Poema ao bem-aventurado silêncio, de João Guerra

As montanhas expõem suas vestes telúricas firmes
como as rochas que as compõem,
no silêncio.
 
As árvores crescem e seus frutos amadurecem
na plenitude da sua vida íntima nupcial,
no silêncio.
 
O céu envia a todas as criaturas
uma mensagem azul e transcendente,
no silêncio.
 
Os gritos noturnos dos nossos corações
ouvem-se como sirenes em alerta,
no silêncio.
 
O brilho imaculado da eterna criança
que em nós chora e brinca mostra-se,
no silêncio.
 
Os apelos profundos das coisas e das pessoas
como as fontes e o vento entendem-se,
no silêncio.
 
Vós, Senhor, vivestes o trigo doirado
e a doçura da conversa filial com o Pai,
no silêncio.
 
Vós, Senhor, vencestes os demónios
que habitam a solidão desértica da vida,
no silêncio.
 
Vós, Senhor, recusastes os fartos aplausos
que o mundo tem sempre tão mimosos e falsos,
no silêncio.
 
No silêncio,
ouviremos as vozes do coração das coisas e dos seres,
ouviremos a voz do Espírito em gemidos inenarráveis,
rezaremos o universo, o sol, a terra e os mares,
saciaremos a sede jovem e pura do infinito.
 
No silêncio, seremos nós, o espelho da verdade,
nós, no desnudamento inteiro do viver,
nós, na arquitetura perfeita do ser.
 
Senhor, ensinai-nos a saborear o ouro do silêncio!
 
Ámen!

João Guerra 

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