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O testamento do bispo Jacques Noyer: «Tínhamos a ingenuidade de pensar que seria por meio do clero que despertaríamos o povo de Deus. Não, é o clamor dos homens e mulheres que vai despertar o clero.»
Falecido em junho passado, Jacques Noyer, bispo
emérito de Amiens, França, deixou um texto no qual reflete sobre a laboriosa
implementação do Concílio Vaticano II e denuncia um certo clericalismo que
impede os cristãos de irem ao encontro do mundo. Trata-se do livro Le Goût
de l’Evangile [O gosto do Evangelho] (Ed. Temps présent). Com o subtítulo:
Alguns questionamentos que a minha fé põe à minha Igreja.
Christophe
Henning, em Unisinos. Tradução: Moisés Sbardelotto
O autor não viu o seu livro. Jacques Noyer faleceu
no dia 2 de junho de 2020, e essa última obra póstuma, publicada em novembro, é
como o seu testamento. Aos 93 anos, o bispo emérito de Amiens entrelaça a vida
da Igreja com o seu próprio caminho, numa confissão às vezes dolorosa:
«Tenho o direito de ser sincero e de admitir que
perdemos.»
Jacques Noyer, densos cabelos brancos e riso
sonoro, foi sem dúvida o último representante de uma geração. Aquela que se
confrontou com os frutos do Concílio Vaticano II e que assistiu impotente à sua
difícil implementação:
«A geração que saiu da guerra com o desejo de mudar
as coisas vai desaparecendo lentamente, e a paisagem volta à tradição.»
Regozijando-se com o modo de fazer do Papa
Francisco, Jacques Noyer reconhece o erro do método.
«Nós tínhamos a ingenuidade de pensar que seria por
meio do clero que despertaríamos o povo de Deus. Não, é o clamor dos homens e
mulheres que vai despertar o clero.»
Sem amargura, mas com sincera dor, até mesmo
reconhecendo uma parte de responsabilidade, o bispo emérito revisita os erros
da Igreja.
«Demorei muito tempo para descobrir que, mesmo na
Igreja, entre os meus amigos padres, podia haver predadores com objetivos
inconfessáveis.»
Insistindo no papel dos leigos e no compromisso dos
cristãos na sociedade, ele descreve o clero com uma linguagem contundente e
iconoclasta. Por exemplo, a respeito do casamento dos padres, ele escreve:
«O celibato eclesiástico é uma falsa aventura. Ele
até corre o risco de ser um prolongamento da infância, em vez do risco da
aventura.»
Percorrendo a história da Eucaristia, Jacques Noyer
também se mostra severo:
«O mundo ao qual devemos anunciar o Evangelho não é
neutro nem ignorante. Ele desconfia de uma Igreja de santos que pretendem dar
uma lição aos pecadores.»
Famoso pelos seus desafogos apaixonados, o bispo Noyer
demonstra um forte amor pela sua Igreja. O seu último livro ressoa como um
apelo à vigilância, como o grito de um ancião que convida à audácia e que
lembra o essencial.
Para além das críticas, ele quis partilhar o seu
gosto pelo Evangelho, pela comunidade, pela Igreja:
«Meu coração de pastor me convida a aceitar os
homens e as mulheres como são. Gosto de caminhar junto com os mais simples, os
menos sábios, os mais pobres.»
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