Peregrinação de Advento - terceira semana, sábado: A noite de Deus


Um presente para pedir a Deus
Peço o dom da confiança, para que eu possa continuar a minha viagem para Deus mesmo quando a experiência de Deus está ausente.
 
Uma reflexão para o caminho
O que é que de imediato me vem à mente quando ouço a palavra «noite»? Uma cama confortável e um sono retemperador? Ou perigos escuros, gelados e ocultos? A resposta depende das minhas circunstâncias. Se vivo uma existência razoavelmente segura e previsível, é bem provável que seja a primeira. Se os meus dias são, por quaisquer motivos, vividos na precariedade, a segunda resposta pode estar mais próxima da minha experiência. Dado que um dos efeitos da peregrinação, como já vimos, é tornar os peregrinos menos seguro do que é normal, é possível que ela faça com que a noite pareça mais desafiadora.
O místico espanhol S. João da Cruz popularizou a ideia da «noite escura da alma». Trata-se de um período na vida espiritual que pode ser passageiro ou durar décadas, como aconteceu com a Madre Teresa de Calcutá. Parece então que Deus está distante, inalcançável; e que a oração ou outras práticas espirituais não suscitam atração. João está convicto, contudo, de que Deus continua muito próximo de si, e a trabalhar consigo, durante esse tempo.
Ainda que eu possa não ser um místico, é inteiramente possível que tenha passado períodos em que Deus tenha parecido ausente. Pode ser mesmo o que está acontecer agora, neste tempo do Advento. O que fazer? O conselho daqueles que meditaram esse estado na oração é unânime: que eu continue simplesmente a ser fiel à procura de Deus na oração e viva uma existência baseada Nele. O peregrino sabe que toda a noite tem o seu amanhecer, e este virá não importa o quanto frias, escuras ou desconfortáveis forem as horas que o precederam.
 
Uma passagem bíblica para o caminho
Uma dos versículos mais gelados de toda a Escritura surge no final da narração que João faz da Última Ceia. Jesus tinha confrontado Judas Iscariotes, sabendo que ele estava prestes a traí-lo. Judas abandona a sala para convocar os soldados, que em breve prenderão Jesus. Os outros apóstolos, entretanto, continuam a comer e a beber, sem a mínima perceção do que estava a acontecer. João apresenta o contexto em duas breves palavras: «Fazia-se noite» (João 13, 30).
Este detalhe não pretende ser uma informação horária. O Evangelho segundo João reflete frequentemente no contraste entre luz e trevas. Agora as trevas têm a sua hora. Porém, Jesus enfrenta este momento prosseguindo na sua senda de cumprir a vontade do Pai, como Ele a compreende. Nada, nem mesmo o anoitecer, o pode desviar do caminho. É esta consistência perante as graves dificuldades da vida que a oração de hoje o encoraja a buscar.
 
Palavras para a viagem
A Ti, que és Senhor até das trevas, faço hoje minha a oração do cardeal Newman: «Luz terna, suave, no meio da noite, leva-me mais longe».
 
Fonte: P.e Paul Nicholson, SJ, An Advent pilgrimage, KM Publishing

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