Avançar para o conteúdo principal
Fim da lei do celibato dos padres?
1. A Igreja hierárquica, que viveu obcecada com o primado da moral
sexual, é cada vez mais confrontada com os escândalos sexuais no seu próprio
seio. Primeiro, foi a hecatombe da pedofilia. Mais recentemente, são as "namoradas"
de padres que vêm denunciar os abusos de que foram ou são vítimas.
O Washington Post acaba de investigar o drama das
mulheres que, sem qualquer apoio, foram obrigadas a viver amores clandestinos e
a esconder e a criar sozinhas filhos das suas relações com padres. A Igreja
vê-se agora confrontada com esses dramas de mulheres que sofreram a violência
sexual, emocional e espiritual do clero. Pam Bond, por exemplo, hoje com 63
anos, contou ao Washington Post que teve em 1986 um filho de
um padre franciscano a quem tinha recorrido pedindo ajuda para o seu casamento.
"Assumo a responsabilidade pelos meus próprios erros, deveria ter sido
suficientemente forte para me não colocar naquela situação", reconhece,
mas também afirma que aquela relação não era plenamente consensual, pois havia
uma diferença de poder entre o padre e ela.
Embora seja difícil estabelecer o número de casos no mundo, pensa-se que
haverá milhares de mulheres nesta situação, vivendo uma relação sexual abusiva
e com filhos mantidos em segredo. Há estudos que concluem que apenas 40% do
clero pratica o celibato. Como já aqui dei conta, o sociólogo Javier Elzo,
da Universidade jesuíta de Deusto, escreveu que 80%, se não mais, do clero
africano, padres e bispos, têm uma vida sexual igual à dos outros africanos.
Evidentemente, toda esta situação exige reflexão profunda, incluindo o
problema das comunidades cristãs que têm direito à celebração da Eucaristia e
não o veem satisfeito por causa da falta do clero.
2. Hoje, os historiadores sérios não têm dúvidas de que Jesus foi
celibatário. É pura "lenda de romance" pretender que Jesus foi casado
com Maria Madalena, esclarecia ainda recentemente um dos maiores especialistas
em cristianismo primitivo, Antonio Piñero, que não é crente, mas agnóstico. Mas
Jesus não impôs a lei do celibato a ninguém. Mais: teve discípulos, como São
Pedro, que eram casados. São Paulo foi igualmente celibatário, mas também não
invocou essa lei; pelo contrário, pergunta na Primeira Carta aos
Coríntios, 9, 5: "Não temos o direito de levar connosco, nas viagens,
uma mulher cristã, como os restantes Apóstolos, os irmãos do Senhor e
Cefas?" Na Primeira Carta a Timóteo, lê-se: "É necessário
que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, ponderado, de bons
costumes, hospitaleiro, capaz de ensinar, que não seja dado ao vinho, nem
violento, mas condescendente, pacífico, desinteressado, que governe bem a
própria casa, mantendo os filhos submissos, com toda a dignidade. Pois, se
alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará ele da Igreja de
Deus?" E a recomendação é repetida na Carta a Tito, 5-6:
"Deixei-te em Creta, para acabares de organizar o que ainda falta e para
colocares presbíteros (padres) em cada cidade, de acordo com as minhas
instruções. Cada um deles deve ser irrepreensível, marido de uma só mulher, com
filhos crentes, e não acusados de vida leviana ou de insubordinação."
Foi muito tarde que o celibato se foi impondo como lei: no século XI,
com o Papa Gregório VII; no século XII, nos Concílios I e II de Latrão, em 1123
e 1139, respectivamente; mas só com o Concílio de Trento, no século XVI, se
impôs a toda a Igreja do Ocidente, pois nas Igrejas católicas do Oriente é
diferente.
3. Assim, vê-se claramente que o celibato enquanto lei não é um dogma. O
próprio Papa Francisco já o reconheceu.
Pessoalmente, estou convicto de que será já no Sínodo sobre a Amazónia,
a realizar em Roma em Outubro próximo, que assistiremos, com a ordenação de
homens casados, ao fim da lei do celibato obrigatório para os padres.
Não sou o único com essa convicção. Há bispos alemães que alimentam a
esperança de que neste Sínodo se operará uma "ruptura" e que, depois
dele, "nada ficará como antes". Quem o diz é o bispo de Essen,
Franz-Josef Overbeck. Também o vice-presidente da Conferência Episcopal Alemã,
Franz-Josef Bode, manifestou a convicção de que o Sínodo trará grandes mudanças
para a Igreja universal, esperando que o celibato para os padres seja
"enriquecido com outras formas sacerdotais de vida", esclarecendo:
"Eu poderia imaginar padres com famílias e trabalhos civis, como os
actuais diáconos permanentes, alguns dos quais são casados e trabalham."
"Devemos reconsiderar a conexão entre o celibato e o sacerdócio",
advogando também o diaconado feminino "como sinal de reconhecimento,
apreço e mudança de estatuto das mulheres na Igreja." Estes "padres
com vocação civil" poderiam "celebrar a Eucaristia e realizar o
correspondente ministério sacerdotal". O bispo Overbeck explicitou o seu
pensamento, declarando que no Sínodo para a Amazónia serão debatidas muitas
questões, como a moral sexual, o celibato obrigatório, o papel das mulheres na
Igreja, a estrutura hierárquica da Igreja com o clericalismo, cada vez mais
criticado como factor determinante na crise dos abusos de menores, sem esquecer
outros temas igualmente fundamentais, como a "imensa exploração" do
meio ambiente, as violações dos direitos humanos dos indígenas, o
"eurocentrismo" da Igreja. Por causa da falta de clero, lembrou que
muitas Igrejas locais na região começam a ser geridas por religiosas e
observou: "O rosto da Igreja local é feminino."
No katholisch.de, reproduzindo o jornal Frankfurter Rundschau,
podem ler-se as seguintes declarações do cardeal Walter Kasper, presidente
emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e um dos
teólogos que o Papa Francisco ouve com mais atenção, produzidas recentemente:
Se precisamente no próximo Sínodo sobre a Amazónia, "os bispos
concordassem em ordenar homens casados, o Papa, na minha opinião, aceitaria
essa posição. O celibato não é um dogma, não é uma prática inalterável".
Isso não seria nada de extraordinário. De facto, no catolicismo de rito
oriental, continua a ordenação de casados e os padres anglicanos casados que se
convertem são aceites na Igreja católica na condição de casados. Mais
importante: a lei do celibato, como ficou dito, não é um dogma de fé, mas uma
medida disciplinar. O que é essencial é que as comunidades cristãs possam
celebrar a Eucaristia, o que nem sempre acontece, e uma das causas é a
exigência, que não provém do Evangelho, do celibato.
Comentários
Enviar um comentário