos méritos, da nossa conta de crédito e débito. Por isso mesmo, muitos rejeitam o convite que aqui se desenha como uma festa de casamento.

Talvez o que mais impede a nossa adesão ao Reino de Deus seja a perda da capacidade de surpreender-nos diante do que nos é proposto. Parece que já temos tudo sabido, que conhecemos de antemão a vontade de Deus que pedimos todos os dias no Pai-Nosso. Por isso, o rei envia os empregados para que saiam pelos caminhos e convidem aqueles que não esperam o convite para a festa, aqueles que não se sentem dignos ou à altura de tal honra.

Dizia o teólogo Karl Rahner que o melhor da vida sempre vem até nós como “presente”, como algo inesperado, surpreendente. Somos envolvidos permanentemente pela Graça..., e nem sempre estamos atentos. São as oportunidades vitais e únicas que aparecem de maneira inesperada. “Não peças a Deus maravilhas, mas a capacidade de maravilhar-te”.

Talvez, agora seja o tempo propício para deixar as seguranças dos negócios, daquilo que trazemos nas mãos sem contar com Deus nem com os irmãos e sair pelos caminhos da surpresa, do inesperado, do presenteado. Só a partir daqui poderemos receber o convite para o banquete da abundância. Porque só aos buscadores do Reino e da sua justiça lhes é oferecido este dom precioso.

O centro da mensagem do Evangelho de hoje
... está em que o Pai convida a todos: “bons e maus”; o banquete é o mesmo para todos. A resposta é a que marca a diferença entre uns e outros; quem prefere as “terras” ou os “negócios”, indica o que de verdade lhe interessa. Quem se acomoda no sucesso não prosseguirá na sua caminhada interior e ficará parado na sua imaturidade humana. Quem confia demais nos seus próprios negócios ou no seu êxito pode romper o vínculo com o coração e renegar o seu verdadeiro eu.

O ser humano é o único ser que, sendo limitado, é totalmente aberto ao infinito. É da fragilidade e da limitação que nasce também a criatividade. Podemos, então, afirmar que a vida está nas encruzilhadas de nossa existência; afirmando de outro modo: as encruzilhadas estão também carregadas de vida. É das encruzilhadas existências que nos pode surpreender o surgimento do novo. É ali que o convite à plenitude de vida ressoa com mais intensidade.

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